Em tecidos e imagens, a vida e a obra das Ciatas Santistas

Exposição idealizada pelo fotógrafo do Diário do Litoral Rodrigo Montaldi evidencia mulheres sambistas

Comentar
Compartilhar
02 ABR 2017Por Rafaella Martinez11h00
Fotógrafo, produtor cultural e educador, Rodrigo Montaldi Morales é repórter fotográfico do Diário do LitoralFotógrafo, produtor cultural e educador, Rodrigo Montaldi Morales é repórter fotográfico do Diário do LitoralFoto: Rafaella Martinez/DL

O olhar marejado de lágrimas de Regina não cansava de fitar a própria imagem eternizada em tecido e estendida nos varais da exposição ‘Ciatas de Santos – Mulheres que no Samba Resistem’. Filha do mestre Catarina, um dos fundadores da X-9, a “vedete misto de tribo e batuque” foi uma das homenageadas na mostra idealizada pelo fotógrafo do Diário do Litoral Rodrigo Montaldi, contemplada pelo 5º Facult e que comemora o centenário do samba colocando sob os holofotes as mulheres sambistas da velha guarda santista, responsáveis diretas pela existência e resistência do gênero musical na cidade.

Colocar o cotidiano dessas mulheres em evidência, utilizando para isso recursos como o varal, os pregadores de madeira e o tecido – objetos comuns a essas senhoras que há décadas mesclam os afazeres domésticos com o ganha pão e as rodas de samba: esse foi o objetivo traçado por Rodrigo Montaldi quando pensou na exposição. “O que eu quis retratar nessa mostra não é o samba da avenida e sim o samba do cotidiano. No dia a dia essas mulheres são a base da pirâmide social e quando elas estão no samba elas se tornam as grandes deusas. Queria registrar e eternizar cada uma delas assim: estendendo roupa, mostrando sua fé, paradas na porta de casa... Queria guardar a lembrança delas no cotidiano" destacou.

O processo de pesquisa partiu de letras de sambas compostas ou interpretadas por sambistas consagradas como Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara, Elza Soares, Clara Nunes, Beth Carvalho, Leci Brandão, Alcione e Jovelina Perola Negra. Posteriormente o fotógrafo identificou algumas dessas mulheres, cocruzando as músicas com o universo de vida delas. Para Madeleine Alves, poetiza da exposição, o trabalho só foi possível graças às suas ciatas pessoais. “Fui salva por essas mulheres de uma maneira tão completa que ficou mais fácil falar a respeito dessas outras mulheres. Pude somar minha história pessoal de maneira que pudesse conversar com as fotos que o Rodrigo fez, pegando algumas impressões e criando poemas a partir desse caldeirão de ideias”, afirmou. “A poesia veio para tentar traduzir em palavras um pouco desses sambas que foi o processo inicial de pesquisa”, complementou Montaldi.

Emocionada, tia Regina da X-9 não conteve as lágrimas ao entrar na exposição. “Eu sabia que seria uma exposição fotográfica, mas não imaginava ver nas fotos tanto de mim. Eu sabia que a foto seria tirada, mas as imagens selecionadoras foram espontâneas. Meu canto indígena com minhas várias etnias. O carinho de ter sido lembrada por meus anos de samba, o poema gravado que registra tanto de mim... não há palavras para traduzir o que estou sentindo”, contou.

A Roda de Samba da Velha Guarda Guerreiros de Ogum da Escola de Samba X-9 cantou, além dos clássicos da escola, sambas consagrados de outras agremiações e deixou o recado: todos são da mesma família. Em um dos momentos mais marcantes da noite, as ‘ciatas de Santos’ se reuniram para uma imagem icônica. “Isso é para ficar na história. Isso é história”, balbuciava emocionado o produtor da mostra, Platão Capurro.

“Em mais de 50 anos de samba essa foi a primeira vez que fui homenageada dessa forma. Os detalhes, minhas boias, minha casinha. Estou muito feliz. Eu nunca vou esquecer desse dia. Nunca”, conta emocionada tia Ruthe, do alto de seus 85 bem vívidos anos.

Ciata

Hilária Batista de Almeida, conhecida como Tia Ciata foi uma cozinheira, considerada por muitos como uma das figuras influentes para o surgimento do samba carioca. Em sua casa, onde os sambistas se reuniam, foi criado o primeiro samba gravado em disco - “Pelo Telefone”- , uma composição de Donga e Mauro de Almeida, na voz do cantor Baiano.

Temporada da exposição: de 31/março (sexta-feira) a 15/abril (sábado)
Horários para visitação: Segunda a sexta, das 9h às 21h. Sábado, das 9h às 18h.
Local: CAIS (Centro de Atividades Integradas de Santos) - Av. Rangel Pestana, 184 - Vila Mathias - Santos/SP (ao lado do Arena Santos)