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A noite proibida: o evento no Vaticano que a história tentou apagar

Cerca de 50 convidadas, um jogo estranho e o homem mais poderoso da Europa. O que realmente aconteceu em 31 de outubro de 1501?

Jeferson Marques

Publicado em 10/01/2026 às 16:46

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Um jantar no Vaticano para 50 convidadas em uma noite de 1501 / Imagem gerada por IA/DL

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Imagine a cena: o coração espiritual da Igreja Católica transformado em palco de amor livre sob o olhar atento do Sumo Pontífice. Parece roteiro de série de TV, mas essa é uma das passagens mais controversas registradas no Liber Notarum, o diário oficial de Johann Burchard, mestre de cerimônias do Vaticano entre 1483 e 1506. A figura central dessa trama é Rodrigo Borgia, que entrou para a história como Papa Alexandre VI, um homem cuja vida privada chocou a cristandade e desafia historiadores até hoje.

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Embora a Igreja Católica tenha tido diversos papas polêmicos, nenhum carrega a "lenda negra" dos Borgia. Eleito em 1492, ano da descoberta da América, Rodrigo não escondia sua ambição nem sua libido. Mas foi na noite de 31 de outubro de 1501 que a sua reputação teria cruzado a linha do inimaginável.

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O infame 'Banquete das Castanhas'

Segundo os escritos de Burchard — a fonte primária mais citada sobre o período —, o Papa e seus filhos, César e Lucrécia Borgia, organizaram um jantar privado nos aposentos papais. O entretenimento, contudo, não foi musical. O relato descreve a entrada de "cinquenta cortesãs honestas" (um eufemismo da época para prostitutas de luxo) que, após o jantar, teriam dançado com os servos e convidados.

O texto de Burchard torna-se mais explícito ao narrar que, à medida que a noite avançava, as roupas caíam. O clímax da festa teria envolvido o ato de espalhar castanhas pelo chão, as quais as mulheres deveriam recolher engatinhando nuas entre os candelabros acesos, enquanto o Papa e seus filhos assistiam e premiavam os convidados que tivessem o melhor desempenho amoroso com elas.

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Um príncipe mundano no trono de Pedro

Para entender como isso seria possível, é preciso olhar para quem era Rodrigo Borgia. Ele não agia como um sacerdote, mas como um príncipe renascentista. Rico, astuto e extremamente carismático, ele comprou votos para sua eleição e utilizou o papado para enriquecer sua família espanhola, o que gerou ódio profundo entre a elite italiana.

Alexandre VI nunca respeitou o celibato. Ele teve diversas amantes oficiais, sendo Vanozza dei Cattanei e a jovem Giulia Farnese as mais famosas, e reconheceu publicamente seus filhos, dando-lhes ducados, exércitos e casamentos estratégicos. Para os padrões de hoje, era corrupção e nepotismo; para o século 15, era apenas política — embora feita de forma descarada. A presença de mulheres e festas no Vaticano era comum em seu papado, mas o nível de depravação do "Banquete das Castanhas" ainda é um ponto fora da curva.

Verdade ou a primeira 'fake news'?

É aqui que a história ganha contornos de investigação moderna. Historiadores contemporâneos alertam que o relato de Burchard pode não ser 100% preciso. Embora o mestre de cerimônias fosse conhecido por seu detalhismo burocrático, os Borgia tinham inimigos mortais, especialmente o Cardeal Giuliano della Rovere (futuro Papa Júlio II), que dedicou a vida a destruir a reputação de Rodrigo.

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Muitos especialistas acreditam que o jantar com as cortesãs realmente aconteceu — o que já era escandaloso para um Papa —, mas que os detalhes do amor livre em grupo e do "jogo das castanhas" foram exageros ou invenções plantadas para garantir que o nome Borgia fosse eternamente associado ao pecado. Sendo fato ou a primeira grande fake news da era moderna, Alexandre VI conseguiu o que queria: cinco séculos depois, o mundo ainda não consegue parar de falar dele.

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