Dany Romano: ‘Meu tesão continua o mesmo’

Compositor e cantor santista se apresentará no Teatro Guarany, nesta sexta-feira (8), a partir das 22 horas

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05 MAI 201517h05

Dany Romano chega aos 43 anos trazendo no currículo quatro CDs e um DVD. Na próxima sexta-feira, o compositor e músico nascido e registrado em Santos como Daniel Romano da Costa se apresenta em um local especial, onde se sente em casa: o Teatro Guarany (Praça dos Andradas, 100, Centro de Santos, a partir das 22 horas). Quem já conhece o artista vai se surpreender com o show. Terá músicas de seu repertório com uma ‘pegada’ diferente, um novo formato, por isso o nome “Um Show Diferente”.

Dany deu um tempo nos ensaios esta semana para uma conversa com o Diário do Litoral. Lembrou das primeiras influências musicais, os anos morando no exterior, falou sobre a atual cena santista e sobre os artistas que está ouvindo agora.

Diário do Litoral – Por que “Um show diferente”?

Dany Romano – “Um show diferente” porque eu não estou tocando com a minha banda que costumo tocar, que é mais rock’n’roll. Neste show eu vou tocar com uma banda mais pro jazz, acid jazz, bossa nova e MPB, formada por Fabiano Guedes na bateria, Ugo Castro Alves na guitarra, André Willians no piano, Paulo Faria no baixo e duas backing vocals, a Suzana e a Erica. No repertório, só música minha nessa pegada de nenhuma ser do jeito que está no CD.

DL – Serão músicas que seu público já conhece, mas com uma pegada diferente?

Dany – Exatamente. Serão músicas dos quatro discos: ‘Desencanado’, de 2007; ‘O meu sonho’, de 2008; ‘Contato’, de 2012 e ‘Carne, osso e coração’, do ano passado.

DL – Você já tocou no Teatro Guarany. Como é tocar em um local com essa importância histórica? E como é a acústica do local?

Dany – Eu adoro tocar no Guarany. Será a quarta vez que vou tocar lá. Para mim é um dos melhores palcos de Santos, a acústica é perfeita porque tem pedra, madeira, vidro. O palco é novinho, as cadeiras são ótimas, o público se sente à vontade. E não precisa tocar muito alto porque é pequeno, 300 lugares. Adoro tocar lá.

DL – Você tem 13 anos de carreira. Como é para um artista, depois de 13 anos, buscar inspiração? É diferente do começo de carreira?

Dany – Na verdade, esse lance de 13 anos é porque eu cheguei da minha viagem de Londres em 2002, fiquei um tempão fora, então eu conto a partir daí. Mas, na verdade, eu já cheguei a tocar com o Chorão e Champignon em 1991, em uma banda chamada Whats’Up, onde eu era o guitarrista.

DL – O que vocês tocavam?

Dany – A gente tocava um rock cantado em Inglês. Era eu, Chorão, Champignon e o Gringo na bateria. Aí eu fui morar na Europa de 1995 a 2002, tocando na rua, tocando no metrô, tive banda, participei de festival, fiz um monte de coisa. Então, essa história de 13 anos é meio entre aspas. A época que eu tocava na rua foi em 1999, eu já ganhava a vida como músico, cantando na rua e no metrô.

DL – Quanto tempo você ficou fora do Brasil?

Dany  - De 95 a 2002. Fui com 23 anos. Fui esquema mochileiro, sem saber o que iria fazer, primeiro fui para a Califórnia, queria morar em Hollywood. Fiquei seis meses lá. Depois, como eu tenho passaporte italiano, fiquei um tempo em Nova Iorque, depois fui para Londres e fiquei seis anos e meio.

Dany Romano vai reunir músicas de seus quatros CDs na apresentação de sexta-feira (Foto: Matheus Tagé/DL)

DL – Você acha que no exterior o artista é mais respeitado?

Dany – Eles dão mais respeito lá. Eles aplaudem. Você pode fazer qualquer coisa, que eles aplaudem. Eles tratam o artista como o artista mesmo. Uma realidade muito distante daqui. De Santos, então...O santista não sabe nem a hora de bater palma. Não sabe se precisa bater palma. Hoje em dia eu já acho isso mais normal, porque são 13 anos tocando na noite em Santos, mas quando eu cheguei e percebi que a galera não batia palma toda hora...Eu achava que não estava agradando. Quando eu percebia que não estavam batendo palma na maioria das vezes, eu pensava ‘não estão gostando do meu show’. Na verdade, não é isso. É que o santista é preguiçoso para bater palma. E ele sente vergonha de começar, de puxar a palma. Se não começar primeiro, ninguém vai.

DL – Essa é uma característica do santista mesmo?

Dany – Acho que é. Eu já toquei em São Paulo, algumas vezes. Tem um pessoal que não bate palma nem no começo, nem no final. As pessoas estão ali mais para azarar, não estão nem pensando atenção na banda. Toquei em alguns bares em São Paulo em que o público mede os caras da banda de cima a baixo, procurando ver onde vai errar, e não batem palma.

DL – Voltando à questão da inspiração. Você compõe suas músicas. Esse processo é diferente de quando você começou?

