Roda resgata repertório dos grandes sambistas do Rio

Formado por músicos de diversos segmentos, grupo usa o samba para promover inclusão e respeito

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12 MAR 2017Por Rafaella Martinez10h00
A roda acontece na mesa simples, decorada com o brasão do grupo, que homenageia o sambista Paulo da PortelaA roda acontece na mesa simples, decorada com o brasão do grupo, que homenageia o sambista Paulo da PortelaFoto: Matheus Tagé/DL

Quem passa pela quadra da Banda B.B. do Estuário nas noites de segunda-feira escuta de longe os tradicionais batuques de samba acompanhados pelas potentes vozes de um grupo difuso, que apostou no resgate do samba de quadra, surgido na década de 1930 nos terreiros (atuais quadras) das primeiras escolas de samba do Rio de Janeiro.

Com o objetivo de resgatar esse gênero musical, que retratava o cotidiano dentro das comunidades onde se localizavam as escolas de samba cariocas, o jornalista Alex Almeida fundou o Movimento  de Resistência Cultural Terreiro 13 em agosto de 2016. Todos os integrantes possuem fontes de renda próprias em outras áreas de atuação e também se apresentam musicalmente em outros espaços. Nas noites de segunda, no entanto, o samba ganha um sentido de resistência.

“A roda não visa ser um mero entretenimento e sim encontrar um valor agregado e ser um difusor de cultura. Queremos resgatar o repertório esquecido do samba de terreiro dos anos 20 até os anos 60 e enaltecer esses compositores que lutaram e resistiram pelo fortalecimento da cultura negra no Brasil”, afirma.

Comum até o início da década de 1970, os sambas de terreiro deixaram de ser tocados nos desfiles durante o processo de mercantilização do carnaval. Dentre os grandes nomes que consagraram esse gênero estão Djalma Sabia, Cristina Buarque e Monarco.

“Nosso samba é extraído em pesquisas. Colhemos materiais em LPs antigos, com o objetivo de resgatar essa faceta e valorizar seus expoentes: as pessoas que fizeram ele existir e resistir. Somos um braço de outros movimentos que existem pelo Brasil de samba de Terreiro e trocamos muitas informações”, conta Almeida, que desenvolve seu trabalho profissional com culturas negras.

Aos 63 anos, Edy da cuíca é um velho conhecido do samba na Baixada Santista. Nascido e criado na bacia do Macuco ao som do gênero musical e integrante da ala musical da velha guarda da X-9, ele afirma que toca o instrumento com o principal objetivo de resgatar as músicas que estão se perdendo. “Me identifico com esse projeto de resgate. O samba é tudo e nós somos o samba”.

Integrante do consulado da Portela de São Paulo, Marcelo Muniz toca surdo e tamborim para muito além do objetivo de entreter. “Estava acostumado a fazer um samba um pouco mais moderno e quando comecei no consulado foi um divisor de águas. Não escutamos essas músicas na mídia e temos que resgatar suas raízes”.

Mulheres. Diferentemente de algumas rodas de sambas, o Terreiro 13 conta com a presença de mulheres, que fazem as vozes das antigas pastoras. É ali que Veronica Perez solta a voz e canta versos como ‘Já chegou quem faltava’, de Nilson Gonçalves da Portela e ‘A lei do morro’, de Silas de Oliveira e Mestre Fuleiro da Império ­Serrano.

“Antigamente as mulheres colhiam o samba. Se elas não cantassem, o samba não existia e contamos com a presença delas para fortalecer isso aqui na nossa roda”, conta Alex.

Apresentações. Uma mesa simples na quadra, decorada com o brasão do grupo - que também é uma homenagem a Paulo da Portela, um dos sambistas responsáveis por dar civilização ao samba. É nesse espaço que acontecem os ensaios do Terreiro 13. “Paulo foi um agregador de cultura negra em Madureira. Ele não é uma figura muito reconhecida, mas para o samba de terreiro ele significa muito”, conta Alex.

A roda é formada e dá início a apresentação, que passeia pela história de parte do legado dos grandes sambistas. Quem acompanha as apresentações vibra com o que é apresentado. Com uma cuíca de couro em mãos, uma senhora acompanha as músicas. “Canto na X-9 e minha filha Juliana Ribeiro é uma das vozes aqui do Terreiro 13. Acompanho os ensaios e a roda, pois me sinto em casa”, finaliza Elenira Ribeiro.