A espécie está na segunda categoria com maior grau de risco extinção da IUCN / Freepik
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Uma pesquisa recente publicada na revista Conservation Genetics trouxe novas perspectivas para o futuro das baleias-azuis. O estudo aponta que esses animais estão cruzando com baleias-fin, um fenômeno que pode representar uma esperança concreta para a recuperação da espécie. As baleias-azuis figuram na lista de animais ameaçados de extinção desde 1966.
As baleias-azuis que vivem no Atlântico Norte passaram a apresentar genes provenientes das baleias-fin. Essa troca genética ocorre tanto por cruzamentos diretos entre as duas espécies quanto por meio de descendentes híbridos. Esses animais são conhecidos pela ciência como baleias-flue.
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O aspecto mais animador dessa descoberta é a capacidade reprodutiva desses híbridos. Diferentemente do que ocorre na maioria dos casos na natureza, as baleias-flue conseguem se reproduzir normalmente. Essa fertilidade permite que novos genes circulem entre as populações, fortalecendo geneticamente a espécie.
A descoberta também lança luz sobre a recuperação de um passado marcado pela exploração humana. Ao longo do século XX, a caça comercial intensa reduziu drasticamente o número de baleias nos oceanos. As populações do Atlântico Norte e do Pacífico Norte foram especialmente afetadas por esse processo.
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Atualmente, a subespécie baleia musculus musculus é considerada a mais vulnerável entre as baleias-azuis. Diante desse cenário, os cientistas passaram a investigar se esses animais estariam recorrendo a cruzamentos entre indivíduos aparentados. A prática, conhecida como endogamia, pode provocar problemas genéticos sérios nas gerações seguintes.
Para compreender melhor esse fenômeno, os pesquisadores desenvolveram um novo modelo genético da espécie. A partir da junção de fragmentos de DNA de diferentes indivíduos, foi criada uma base confiável de comparação. Com isso, foram analisadas amostras genéticas de 31 baleias-azuis do Atlântico Norte.
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O geneticista Mark Engstrom, da Universidade de Toronto, explicou a complexidade do trabalho. “Esse é um processo longo e trabalhoso, semelhante a montar um enorme quebra-cabeça sem nenhuma imagem na caixa para orientar”, afirmou. Os resultados confirmaram a presença significativa de DNA de baleias-fin nas amostras estudadas.
Os cientistas já tinham conhecimento de encontros ocasionais entre essas duas espécies gigantes. No entanto, acreditava-se que esses episódios fossem raros e sem impacto relevante para as populações. O novo estudo demonstra que esse tipo de cruzamento ocorre com muito mais frequência do que se imaginava.
Além disso, a fertilidade das baleias-flue se mostrou superior ao indicado por pesquisas anteriores. Esse fator possibilita que os híbridos voltem a cruzar com as espécies originais, permitindo que o fluxo genético continue ao longo das gerações. Como resultado, surgem indivíduos com herança mista, mas com predominância genética clara de uma das espécies.
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Essa dinâmica ajuda a explicar por que as baleias-azuis atuais apresentam fragmentos do genoma das baleias-fin. Segundo Mark Engstrom, “a quantidade de introgressão entre as espécies que encontramos foi inesperada e muito maior que a relatada anteriormente”.
Por outro lado, estudos com baleias-fin da mesma região não identificaram o caminho inverso da troca genética. Isso indica que o processo ocorre de forma assimétrica, possivelmente iniciado ou sustentado pelas baleias-azuis, que parecem ter maior propensão ou capacidade de se reproduzir com os híbridos.
Apesar do cenário promissor, os pesquisadores alertam para a necessidade de cautela. Um aumento excessivo da mistura genética pode, ao longo do tempo, reduzir a identidade genética original da baleia-azul, o que pode comprometer sua adaptação a mudanças ambientais mais severas.
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Ainda assim, os dados trazem boas notícias. As taxas de endogamia foram menores do que o esperado, indicando que indivíduos de diferentes áreas oceânicas estão se encontrando e cruzando. Para Engstrom, isso reforça uma perspectiva otimista: “Isso me dá esperança de que, com esforços contínuos de conservação, as populações do Atlântico possam se recuperar”.