Papo de Domingo: ‘O cinema é um canal de transformação’

Representantes do segmento audiovisual na Baixada Santista falam sobre cinema nacional, perspectivas locais e a luta por políticas públicas

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19 JUN 2016Por Rafaella Martinez10h30

Das tradicionais chanchadas até os recentes blockbusters televisivos, passando por clássicos que marcaram a história do cinema como ‘O pagador de promessas’ e ‘Cidade de Deus’, o cinema nacional comemora seu dia neste domingo.

Esteticamente, muita coisa mudou desde o dia 19 de junho de 1898, quando as primeiras gravações cinematográficas da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, foram feitas a bordo do navio Brésil.

O cinema nacional viveu seu apogeu, declínio e retomada, caminhando ao lado dos grandes acontecimentos que marcaram a história nacional.

Na esfera regional, a Baixada Santista tem ampla ligação com a sétima arte, sendo palco de um dos mais importantes festivais do gênero.

Diário do Litoral conversou com a diretora de documentários Raquel Pellegrini, e com os comentaristas Marcelo Pestana e Carlos Cirne. Eles falaram sobre os clássicos do cinema nacional, as perspectivas para o segmento na região e sobre a luta por políticas públicas.

Diário do Litoral – Qual o papel do cinema na atualidade?

Raquel Pellegrini – O cinema é um canal muito grande de reflexão, pois é transformador. Não é possível sair da imersão de uma sala de cinema sem estar mexido de alguma maneira após a experiência cinematográfica. O cinema proporciona uma grande gama de emoções e reflexões e isso vai causar transformação no ­homem.

Marcelo Pestana – Posso responder essa pergunta citando algo que acontece aqui em Santos. Fazemos uma sessão de exibição de ­filmes para idosos dentro de um equipamento da Prefeitura. Os filmes que eles querem ver são os filmes do Mazzaropi, do Oscarito e as Chanchadas. Durante a exibição, eles cantam a letra inteira de todas as músicas tocadas. Cinema é isso. É um registro da história, de um olhar e de memórias. É um registro social: praticamente a nossa máquina do tempo. Hoje o audiovisual é a melhor forma de documentar a história de um tempo.

DL – E na Baixada Santista? Como é a articulação pelo cinema?

Raquel - A arte cinematográfica na região está começando a ter uma força muito grande como canal de divulgação de ideias, de expressão  e das inquietações de seus realizadores. Isso acontece de uma forma muito clara em virtude de uma postura mais politizada. Isso é importante até para podermos unir força para lutar por políticas públicas para o audiovisual, que é uma área que você precisa de incentivos, pois não se faz cinema sozinho e sem recursos.

Marcelo - O audiovisual feito aqui é um produto que cresce a cada ano em qualidade, volume de produção e em roteiro. A região metropolitana da Baixada Santista é bem menor que a população de São Paulo, por exemplo, e proporcionalmente a nossa produção é bárbara e gigante. 

Carlos – A qualidade dos roteiros e a realização técnica são excelentes. A cada ano notamos uma diferença menor entre o festival de cinema de Santos e os grandes ­festivais nacionais. Do ponto de vista técnico, estamos melhorado de ano a ano.

DL – Há grupos unidos na região para lutar por políticas públicas para o segmento?

Raquel - Hoje temos um movimento se formando aqui, que se chama ‘CinemaMêmo’, que se formou ano passado e está começando a pensar o cinema de outra maneira, pois você tem que usar a técnica como ferramenta do seu pensamento o tempo inteiro. A arte cinematográfica parte da ideia, da inquietação  e da necessidade de expressão. O cinema tem essa capacidade de ­fruição, onde você ­consegue fazer tudo isso e ter o ­feedback do ­público em um processo de transformação. Eu acho que hoje na cidade o cinema tem um papel muito importante como meio de ­expressão de uma ­geração e de uma identidade cultural e também como uma forma de expressar politicamente, ideologicamente e emocionalmente a nossa realidade.

DL – Como vocês avaliam as transformações estéticas e de identidade que o cinema brasileiro passou?

Raquel – A produção cinematográfica brasileira nunca parou. Ela foi se adequando às necessidades e as imposições políticas e econômicas do País. A partir do momento em que a gente tinha um cinema combativo e intelectualizado na década de 60, com a ditadura militar, é óbvio que foi um pão e circo. O que era possível fazer foi feito, como por exemplo o cinema da boca do lixo de São Paulo, que sobrevivia com as Pornochanchadas. Foram produzidos filmes que até tinham uma concepção reflexiva, mas que precisavam ter a nudez, o apelo sexual e a violência. Tecnicamente sofremos também com um deficit de tecnologia, muito por conta do que a gente vivia no Brasil naquela época. Não era interessante dar força para um cinema em que você pudesse trabalhar a transformação e a ­reflexão porque não era interessante para o governo que o povo ­pensasse.

DL – E quando isso começou a mudar?

Raquel - Carregamos essa herança na década de 80, o que despertou um grande preconceito ao cinema nacional. Uma visão errada, onde infelizmente o brasileiro aprendeu a valorizar as produções internacionais. Já na década de 90 teve início o movimento de retomada, quando os cineastas brasileiros começaram - com o auxílio da técnica e dos incentivos - a perceber que era possível fazer um cinema autoral de qualidade e que fizesse o povo pensar, refletindo a nossa identidade. Começamos a ter mais produções. Hoje temos uma produção enorme no cinema brasileiro: uma média de 250 a 300 filmes produzidos por ano.

