Cientistas brasileiros conseguem ‘prever’ câncer ao analisar sangue de pacientes saudáveis

Maior estudo genômico do país revela que alterações hereditárias podem antecipar o risco de câncer e mudar completamente o tratamento e a prevenção

Pesquisa com pacientes do SUS mostra que o DNA pode esconder sinais de câncer antes mesmo do diagnóstico e acende alerta para famílias inteiras (Foto: Agência Brasil)

Pesquisa com pacientes do SUS mostra que o DNA pode esconder sinais de câncer antes mesmo do diagnóstico e acende alerta para famílias inteiras (Foto: Agência Brasil)

O câncer pode não começar onde muita gente imagina. Ele pode estar escondido no DNA, silencioso, atravessando gerações sem dar sinais. Agora, um estudo brasileiro levanta uma dúvida inquietante: e se fosse possível prever parte desses casos antes mesmo do diagnóstico?

Foi essa a pergunta que guiou o maior estudo genômico do câncer já feito no país. A pesquisa analisou pacientes atendidos em hospitais públicos e encontrou um dado que chamou atenção: 1 em cada 10 carregava uma mutação hereditária ligada à doença.

Publicado no periódico científico The Lancet Regional Health – Americas, o trabalho sequenciou o genoma de 275 pacientes com câncer de mama, próstata e intestino. O objetivo era entender como o DNA influencia não só o surgimento, mas também o comportamento da doença.

O que o DNA revelou no maior estudo do Brasil

O levantamento integra o Mapa Genoma Brasil, iniciativa do Ministério da Saúde. O resultado mostra que o câncer pode ter uma assinatura genética familiar, capaz de ser identificada antes mesmo de qualquer sintoma aparecer.

“Nem toda mutação muda a droga imediatamente, mas todas mudam alguma coisa — a vigilância, a possibilidade de cirurgia preventiva, o alerta para a família”, explica o urologista e cirurgião oncológico Gustavo Cardoso Guimarães, ao G1.

Quando o risco aparece antes da doença

Em alguns casos, o impacto é imediato. Mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, por exemplo, podem abrir caminho para terapias mais direcionadas. Sem esse teste, o médico pode nem saber que o paciente tem acesso a essas opções.

No câncer de intestino, alterações em genes como MLH1 e MSH6 ajudam a prever resposta à imunoterapia. Isso muda completamente a estratégia, já que o tratamento passa a estimular o próprio sistema imunológico contra o tumor.

O parente que ainda não sabe

O dado mais sensível não está nos pacientes, mas nas famílias. Entre parentes testados após o diagnóstico, quase 40% também carregavam a mesma mutação, mesmo sem sinais da doença. O risco já estava lá, silencioso.

Isso significa que irmãos, filhos e pais podem conviver com uma predisposição sem saber. Em alguns casos, o risco de câncer de mama pode chegar a 85% ao longo da vida, dependendo da mutação identificada.

Uma mutação com assinatura brasileira

Entre os achados, uma variante chamou atenção: a TP53 R337H. Ligada à síndrome de Li-Fraumeni, ela tem alta prevalência no Brasil e pode estar em cerca de 1 a cada 300 pessoas em algumas regiões.

Estudos apontam que essa mutação se espalhou a partir de um ancestral comum há cerca de 300 anos. Isso ajuda a explicar por que o País tem um perfil genético tão particular em relação ao câncer.

Por que o brasil muda a leitura genética

Quase 59% dos participantes se declararam pardos, refletindo a miscigenação brasileira. Isso é importante porque muitas bases genéticas globais ainda são dominadas por populações europeias, o que limita interpretações mais precisas.

Como resultado, algumas mutações aparecem como “incertas” simplesmente por falta de comparação. No Brasil, isso pode atrasar diagnósticos ou esconder riscos reais que ainda não foram totalmente mapeados.

O desafio do SUS

Apesar dos avanços, o acesso ao teste genético ainda é restrito. O país tem menos de 500 geneticistas clínicos para mais de 200 milhões de pessoas, concentrados em grandes centros urbanos.

Por isso, pesquisadores defendem triagem inicial simples, baseada no histórico familiar, para identificar quem realmente precisa do exame. O objetivo é levar o diagnóstico antes do tumor aparecer.

Na prática, o estudo sugere uma mudança de rota. Não se trata apenas de tratar o câncer, mas de encontrar sinais no DNA antes que ele se torne doença. Para muitas famílias, isso pode significar tempo, vigilância e, em alguns casos, prevenção.