Um ‘Nordeste Inventado’ luta contra o clichê e a xenofobia

Amanhã é comemorado o dia do nordestino. É fundamental repensar os mecanismos que contribuíram para a formação de uma visão do nordeste como um espaço deslocado do processo histórico

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07 OUT 2018Por Rafaella Martinez09h20
Imagem do espetáculo ‘A Invenção do Nordeste’Imagem do espetáculo ‘A Invenção do Nordeste’Foto: Renato Coelho/Divulgação

A seca, o coronelismo, o cangaço e o messianismo: explorados por anos e presentes nas obras dos grandes intelectuais brasileiros, a junção desses elementos foram essenciais para criar uma imagem clichê do nordeste no imaginário de todo brasileiro.

No entanto, mais do que um lugar imaginário, o Nordeste é real no mapa do Brasil e a região que mais sofre ataques de preconceito e xenofobia em momentos de crise, tais como períodos eleitorais. No google, ‘nordestino não’ é complemento de ‘sabe votar’, ‘é gente’ e ‘gosta de trabalhar’.

Amanhã é comemorado o dia do nordestino e, em tempos onde discursos de ódio tomam conta do noticiário político, é fundamental repensar os mecanismos estéticos, históricos e culturais que contribuíram para a formação de uma visão do nordeste brasileiro como um espaço deslocado do processo histórico e imune ao impacto das grandes transformações sociais.

Autor do livro ‘A Invenção do Nordeste e Outras Artes’, o professor doutor Durval Muniz de Albuquerque Júnior mergulhou na história da região durante o doutorado, disposto a descobrir quando e por que nasceu o conceito Nordeste - região que hoje engloba os estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Piauí, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Sergipe.

“As imagens usadas para estereotipar o nordestino surgiram na própria região. O Nordeste é uma construção imaginária, pensada no começo do século XX para se contrapor às transformações econômicas e políticas pelo qual o país passava. O Nordeste é um conceito saudoso em relação a essas transformações e por esse motivo ele deve ser repensado e recriado. Produzimos grandes intelectuais e nenhuma outra região do Brasil tem um conjunto de imagens tão fortes. Você talvez não se sinta santista e paulistana, mas nós nos sentimos paraibanos e nordestinos, cearenses e nordestinos... Nossa identidade faz parte da subjetividade e sofre influência desse imaginário”, aponta.

Uma das associações automáticas é com a seca, por exemplo. “Ela faz com que nossa terra seja uma terra de partida. Isso é tão latente que automaticamente associam o Sertão ao Nordeste. Os outros estados sofrem com a estiagem, mas no imaginário popular o sertão deixa de ser ‘o lugar longe do litoral’ e se transforma em nordeste”. 

De acordo com Durval, outras questões também enraizaram alguns preconceitos. “A região é pensada como o lugar onde o coronelismo impera, mesmo que na região Sul, por exemplo, isso seja muito latente. Somos a terra do cangaço, que estereotipa a figura do nordestino como a do homem violento, do cabra macho”.

Na visão do professor, é preciso repensar o nordeste ligado ao artesanato, ao folclore e ao rural: a terra que não se desenvolveu.

“A maior parte da nossa produção artística não aborda o fenômeno urbanístico e não fala que temos três das grandes metrópoles brasileiras. O Nordeste é a região que concentra a maior parte dos pobres e onde estão as maiores desigualdades brasileiras. E o fato das políticas públicas dos últimos anos terem contribuído para a diminuição dessa miséria, fizeram com que muitos apontem o dedo para falar que somos a terra do povo atrasado, que recebe Bolsa Família para votar. Isso foi uma invenção social que precisa ser dissolvida”, pondera.

Arte reage

A tese de doutorado de Durval tem pautado importantes produções artísticas nordestinas. Na mais recente delas, o Grupo Carmin de teatro do Rio Grande do Norte montou o espetáculo ‘A Invenção do Nordeste’, que tem como base o livro de mesmo nome.

A ação foi motivada pela atriz Quitéria Kelly após uma série de reações xenófobas contra os nordestinos durante as eleições presidenciais de 2014. O espetáculo esteve em Santos no mês passado, dentro da programação do Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas e entra em cartaz amanhã no Teatro Firjan SESI, devendo voltar para São Paulo em novembro.

“Esse estereótipo só pode ser transformado pela arte e o Carmin usa seu lugar de fala que é o teatro para levantar essa problemática. Não é uma repetição do livro e sim uma revisão do que esses atores enfrentaram e ainda enfrentam, como o fato do nordestino só poder interpretar nordestino – o que limita o mercado para eles -, a necessidade que muitas produções pedem do sotaque carregado, sendo que não existe um sotaque regional e sim muitos falares e a desconstrução do chamado ‘teatro nordestino’”, destaca.

Outros movimentos são fundamentais, tais como o Movimento de Cinema do Recife e o posicionamento de personalidades como Xico Sá. “Cada um com a seu fazer, temos que lutar para desconstruir esses preconceitos. A mídia está concentrada no Centro-Sul e poucas pessoas sabem o que se passou no Nordeste nos últimos anos. Ainda acho que os artistas terão muito trabalho pela frente para quebrar esses rótulos, mas a mudança já começou”, finaliza.