Fãs de Raul Seixas recordam sucessos no aniversário do músico

A Semana Viva Raul é apenas um dos festejos que acontecem nesta data que prestigia a vida do "pai do rock brasileiro"

Há exatos 75 anos, nascia em Salvador Raul Seixas, um cantor que moveu e ainda move milhares de pessoas com suas canções. Com uma comemoração virtual e atípica, devido à pandemia do novo coronavírus, os milhares de fã-clubes do artista espalhados pelo Brasil celebram neste domingo a existência do ídolo através de transmissões ao vivo nas redes sociais.

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A Semana Viva Raul, organizada pelos kavernistas (nome adotado em homenagem ao segundo álbum do músico) é apenas um dos festejos que acontecem nesta data que prestigia a vida do “pai do rock brasileiro”. A Warner Music Brasil, responsável por lançar quatro álbuns do artista, entre eles “Mata Virgem” e “A Panela do Diabo”, anunciou um compilado de 30 faixas de Raul Seixas – disponível em todas as plataformas de streaming- como uma forma de homenagear sua contribuição para o universo musical.

Desde os 16 anos participando de eventos destinados ao artista, a pedagoga Gabriela Mousse, 38, afirma que nos últimos três anos as celebrações realizadas no dia do aniversário do cantor se tornaram mais populares até mesmo entre os fãs.

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“A galera não comemorava muito, o aniversário realmente ficou apagado por muito tempo, mas para nós, são 75 anos com Raul. Ele é imortal, tanto que usamos o slogan: ‘Raul vive'”, diz Mousse, que é uma das responsáveis por organizar a passeata anual “raulseixista” na região do ABC paulista.

“Celebramos Raul sempre, porque não vamos cantar parabéns se falamos que ele é eterno?”, completa a pedagoga, que mantém aos domingos o programa “Mosca na Sopa”, na rádio web Plano B, dedicada ao ídolo.

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Raul Seixas, dono de um legado de 26 anos e 17 discos lançados, também gostava de celebrar datas de nascimento. Johnny Boy Chaves, músico com quem Raulzito gravou seu último disco, “A Panela do Diabo”, conta que flagrou o cantor admirando seu ídolo, Elvis Presley, em um dia 8 de janeiro. “Nunca me esqueço quando cheguei na casa dele, no dia de aniversário do Elvis.”

Apesar de ter iniciado a carreira em 1968, quando integrou o grupo Raulzito e os Panteras, o cantor baiano ganhou notoriedade com seu primeiro disco solo, “Krig-ha, Bandolo!”, de 1973. Seu estilo contestador e místico chamou atenção e, a partir daí, emplacou uma lista de canções que ecoam até hoje, entre elas “Metamorfose Ambulante”, “Ouro de Tolo”, “Mosca na Sopa”, “Tente Outra Vez”, “O Dia Em Que a Terra Parou” e “Cowboy Fora-da-Lei”.

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Mas para Johnny Boy, o fato de o colega ter ganho ainda mais relevância após sua morte se explica pela comoção pública. “Virou um certo estigma, mas o nascimento foi antes de toda essa loucura. Raul deixou muito claro que ele era um ator, que viveu esse personagem que ele mesmo criou. Se a gente for ver a trajetória dele, era um cara comum de barba, óculos e paletó”, diz o músico, que ressalta a importância de homenagear o aniversário do amigo.

AMOR DE GERAÇÕES
Entre utopias e ideais que defendia fervorosamente, como a Sociedade Alternativa, Raul Seixas cativou, e ainda cativa, diferentes gerações. O estudante de administração Lucas Babics tem um carinho para lá de especial por Raulzito. Aos três anos, ele perdeu o pai, um grande fã do artista. “Sempre que ouço não deixo de lembrar, é uma conexão que criei com a música dele.”

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“Na maioria das músicas Raul fala sobre a morte, a vida, é uma maneira de lidar e entender a magnitude de certas coisas”, acrescenta Babics, que diz ainda que aos dez anos aprendeu a tocar violão por causa do artista. “Tinha um CD com 25 músicas baixadas do Raul. Foi assim meu início na música, hoje em dia toco outros instrumentos e componho.”

Para Johnny Boy o motivo pelo qual o intérprete de “Gita” ainda consegue se conectar com as pessoas, independentemente de suas idades, é pela sutileza em transmitir mensagens impactantes. “Com o passar do tempo as pessoas foram decodificando esses significados.”

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A linguagem utilizada por Raul em suas canções é algo que Babics também destaca. “É muito simples, por isso ele se tornou o grande artista da música popular brasileira. Não tem grandeza técnica.” Um exemplo é sua avó Maria Brasília, 80, que também escuta Raul Seixas, mesmo com o mal de Alzheimer. “Ela sempre lembra das letras. Escutamos Raul Seixas juntos.”

O ÍDOLO RAUL
Autor do livro “O Raul Que Me Contaram” (2017), Tiago Bittencourt, 34, diz que sua história com o músico baiano não foi de amor à primeira vista. “Achava meio megalomaníaco”, conta o escritor sobre a canção de sucesso “Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás”, de 1976. Foi apenas na adolescência que a identificação com as letras e filosofias revolucionárias de Raul, começou a surtir efeito em sua vida. “Acreditava que ia mudar o mundo e ele era a minha trilha sonora.”

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A partir de então, além de colecionar discos, Bittencourt mergulhou nos livros sobre a história do cantor, sem imaginar que 20 anos depois, escreveria sua própria obra com relatos de pessoas ligadas diretamente ao músico, como a ex-mulher Kika Seixas, Roberto Menescal, e o cantores Marcelo Nova e Jerry Adriani, entre outros nomes.

Hoje atuante da cena “raulseixista”, o escritor diz que precisou abandonar seu “olhar de fã” para conseguir compreender o artista e a pessoa. “Quis abordar o alcoolismo, e não foi doloroso para mim. Muita gente me pergunta como lido com as críticas relacionadas a Raul e eu falo: ‘Ele não é meu pai’. A história é do jeito que ela é, não tem essa coisa de passar pano.”

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Já Sylvio Passos, 57, conheceu de perto todos esses “excessos” de Raul Seixas. Apelidado de “Silvícola” pelo ídolo, Passos se tornou amigo do cantor baiano após fundar o primeiro fã-clube oficial “Raul Rock Club” justamente na data de aniversário do cantor, em 28 de junho de 1981.

O primeiro encontro com o ídolo ocorreu assim que o cantor baiano se mudou para São Paulo. Com 17 anos, Passos fez um anúncio em um jornal que mudou sua vida. “Falei que comprava tudo que se referia a Raul, inclusive seu endereço e seu telefone de contato.”

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Assim que conseguiu o que queria, o estudante do ensino médio precisou criar coragem para ligar para Raulzito. “Ele mesmo atendeu e me convidou para almoçar. Depois desse episódio, tranquei os estudos e resolvi seguir o ‘raulseixismo’. De lá para cá a gente nunca mais se desgrudou.”

Integrante da banda Putos Brothers Band e dono também de um acervo raro de Raul, Passos lembra com bom humor quando sua família descobriu que ele abandonaria tudo para seguir o cantor. “Ficaram horrorizados, porque Raul tinha uma péssima fama de doidão e drogado”, diz Passos, que pretendia cursar jornalismo ou psicologia. “Mas no cotidiano, percebi o quão parecido ele era comigo e com todo mundo. Fora de cena, era uma cara com dores, contas para pagar, alegrias e tristezas.”