Um simples arranhão de gato pode transmitir uma doença pouco conhecida, mas capaz de provocar lesões graves na pele e atingir até o sistema linfático. Agora, uma nova pesquisa revelou que o fungo responsável pela esporotricose também está presente em animais selvagens, ampliando as preocupações sobre sua circulação na natureza.
O estudo, publicado na revista Mycopathologia, identificou o DNA de espécies do fungo Sporothrix em aves, mamíferos e até em um réptil. A descoberta sugere que os reservatórios do microrganismo podem ser muito mais numerosos do que os cientistas imaginavam.
A pesquisa foi conduzida por cientistas brasileiros, apoiada pela Fapesp, e aponta para uma possível mudança na compreensão sobre como a doença se espalha entre animais e humanos.
Fungo vai além dos gatos domésticos
A esporotricose é conhecida principalmente pela transmissão entre gatos. O problema começa quando o animal infectado arranha ou morde uma pessoa, permitindo a entrada do fungo pela pele. Em muitos casos, surgem feridas que demoram a cicatrizar e exigem tratamento médico.
Agora, pesquisadores identificaram três espécies do fungo do gênero Sporothrix em órgãos internos de animais silvestres. Entre elas está a Sporothrix brasiliensis, considerada a principal responsável pelos casos de esporotricose registrados no Brasil.
Segundo o coordenador do estudo, Anderson Messias Rodrigues, da Universidade Federal de São Paulo, em entrevista à revista Fapesp, a descoberta indica que o fungo “está circulando mais do que imaginávamos, com potencial risco para a saúde humana e animal”.
Descoberta surpreendeu os cientistas
Os pesquisadores analisaram animais mortos por atropelamento em rodovias do Paraná entre 2017 e 2023. Foram estudadas amostras de coração, fígado, pulmão e bexiga de 81 animais, incluindo mamíferos, aves e répteis.
Ao todo, o DNA do fungo foi encontrado em 11 animais. O dado chamou atenção porque algumas espécies positivas, como aves, eram consideradas naturalmente protegidas contra esse tipo de infecção por causa de sua elevada temperatura corporal.
“Vimos nesse estudo que as espécies patogênicas suportam, sim, temperaturas corporais altas”, afirma a pesquisadora Steffanie Skau Amadei, primeira autora do trabalho. A descoberta derruba uma antiga hipótese da comunidade científica.
Descoberta pode mudar a vigilância da doença
Os resultados indicam que regiões onde áreas urbanas, rurais e de vegetação nativa se encontram podem favorecer o contato entre animais domésticos e silvestres, ampliando as possibilidades de circulação do fungo.
Os cientistas também encontraram a presença do microrganismo em uma espécie ameaçada de extinção, o gato-do-mato-do-sul, e em uma cobra-coral-falsa. Isso sugere que diferentes animais podem carregar o fungo, mesmo sem apresentar sinais aparentes de doença.
Para os pesquisadores, o estudo abre caminho para novas investigações sobre a esporotricose e mostra que a observação de animais silvestres mortos pode se tornar uma ferramenta importante de vigilância em saúde. Enquanto isso, a descoberta reforça um alerta simples: um arranhão de gato nunca deve ser ignorado.






