É preciso regulamentar o streaming no Brasil, afirma vice-presidente da Netflix

São vários os títulos divulgados nesta semana, num momento em que investir na produção local está prestes a ser não apenas uma decisão estratégica de mercado, mas uma exigência inscrita em lei, a julgar pelo avanço da regulamentação no Senado

Hoje, avalia-se que Netflix e Amazon Prime Video tenham cerca de 5% de seu catálogo no Brasil preenchido por produções nacionais

Hoje, avalia-se que Netflix e Amazon Prime Video tenham cerca de 5% de seu catálogo no Brasil preenchido por produções nacionais | DIVULGAÇÃO

Seguindo seu mote de querer ver mais brasileiros nas telas, a Netflix começa o ano prestes a lançar uma lista diversificada de produções feitas no país e, ao mesmo tempo, cercada em Brasília por discussões que tentam regular as plataformas de streaming.

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São vários os títulos divulgados nesta semana, num momento em que investir na produção local está prestes a ser não apenas uma decisão estratégica de mercado, mas uma exigência inscrita em lei, a julgar pelo avanço da regulamentação no Senado, que viu sua comissão aprovar um projeto de lei no fim de novembro.

Vice-presidente de conteúdo da Netflix no Brasil desde 2021, Elisabetta Zenatti, no entanto, frisa que a empresa já está preparada para quando a implementação vier, e parte disso por causa da lista de séries, filmes, documentários, reality shows e programas de competição desenvolvidos pelo braço local da empresa com sede na Califórnia.

“Precisamos complementar a nossa oferta de títulos que vêm de fora, então nossa missão não é competir ou fazer o mesmo. É entrar no gosto dos brasileiros, tentar entender o que os brasileiros querem e gostam”, diz Zenatti, enquadrada pelo papel de parede colorido de uma das salas de reunião do escritório da Netflix em Barueri, na Grande São Paulo.

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“Nós acompanhamos muito de perto todos os passos, fazemos parte do debate e achamos que realmente é o momento em que precisamos regulamentar essa relação”, diz a executiva, salientando que, no ano passado, antes de a discussão esquentar, houve o aporte de R$ 1,5 bilhão para conteúdo brasileiro original na Netflix.

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Com o dinheiro, a ideia é pôr nas telinhas personagens reais e ficcionais, fatos históricos e contextos intrinsecamente tupiniquins. Entram no orçamento, por exemplo, uma minissérie sobre a chacina da Candelária e outra sobre o jogo do bicho, que Zenatti, nascida em Milão, descreve como uma trama de máfia à brasileira.

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Também estão previstas novas temporadas de “Bom Dia, Verônica” –sustentada por um conservadorismo muito próprio e que descamba para o crime–, “De Volta aos 15” –com Maisa Silva na tão celebrada idade de debutante–, “Sintonia” –que oferece um olhar aprofundado para os jovens de uma favela– e “DNA do Crime” –sobre a complicada vigilância nas nossas fronteiras.

Reality shows também entram nos planos, com novos episódios de “Casamento às Cegas” e “Ilhados com a Sogra”, além de um programa de calouros inédito voltado ao universo do hip-hop.

Mas a menina dos olhos do escritório brasileiro é “Senna”, minissérie sobre o piloto de Fórmula 1 estrelada por Gabriel Leone que segue uma das principais tendências atuais do streaming, que vem fazendo documentários para biografar nomes centrais da cultura brasileira. Recentemente, o Star+ investiu numa ficção sobre Silvio Santos, enquanto a HBO Max viu bombar sua reconstituição do assassinato de Daniella Perez.

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Com estreia prevista para este ano, a atração sobre Ayrton Senna teve trechos exibidos com destaque num apanhado de produções que o serviço mostrou nesta semana, em Los Angeles, para jornalistas de todo o mundo.

“Existe uma diretriz contrária a isso”, diz Zenatti, no entanto, ao ser questionada se a matriz americana orienta seus escritórios locais para que desenvolvam produções com a pretensão de alçar voos internacionais.

“Os escritórios da Netflix têm que cuidar da audiência local, não se preocupar se o título viaja ou não. Até porque o público universal reconhece o sabor local. ‘Round 6’ é exemplo disso”, continua, mencionando a série sul-coreana que, ao basear sua trama em jogos infantis e problemas sociais da Coreia do Sul, virou um fenômeno mundial, chegando até ao ultra-americanizado Emmy Awards.

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Enquanto isso, “Luz” e “Pedaço de Mim” foram a maneira que a empresa encontrou de se aproximar do gosto do brasileiro por novelas sem abrir mão dos hábitos de consumo que ela própria popularizou, como as maratonas de episódios.

