Chuvas intensas relembram tragédia que deixou 436 mortos e levou à criação da Defesa Civil em SP

A catástrofe que devastou Caraguatatuba em março de 1967 e que se tornou um marco na história da gestão de riscos no Estado

A dimensão da tragédia foi uma das principais razões para a criação da Defesa Civil do Estado de São Paulo.

A dimensão da tragédia foi uma das principais razões para a criação da Defesa Civil do Estado de São Paulo. | Rovena Rosa/Agência Brasil

As fortes chuvas que atingem o litoral paulista em 2026 reacendem a memória de um dos maiores desastres naturais já registrados no Brasil, a catástrofe que devastou Caraguatatuba em março de 1967 e que se tornou um marco na história da gestão de riscos no Estado.

Conhecido como “Hecatombe” ou “Catástrofe de 1967”, o episódio deixou 436 mortos, segundo números oficiais, cerca de 3 mil pessoas desalojadas e dez bairros atingidos. A dimensão da tragédia foi uma das principais razões para a criação da Defesa Civil do Estado de São Paulo.

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A sequência do desastre

A chuva já caía de forma intermitente na sexta-feira, 17 de março de 1967, provocando pontos de alagamento. No sábado, dia 18, a precipitação se intensificou de maneira extrema. Pela manhã começaram os primeiros deslizamentos; à tarde, a situação saiu do controle.

Por volta das 13h, uma avalanche de pedras, árvores e lama desceu dos morros Cruzeiro, Jaraguá e Jaraguazinho. Estrondos eram ouvidos pela população, mas a visibilidade, reduzida a cerca de 20 metros por causa da chuva intensa, impedia que se tivesse noção exata da dimensão do que estava acontecendo.

Às 15h30, novos deslizamentos isolaram completamente a cidade. A Rodovia dos Tamoios foi destruída em vários trechos, veículos ficaram presos na serra e os acessos para Ubatuba e São Sebastião foram interditados. A ajuda só conseguiu chegar por mar e por ar.

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O Rio Santo Antônio transbordou de forma impressionante: sua largura saltou de 40 para 200 metros. A lama avançou junto com as águas.

Bairros soterrados e cidade devastada

No bairro Rio do Ouro, barreiras começaram a cair ainda pela manhã, formando uma grande represa natural que se rompeu horas depois. O rompimento arrastou construções, destruiu a principal ponte da região e praticamente apagou o bairro do mapa. Especialistas avaliam que, se a represa improvisada não tivesse cedido naquele momento, o volume de água poderia ter inundado toda a cidade.

Trechos inteiros da estrada da serra desapareceram, formando precipícios de mais de 100 metros de profundidade. Na Estrada de Ubatuba, quedas de barreira cobriram a pista com até 80 centímetros de lama. O fornecimento de energia ficou interrompido por três dias.

Além das 436 mortes contabilizadas oficialmente, moradores da época relatam que o número real pode ter sido maior, já que muitos corpos nunca foram encontrados, arrastados pelo mar ou soterrados.

Impactos econômicos e legado

O desastre também teve forte impacto econômico. A tradicional Fazenda dos Ingleses encerrou suas atividades após a enchente, agravando um cenário de declínio que já se desenhava desde o pós-guerra.

Diante da dimensão da tragédia, o Estado estruturou mecanismos permanentes de monitoramento e resposta a desastres, culminando na criação da Defesa Civil paulista. Desde então, planos preventivos passaram a ser elaborados anualmente para o período de chuvas intensas.