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Vestida de luto e com um véu cobrindo o rosto, ela se ajoelhava no gradil da Rua Dr. Cochrane, enxugava as lágrimas com um lenço e acenava para dentro da necrópole
Há poucos metros da folia no centro de Santos vive um fantasma... / Imagem ilustrativa/Gemini
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O Carnaval no Centro Histórico de Santos é um encontro entre a festa e a memória. Mas, enquanto o Carnabonde apita na Praça Mauá, o bairro do Paquetá guarda o eco de uma tragédia do final do século XIX que a cidade nunca esqueceu: a história de Maria M., a mulher que desafiou os costumes da alta sociedade por um amor proibido.
Maria era uma jovem de família abastada que frequentava a antiga Matriz de Santos. Sua vida mudou drasticamente ao se envolver com um alto clérigo da igreja. Desse relacionamento proibido, nasceu uma criança, fruto de um amor que a elite santista da época tentou apagar a qualquer custo.
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Expulsa de casa pela família e rejeitada pela sociedade, Maria viu sua dor aumentar quando seu filho faleceu com apenas sete dias de vida (vítima do chamado "mal de sete dias"). O bebê foi enterrado na quadra infantil do Cemitério do Paquetá, e Maria, sem mais nada no mundo, passou a viver em função daquele pequeno túmulo, que só podia visitar quando todos estivessem dormindo, evitando xingamentos e agressões da população da época.
A lenda conta que Maria ia todas as noites ao portão do cemitério, pontualmente à meia-noite, para chorar e velar o filho. Vestida de luto e com um véu cobrindo o rosto, ela se ajoelhava no gradil da Rua Dr. Cochrane, enxugava as lágrimas com um lenço e acenava para dentro, em direção à sepultura da criança.
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A visão daquela mulher solitária e sofrida assustava os moradores, que passaram a chamá-la de "O Fantasma do Paquetá". A história foi tão marcante que, em julho de 1900, a polícia chegou a cercar o cemitério com cavalaria para tentar "capturar" a aparição, mas Maria nunca foi detida; ela definhou em tristeza e solidão pouco tempo depois.
Neste fim de semana, o Carnaval traz o brilho de volta às ruas por onde Maria caminhou. O contraste é profundo: o riso dos blocos e a batucada do Carnabonde acontecem a poucos metros do local onde o pranto de uma mãe se tornou eterno.
Dizem que, no silêncio que sucede o fim da folia, ainda é possível ouvir um soluço baixo perto dos portões do Paquetá. Maria não busca assustar os foliões; ela apenas permanece fiel à promessa de nunca deixar seu filho sozinho, lembrando a todos que, por trás das máscaras de Carnaval, Santos guarda histórias de amores e perdas que nem o tempo, nem a morte, puderam apagar.
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