Diário Mais

A 'Cidade Flutuante' que é sustentada por uma floresta submersa de 10 milhões de troncos

Sem oxigênio e sob o peso de toneladas de mármore, milhões de estacas trazidas da Croácia e Eslovênia sofrem processo de petrificação e mantêm palácios intactos

Luna Almeida

Publicado em 25/01/2026 às 13:30

Compartilhe:

Compartilhe no WhatsApp Compartilhe no Facebook Compartilhe no Twitter Compartilhe por E-mail

A construção de Veneza exigiu uma operação logística de grandes proporções / Wikimedia Commons/Freddo213

Continua depois da publicidade

Veneza não está apoiada em terra firme. A cidade é sustentada por uma floresta oculta, formada por mais de 10 milhões de troncos de madeira cravados no subsolo da lagoa. São essas estacas que mantêm palácios, igrejas e edifícios históricos estáveis há cerca de mil anos, mesmo em um ambiente permanentemente alagado.

Faça parte do grupo do Diário no WhatsApp e Telegram.
Mantenha-se bem informado.

Em vez de concreto ou rocha, os construtores medievais recorreram à madeira como solução estrutural. O que parecia improvável se revelou uma das maiores façanhas da engenharia urbana da história, sustentada por condições químicas muito específicas do solo veneziano.

Continua depois da publicidade

Leia Também

• Com 95% de 'italianos', cidade brasileira recria o icônico carnaval de Veneza

• 'Veneza brasileira' guarda mais de 50 praias intocadas e cenários de tirar o fôlego

Por que a madeira não apodrece na água

O fator decisivo para a longevidade dessas estacas é o ambiente anaeróbico criado pelo lodo compacto da lagoa. 

A lama densa praticamente impede a circulação de oxigênio, elemento essencial para a ação de fungos e microrganismos responsáveis pela decomposição da madeira.

Continua depois da publicidade

Sem oxigênio disponível, esses organismos não conseguem se desenvolver. Até existem bactérias anaeróbicas no local, mas sua atuação é extremamente lenta. 

Com isso, o processo de deterioração ocorre em um ritmo tão reduzido que as estacas permanecem estruturalmente íntegras por séculos, mesmo sob o peso de construções de pedra e mármore.

Mineralização torna a madeira ainda mais resistente

Com o passar do tempo, a madeira submersa sofre um processo de transformação física conhecido como mineralização. A água salobra da lagoa carrega sedimentos e minerais que, pouco a pouco, se infiltram nas fibras dos troncos.

Continua depois da publicidade

Essas substâncias inorgânicas ocupam os espaços vazios da madeira, aumentando sua rigidez e capacidade de carga. O material não se transforma em pedra, mas adquire uma resistência comparável, suficiente para suportar toneladas sem deformar ou ceder com facilidade.

Como funciona o sistema de fundação de Veneza

O fator decisivo para a longevidade dessas estacas é o ambiente anaeróbico / Unsplash/jbstannard
O fator decisivo para a longevidade dessas estacas é o ambiente anaeróbico / Unsplash/jbstannard
O que parecia improvável se revelou uma das maiores façanhas da engenharia urbana da história / Unsplash/dnovac
O que parecia improvável se revelou uma das maiores façanhas da engenharia urbana da história / Unsplash/dnovac
Com o passar do tempo, a madeira submersa sofre um processo de transformação física / Unsplash/stijntestrake
Com o passar do tempo, a madeira submersa sofre um processo de transformação física / Unsplash/stijntestrake
Os engenheiros da época desenvolveram uma técnica precisa de sobreposição de materiais / Unsplash/Martin Katler
Os engenheiros da época desenvolveram uma técnica precisa de sobreposição de materiais / Unsplash/Martin Katler
Em vez de concreto ou rocha, os construtores medievais recorreram à madeira como solução estrutural / Unsplash/Kit Suman
Em vez de concreto ou rocha, os construtores medievais recorreram à madeira como solução estrutural / Unsplash/Kit Suman
Milhões de árvores foram cortadas em regiões que hoje correspondem à Eslovênia e à Croácia / Unsplash/Henrique Ferreira
Milhões de árvores foram cortadas em regiões que hoje correspondem à Eslovênia e à Croácia / Unsplash/Henrique Ferreira
O processo de deterioração ocorre em um ritmo tão reduzido que as estacas permanecem estruturalmente íntegras por séculos / Freepik/wirestock
O processo de deterioração ocorre em um ritmo tão reduzido que as estacas permanecem estruturalmente íntegras por séculos / Freepik/wirestock
A construção de Veneza exigiu uma operação logística de grandes proporções / Wikimedia Commons/Freddo213
A construção de Veneza exigiu uma operação logística de grandes proporções / Wikimedia Commons/Freddo213

Para erguer construções sobre um terreno instável, os engenheiros da época desenvolveram uma técnica precisa de sobreposição de materiais. O objetivo era distribuir o peso de forma uniforme e impedir que a umidade atingisse as paredes dos edifícios.

O sistema segue uma ordem bem definida:

Continua depois da publicidade

Estacas de amieiro: troncos fincados profundamente até alcançar a camada de solo mais compacta, conhecida como caranto

Plataforma de lariço: tábuas dispostas horizontalmente para nivelar a base sobre as estacas

Blocos de pedra istria: camada impermeável que protege a alvenaria contra a umidade ascendente

Continua depois da publicidade

Esse conjunto cria uma base sólida sobre a qual os edifícios puderam ser erguidos e preservados ao longo dos séculos.

De onde vieram as árvores usadas na construção

A construção de Veneza exigiu uma operação logística de grandes proporções. Milhões de árvores foram cortadas em regiões que hoje correspondem à Eslovênia e à Croácia. 

Os troncos eram transportados pelo mar Adriático até a lagoa veneziana, em uma cadeia de abastecimento que movimentou a economia da época.

Continua depois da publicidade

As espécies escolhidas foram principalmente o carvalho e o amieiro, valorizadas pela densidade e pela resistência em ambientes saturados de água. O conhecimento da engenharia naval e do comportamento dos materiais foi decisivo para viabilizar essa solução urbana única.

Séculos depois, a floresta submersa segue invisível, mas essencial. É ela que permite que Veneza continue de pé, apoiada não em rochas, mas em madeira, lama e engenhosidade humana.

Conteúdos Recomendados

©2026 Diário do Litoral. Todos os Direitos Reservados.

Software