Diário Mais
Sem oxigênio e sob o peso de toneladas de mármore, milhões de estacas trazidas da Croácia e Eslovênia sofrem processo de petrificação e mantêm palácios intactos
A construção de Veneza exigiu uma operação logística de grandes proporções / Wikimedia Commons/Freddo213
Continua depois da publicidade
Veneza não está apoiada em terra firme. A cidade é sustentada por uma floresta oculta, formada por mais de 10 milhões de troncos de madeira cravados no subsolo da lagoa. São essas estacas que mantêm palácios, igrejas e edifícios históricos estáveis há cerca de mil anos, mesmo em um ambiente permanentemente alagado.
Em vez de concreto ou rocha, os construtores medievais recorreram à madeira como solução estrutural. O que parecia improvável se revelou uma das maiores façanhas da engenharia urbana da história, sustentada por condições químicas muito específicas do solo veneziano.
Continua depois da publicidade
O fator decisivo para a longevidade dessas estacas é o ambiente anaeróbico criado pelo lodo compacto da lagoa.
A lama densa praticamente impede a circulação de oxigênio, elemento essencial para a ação de fungos e microrganismos responsáveis pela decomposição da madeira.
Continua depois da publicidade
Sem oxigênio disponível, esses organismos não conseguem se desenvolver. Até existem bactérias anaeróbicas no local, mas sua atuação é extremamente lenta.
Com isso, o processo de deterioração ocorre em um ritmo tão reduzido que as estacas permanecem estruturalmente íntegras por séculos, mesmo sob o peso de construções de pedra e mármore.
Com o passar do tempo, a madeira submersa sofre um processo de transformação física conhecido como mineralização. A água salobra da lagoa carrega sedimentos e minerais que, pouco a pouco, se infiltram nas fibras dos troncos.
Continua depois da publicidade
Essas substâncias inorgânicas ocupam os espaços vazios da madeira, aumentando sua rigidez e capacidade de carga. O material não se transforma em pedra, mas adquire uma resistência comparável, suficiente para suportar toneladas sem deformar ou ceder com facilidade.
Para erguer construções sobre um terreno instável, os engenheiros da época desenvolveram uma técnica precisa de sobreposição de materiais. O objetivo era distribuir o peso de forma uniforme e impedir que a umidade atingisse as paredes dos edifícios.
O sistema segue uma ordem bem definida:
Continua depois da publicidade
Estacas de amieiro: troncos fincados profundamente até alcançar a camada de solo mais compacta, conhecida como caranto
Plataforma de lariço: tábuas dispostas horizontalmente para nivelar a base sobre as estacas
Blocos de pedra istria: camada impermeável que protege a alvenaria contra a umidade ascendente
Continua depois da publicidade
Esse conjunto cria uma base sólida sobre a qual os edifícios puderam ser erguidos e preservados ao longo dos séculos.
A construção de Veneza exigiu uma operação logística de grandes proporções. Milhões de árvores foram cortadas em regiões que hoje correspondem à Eslovênia e à Croácia.
Os troncos eram transportados pelo mar Adriático até a lagoa veneziana, em uma cadeia de abastecimento que movimentou a economia da época.
Continua depois da publicidade
As espécies escolhidas foram principalmente o carvalho e o amieiro, valorizadas pela densidade e pela resistência em ambientes saturados de água. O conhecimento da engenharia naval e do comportamento dos materiais foi decisivo para viabilizar essa solução urbana única.
Séculos depois, a floresta submersa segue invisível, mas essencial. É ela que permite que Veneza continue de pé, apoiada não em rochas, mas em madeira, lama e engenhosidade humana.