Carlos – Na realidade o cinema brasileiro tem uma produção ­crescente apesar da crise. Mesmo no período da pré-retomada, tínhamos menos obras, mas coisas consistentes ­acontecendo.

DL – Quais são os obstáculos atuais?

Raquel - O cinema brasileiro tem um problema sério na distribuição. Nossa realidade é diferente de 10 anos - hoje conseguimos ter salas lotadas com o cinema nacional. Mas temos também um domínio grande da grande mídia, que produz fórmulas que deram certo na televisão e foram transportadas para a linguagem cinematográfica. Isso é importante também, pois gera trabalho para muita gente.

Marcelo - Somos eminentemente um País de televisão. As fórmulas televisivas que deram certo são válidas, uma vez que não podemos negar que o brasileiro é assim e ­gosta desse produto. Mas a pessoa que produz filmes comerciais também reserva tempo e investimentos para fazer filmes independentes e cults.Essa é a importância dos festivais de cinema, que são oportunidades para que filmes independentes sejam exibidos, o que abre espaço para que consigam janelas no Brasil e no exterior.

DL – Raquel, você citou o problema de distribuição. Qual seria a estrutura desse problema?

Raquel – A relação entre distribuição e exibição faz com que grandes filmes - longas mais autorais e reflexivos, com linguagens não tão palatáveis como uma ­comédia - acabem ficando no circuito de ­festivais, sem espaço e janelas de exibição no Brasil. Qual é a estratégia que hoje ­acontece e funciona: esses filmes com potenciais vão para fora, participam de festivais internacionais e alcançam um papel de destaque e aí sim voltam ao Brasil. Exemplos disso são ‘Hoje eu não quero voltar sozinho’, ‘Que horas ela volta’ e agora o ‘Aquarius’. Temos filmes muito bem feitos que não ganham essa notoriedade. No Recife temos um cinema muito forte, com características próprias, mas que infelizmente não temos acesso.

Carlos – É muito comum as pessoas começarem a falar do produto apenas depois que ele teve um reconhecimento no exterior.

Marcelo – Você pega o Rodrigo Santoro, que sempre foi uma grande ator e que só estourou depois da participação no ‘As panteras’. É triste, pois ele já tinha feito no Brasil o longa ‘Bicho de sete cabeças’, que é  um filme absolutamente denso e profundo. Mas o sucesso chegou quando ele montou em uma prancha e ficou de peito nu no filme de hollywood. Infelizmente é assim que acontece.

DL – E quais são as características do cinema produzido hoje no Brasil?

Carlos – Ultimamente tem aparecido muitas histórias no cinema nacional, geralmente nas comédias românticas, que estão trazendo um universo mais ­próximo. O brasileiro está sendo um pouquinho mais retratado, fugindo um pouco da estética da violência que pontua muito as produções nacionais. Exemplo disso é o filme ‘De onde eu te vejo’.

Marcelo - Isso que o Carlos falou é interessante, pois as pessoa também podem se enxergar em filmes como ‘Cidade de Deus’. Acontece que quem vive aquela realidade muitas vezes não tem condições de ir até uma sala de cinema, que ainda é cara. Ele vai conseguir se enxergar na tela apenas quando o filme passar na TV aberta. O caminho ainda é longo. Hoje existem três grandes polos de cinema no Brasil: Pernambuco, Porto Alegre e o eixo ­Rio-São Paulo. A produção ­nesses três locais é muito ­interessante e ­dividida.

Raquel - Temos que pensar que hoje o cinema brasileiro nunca esteve em sua melhor forma na questão de produção intelectual. Temos filmes incríveis e com linguagens inovadoras. Temos diretores novos e uma vontade muito grande de se expressar por meio do cinema. Nossa dificuldade atual são as formas de fomentos, que acabam priorizando alguns filmes que têm estrutura que vão dar resultados na ponta final. Algumas leis de fomento estão alinhadas com a quantidade de público e isso é ruim.

DL – Vocês citaram que as pessoas estão se identificando mais com o cinema nacional. Mas essa estética que retrata a realidade é uma ­novidade?

Carlos – Não. Na verdade isso começa com filmes como ‘Lúcio Flávio’, ‘Pixote’ e ‘A lei do mais forte’. Em um período posterior temos filmes como ‘Para frente Brasil’ que também é bem barra pesada pois trata do golpe de 64. Todos esses filmes retrataram a ­realidade.

DL – Houve um crescimento nos investimentos nos últimos anos?

Raquel – Eu particularmente acho que existe um crescimento do fomento, com a lei do audiovisual, a lei Roaunet, os prêmios e editais como o PROAC em São Paulo. O que é ­importante pensar é que isso não pode parar. Me preocupo e me revolto quando escuto comentários de que artista é ­vagabundo. A arte necessita desse fomento para poder atingir um público. No caso de cinema não tem como fazer nada sem o mínimo de tecnologia e pessoal. Mas mesmo o que existe hoje ainda é precário. O mais importante é que isso não se acabe e não se diminua por questões políticas e econômicas. Não podemos pensar que a cultura é algo ­descartável. Em tempos de crise, a pasta é a primeira a ser cortada e isso é um pensamento muito torto, pois é a ­partir da cultura e do ­desenvolvimento artístico de uma comunidade que a gente consegue ter identidade, se empoderar e causar ­transformação.