Dany – Não. A música vem, talvez primeiro. Faço uma sonoridade, uma base no meu violão. E ali invento uma melodia e, na sequência, coloco uma letra. Mas já aconteceu de eu escrever uma redação e daquela redação eu corto, corto e faço uma letra. Porque quando eu estou com a base pronta e a melodia na cabeça, se eu ler uma bula de remédio, eu consigo fazer uma música. E o meu tesão continua o mesmo. Escrevo muita música, não sei de onde vem essa inspiração. Pelo fato de eu dedicar meu tempo totalmente à música, porque não tenho outro emprego...A  música me acha no horário certo. Às vezes é na madrugada, às vezes é de manhã, ao acordar, às vezes andando de bicicleta eu tenho uma ideia de uma letra.

DL – E Santos, para a sua profissão, como está o cenário hoje de locais para o músico tocar? Está diferente de quando você começou a tocar?

Dany – Eu acho que está quase a mesma coisa, mas mais fraco ainda. Tinha mais bares com música ao vivo, antigamente. Hoje são poucos. Tem a questão da lei que saiu depois do episódio em Santa Maria (da boate Kiss, onde vários jovens morreram). Dificultou, fechou algumas casas. E Santos é uma cidade com muitos prédios residenciais, então muitos bares, com som ao vivo, acabam fechando por reclamação. Acabou fechando muito bar por causa disso.

DL – O que você achou da reabertura da Concha Acústica?

Dany – Não me chamaram para tocar ainda. É um lugar legal para tocar? É. Mas colocaram limites, como a proibição de uma bateria, de um amplificador. Limitou. Na minha opinião, tinha que colocar a Concha abaixo, e fazer uma nova, voltada para o mar. Aí não iria incomodar ninguém.

DL – Quem te inspirou para começar a cantar?

Dany – Comecei a ouvir música muito cedo porque sou o ‘raspa de tacho’ (filho mais novo) da minha família. Sou o sexto filho e todos os meus irmãos gostavam muito de música. E sempre ouvi por tabela. Gosto musical deles me influenciou muito. Por exemplo, Beatles. Minha irmã me ensinou ‘Ticket to Ride’ quando eu tinha 6 anos. Já cantava em Inglês, um pedacinho. Depois descobri o álbum “1962-1966”. Aí com a molecada do colégio conheci o Kiss, os caras com máscaras pareciam super-heróis com guitarras na mão.

DL – Aí já veio a vontade de ganhar a vida com isso?

Dany – Não. Acho que foi em 85, quando saiu o primeiro disco do Ultraje a Rigor, ‘Nós vamos invadir sua praia’. Aquilo me marcou muito. Esse disco é bom do começo ao fim. Quando eu vi o Roger na TV, os caras todos cabeludos, eu pensei ‘isso é legal’. Porque as letras do Roger eram muito boas. Era um cara muito inteligente, e aquilo mexeu com minha vontade de escrever também. Já comecei a rascunhar algo. Depois de minha primeira aula de violão, já voltei e fiz uma música. Já tinha essa vontade. Depois, fui melhorando. Tive aulas de violão, mas não tenho teoria nenhuma. Devo ter feito umas dez aulas. Achei um porre. Quando quiseram a me ensinar um pouco de teoria, já pedi para parar. Eu quero acorde maior.

DL – Mas você também toca outros instrumentos?

Dany – Toco gaita, que aprendi de ouvido. Toco um pouco de guitarra. Toco guitarra afinada em sol, que é a afinação do Rolling Stones e que o The Black Crows gosta muito. Isso me inspirou a escrever bastante na época em que eu estava em Londres porque eu queria tocar as músicas do Rolling Stones.

DL – Foi bem importante essa sua estadia em Londres. Parece que até para sua carreira?

Dany – Voltei artista. Se não tivesse ido para Londres eu não teria virado artista. Depois voltei lá em 2010 para passear e ver amigos. Mas passei (na primeira viagem) um ano tocando na rua.

DL – Passou algum perrengue?

Dany – Vários. De achar que seria assaltado, achar que iria tomar facada. Fiquei em bairros como Covent Garden, Hammersmith, Portobello. E, quase todo final de semana, em Camden Town. E quando você toca na rua, fica no chão. E quem fica no chão também são os mendigos. Então, muitas vezes, o músico que toca na rua é meio entendido como mendigo também. Não era o meu caso, porque eu tinha lugar para dormir, tinha dinheiro para comer. Mas eu me sentia um pouco mendigo porque eu ficava um pouco do lado de um mendigo.

DL – Você recebia um pouco de um olhar que um mendigo recebia?

Dany – É. Porque às vezes a pessoa fica com pena, pensa que você está fome, pensa ‘coitado desse cara, tem talento e fica aí na rua’. Eu só fui entender isso depois que eu estava no meio do negócio. Eu tocava muito blues, ficava fazendo só instrumental, afinava o violão em sol e abria o case (caixa onde se guarda o instrumento) porque ficava mais fácil para o cara acertar moeda. Tirava umas dez libras por hora. Tocava umas três horas e depois passava o resto do dia no pub (risos).

DL – Que artistas novos você está ouvindo?

Dany – Ouço muita coisa nova. Eu fico procurando muita coisa na internet, no spotify. De bandas gringas, Blackberry Smoke, que parecem um pouco The Black Crowes, Rival Sons, de Los Angeles, que é estilo Led Zeppelin, nacional estou ouvindo Supercombo, Selvagens à Procura de Lei. Também gosto muito do The Cadillac Three e ultimamente descobri City and Colour.