Após flertar com o formato por “muitos anos”, o serviço decidiu criar o que chama de séries de melodrama -tramas do tamanho de séries convencionais, mas carregadas no sentimentalismo rocambolesco e nos personagens mundanos, indo na contramão das concorrentes Globoplay e HBO Max.

Ou nem tanto. Ambas estão produzindo novelas diretamente para o streaming, ainda que com diferenças vitais em relação às obras tradicionais. “Todas as Flores”, do Globoplay, e as ainda inéditas “Beleza Fatal” e “Dona Beja”, da HBO, não são obras abertas, que se moldam ao gosto do público, e têm menos da metade dos capítulos de um folhetim tradicional, o que renega, inevitavelmente, a natureza do formato.

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“Nós sabemos que os brasileiros gostam de se ver na tela, mas quem são esses brasileiros? Fazemos esse exercício constantemente: estamos servindo a todos os públicos? Há títulos e gêneros que são bem servidos por Estados Unidos, Coreia, Espanha, então quais são aqueles que fazem a diferença no Brasil?”, questiona Zenatti
Eleita em 2020 pela revista americana Variety uma das 50 mulheres mais influentes do mundo do entretenimento internacional, a executiva italiana estuda o público brasileiro há 26 anos, quando se mudou para o Brasil.
Antes da Netflix, ela passou pelo braço televisivo da Columbia e pela Band e fundou duas produtoras, a RGB Entertainment, que trabalhava com a Disney, e a Floresta Produções, parceira da Sony.

Seu olhar foi uma aposta, em 2021, para atravessar o que ainda promete ser uma discussão turbulenta sobre o papel e as obrigações de empresas de conteúdo sob demanda no Brasil. Ministra da Cultura, Margareth Menezes já disse que é preciso haver o que chama de uma remuneração justa em troca dos lucros obtidos por essas empresas no território nacional.

Algumas das propostas atreladas à regulamentação incluem uma cota para produções locais nos acervos e a cobrança da Condecine, a Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional.
Na França, considerado um dos países mais protecionistas em relação às suas telas, o imposto é de 25%. Na Itália, é de 15%, enquanto em Portugal e Espanha gira em torno de 5%. Na Coreia do Sul, que vem recebendo aportes ainda mais ostensivos da Netflix –o último na casa dos R$ 12,3 bilhões–, discussões semelhantes começam a avançar.

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Hoje, avalia-se que Netflix e Amazon Prime Video tenham cerca de 5% de seu catálogo no Brasil preenchido por produções nacionais, segundo relatório da Ancine. As propostas em Brasília, porém, querem elevar o número para 20% e, dentro dele, quantificar uma cota para obras independentes.

“A estratégia da Netflix no Brasil não muda, porque temos um objetivo muito grande, de crescer, e nós temos uma quantidade local muito relevante, que já beira o que o mercado consegue produzir com qualidade”, diz Zenatti.
Sobre os percentuais estudados, a executiva diz que os “cálculos têm critérios e recortes diferentes” e que “fazer uma porcentagem em cima de um catálogo é algo muito relativo, porque precisamos evoluir de forma sustentável”.

Há temores de que, sem uma regulamentação, plataformas estrangeiras sigam o que o Paramount+ anunciou que faria nesta semana em seu catálogo americano -remover e cancelar lançamentos já anunciados de títulos estrangeiros, enquanto dá ênfase a produções americanas e reduz as internacionais.

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Aliás, sobre a concorrência, que explodiu nos últimos anos com os principais estúdios e empresas de tecnologia da Califórnia entrando no tabuleiro criado pela própria Netflix, Zenatti diz que vê como algo saudável.

“Eu não sou guru para prever [se o mercado ainda pode crescer], mas é um momento delicado”, afirma. “Há muitos conglomerados de mídia neste momento, com outros negócios ao mesmo tempo, então eles têm que integrar tudo. A Netflix, por outro lado, tem um foco muito claro.”

Isto ficou claro quando o serviço anunciou que o último quadrimestre, após o fim do compartilhamento de senhas e da adoção de inscrições com anúncios, foi recordista em ganho de assinantes, perdendo apenas para o primeiro quadrimestre de 2020, quando começou a pandemia de Covid. Enquanto isso, outras empresas têm apertado os cintos e revisto as estratégias adotadas às pressas para jogar o jogo do streaming, como Paramount, Warner Bros. Discovery e Disney.

“Mas eu torço para que haja concorrência, porque ela é muito importante para o audiovisual. Tomara que todos tenhamos fôlego para continuar”, diz Zenatti.