Os pombos-correio conseguem voltar para casa mesmo após serem soltos a centenas de quilômetros de distância, uma habilidade que intriga cientistas há décadas. Agora, um novo estudo sugere que parte desse talento extraordinário pode estar ligada ao fígado, e não apenas ao cérebro ou aos sentidos tradicionalmente associados à navegação.
Pesquisadores identificaram células do sistema imunológico carregadas de ferro que poderiam funcionar como sensores do campo magnético da Terra. A descoberta, publicada na revista Science, abre uma nova linha de investigação sobre um dos maiores mistérios do reino animal.
Por enquanto, a hipótese ainda levanta debates entre especialistas. Mesmo assim, os resultados revelam um possível mecanismo que pode mudar a forma como a ciência entende a orientação das aves.
Órgão inesperado entrou na investigação
Durante muito tempo, pesquisadores acreditaram que a capacidade de navegação dos pombos estava concentrada em estruturas do cérebro ou do ouvido interno. Entretanto, o estudo aponta para um candidato bastante improvável: o fígado.
No órgão, cientistas encontraram macrófagos, células do sistema imunológico que acumulam ferro. Segundo a hipótese proposta pelos autores, essas estruturas seriam capazes de perceber pequenas variações no campo magnético terrestre.
Essa informação funcionaria como uma espécie de bússola biológica. Em vez de substituir a visão ou outras referências ambientais, ela ajudaria os pombos a se orientar em situações nas quais o ambiente se torna mais desafiador.
Testes revelaram uma diferença importante
Para investigar a hipótese, os pesquisadores realizaram experimentos com 34 pombos-correio. Em parte das aves, foi aplicado um tratamento destinado a reduzir a quantidade de macrófagos ricos em ferro presentes no fígado.
Os resultados chamaram atenção principalmente em dias de neblina. Nessas condições, os pombos que passaram pela intervenção apresentaram mais dificuldade para retornar ao pombal, enquanto as demais aves conseguiram completar o percurso normalmente.
Quando os testes foram repetidos em dias de céu limpo, porém, a diferença praticamente desapareceu. Isso sugere que a percepção magnética pode ser usada como um recurso adicional quando o Sol e a paisagem deixam de oferecer pontos de referência.
Descoberta ainda levanta dúvidas
Apesar do entusiasmo em torno do estudo, nem todos os especialistas concordam com a interpretação dos resultados. Alguns pesquisadores acreditam que outros fatores podem ter influenciado o desempenho das aves durante os experimentos.
Entre as hipóteses alternativas estão possíveis alterações na cognição, na motivação ou até na capacidade visual dos pombos. Além disso, muitos cientistas continuam considerando o ouvido interno como o principal candidato para explicar a percepção magnética.
Os próprios autores reconhecem que ainda existem perguntas sem resposta. A principal delas é entender como um eventual sinal produzido no fígado chegaria ao cérebro. Mesmo assim, a pesquisa abre uma nova janela para desvendar uma habilidade que continua desafiando a ciência.






