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Manifestações foram realizadas recentemente no jogo on-line por parte do público infantil. Contudo, esses eventos podem ser perigosos à segurança digital
Crianças utilizam placas dentro do Roblox para protestar contra a restrição do chat, levantando debates sobre liberdade de expressão e segurança digital / Reprodução/X/Captura de tela
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A plataforma de jogos on-line, Roblox, implantou novas funcionalidades em seu sistema no dia 7 de janeiro, quarta-feira. Como forma de evitar que o público infantil tivesse contato com jogadores mais velhos, o recurso de "chat" foi restringido, necessitando que uma biometria facial fosse realizada para confirmar a identidade.
A ação teve o objetivo de proporcionar uma experiência mais segura a seus usuários, protegendo crianças de jogadores maliciosos. No entanto, essa decisão gerou uma grande polêmica principalmente entre o público infantil, que realizou manifestações escrevendo em placas em prol de sua liberdade de expressão.
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Com todo o caos presenciado na plataforma, especialistas alertam que esse tipo de evento pode ser extremamente perigoso para a segurança digital dos usuários, principalmente quando crianças estão envolvidas nesse meio.
Segundo Dario Freitas, delegado de polícia, o principal risco se caracteriza pela exposição de usuários menores de idade na plataforma, visto que esses eventos podem contribuir às interações digitais até mesmo com desconhecidos.
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"Esses eventos aumentam significativamente o número de interações simultâneas, o que dificulta qualquer tipo de controle e favorece a aproximação de pessoas mal-intencionadas. Nesse contexto, crianças podem acabar compartilhando informações pessoais sem perceber, como nome, idade, escola, rotina, endereço ou localização aproximada, ampliando o risco de abordagens abusivas".
Além disso, o delegado explica que, devido à natureza conturbada desse tipo de acontecimento, outra ameaça em potencial é a presença de conteúdos inadequados ao público juvenil. Estes podem resultar, até mesmo, em impactos psicológicos, uma vez que as funções cognitivas da criança ainda estão em desenvolvimento.
"Outro fator relevante é a rápida escalada de conflitos. O que inicialmente surge como uma manifestação pode se transformar em xingamentos, perseguições virtuais e ameaças, gerando impactos psicológicos importantes, como medo, ansiedade e sensação de insegurança, especialmente em crianças e adolescentes".
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Entre os diversos fatores mencionados por Freitas, alguns podem acabar em crimes virtuais, principalmente quando se trata do bullying virtual (cyberbullying). Isto é, o que muitas vezes era para ser "apenas uma brincadeira" pode se tornar palco para perigos reais e que não devem ser ignorados.
"Esses protestos virtuais podem estar associados a diferentes tipos de crimes cibernéticos. Entre os mais recorrentes estão o cyberbullying, as ameaças e a perseguição digital, sobretudo quando há reiteração das condutas. Em situações mais graves, esses ambientes também podem ser utilizados para o chamado grooming, que consiste no aliciamento de crianças por adultos que se passam por amigos ou colegas, com o objetivo de conquistar confiança e avançar para interações inadequadas".
Aproveite e leia também: Roblox passa a exigir verificação facial de idade para acessar chats e tenta frear riscos a crianças
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A inocência da criança pode ser considerado algo encantador e puro, porém, nos jogos on-line, muitos jogadores podem utilizar dessa vulnerabilidade para seus próprios benefícios. A manipulação em ambientes virtuais não é um acontecimento raro e deve ser tratado como um alerta gravíssimo.
Freitas destaca que, em muitos casos, os jovens são convencidos a fazer contato com o usuário malicioso fora do jogo, sem nem ter ideia de suas reais intenções.
"Há registros frequentes de que plataformas de jogos online são utilizadas como ponto inicial de contato. Após essa primeira aproximação, o agressor costuma tentar levar a conversa para fora do jogo, convidando a criança para aplicativos de mensagens ou redes sociais. Esse deslocamento representa um momento crítico, pois fora do ambiente do jogo há menos moderação, menos filtros automáticos e maior possibilidade de comunicação privada e sigilosa".
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Ainda sobre o contato externo com desconhecidos, o professor universitário e especialista na área tecnológica, Luis Mauá, cita a plataforma digital "Discord" como um dos meios de comunicação utilizado por indivíduos mal-intencionados.
"Pessoas mal-intencionadas costumam fingir ser outra criança, usar o tema do protesto para gerar empatia, aproximar-se pelo chat privado e até mesmo migrar a conversa para fora do Roblox. As plataformas podem incluir o Discord, WhatsApp e outros links externos".
Outro alerta importante dado por Mauá é que as "placas" utilizadas para realizar os protestos, graças à restrição do chat público, podem incentivar as crianças a comportamentos inadequados, deixando-as "na palma da mão" de jogadores criminosos.
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"Chats públicos e placas dentro do jogo podem ser usados para criar pânico, induzir culpa, criar líderes falsos, incentivar comportamentos extremos e, em muitas situações, direcionar jovens para grupos externos".
Considerando todos os aspectos já mencionados, a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital é um aspecto fundamental, e pode ser realizada com medidas simples, mas cautelosas.
Ainda de acordo com o delegado, o trabalho policial não deixa de ser aplicada mesmo em espaços que, muitas vezes, parecem ser "inofensivos", como os jogos digitais.
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"A atuação policial normalmente tem início a partir de denúncias feitas por familiares, escolas, usuários ou pelas próprias plataformas digitais. A partir dessas informações, são analisados padrões de comportamento digital considerados de risco, como insistência em conversas privadas, pedidos de sigilo, tentativas de criar vínculos emocionais rápidos e convites repetidos para sair do ambiente do jogo. Nos casos que envolvem crianças e adolescentes, a prioridade é a proteção da vítima, a interrupção da situação de risco e a preservação de provas para a responsabilização dos envolvidos".
Igualmente, Freitas ressalta que controle parental é uma questão essencial para garantir a segurança digital de jovens, evitando que eles se tornem vítimas de criminosos.
"As famílias exercem papel fundamental na prevenção. É essencial ativar controles parentais, restringir contatos, acompanhar com quem a criança interage e manter um diálogo constante sobre segurança digital. A criança precisa compreender que não deve conversar com desconhecidos, compartilhar informações pessoais ou aceitar convites para sair do jogo sem o conhecimento de um adulto responsável".
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Ainda sobre a constante presença parental, Mauá complementa, dizendo que a orientação prévia é profundamente necessária para a diversão com segurança.
"A criança precisa aprender a nunca compartilhar dados pessoais e a nunca sair do jogo a pedido de estranhos. É importante sempre avisar um adulto se algo parecer estranho".
Entretanto, o professor de tecnologia também cita o Roblox como uma ferramenta educacional quando usada de forma correta. Isso se deve pelo Roblox Studio, uma plataforma que disponibiliza recursos educativos a crianças, permitindo a criação de jogos, mapas ou personagens de forma off-line, caso desejado.
"Em cursos de Roblox Studio, a criança cria jogos, mapas e personagens, além de aprender lógica, programação e design. Pode trabalhar até offline, apenas desenvolvendo seus próprios projetos. Ou seja, o aluno aproveita o melhor da tecnologia sem ficar exposto aos riscos das redes sociais abertas", finaliza.