Cultura foi setor mais impactado pela pandemia

Na categoria de cinemas, R$ 1,4 bilhão deixaram de ser arrecadados somente em ingressos

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06 SET 2020Por Gazeta de S. Paulo07h35
Museu CataventoFoto: Alexandre Carvalho/A2img

Por Gladys Magalhães

Se por um lado as medidas de isolamento social usadas para conter a disseminação da Covid-19 salvaram milhares de vidas, por outro, elas impactaram fortemente a economia, e a cultura foi um dos setores mais atingidos pela crise.

Pesquisa realizada pela FGV, em parceria com a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo e o Sebrae, entre os meses de maio e junho, revela que 88,6% do setor registrou queda de faturamento, 19,3% realizaram demissões, 38% perderam patrocínios obtidos antes da crise, 40,8% possuem dívidas e 35,1% já buscaram empréstimos, mas apenas 4,6% conseguiram.

Ainda segundo o levantamento, em 2020, o PIB (Produto Interno Bruto) do setor criativo, o qual está inserido a cultura, será de R$ 129,9 bilhões, uma redução de 31,8% em relação a 2019. Para o próximo ano, a previsão é de fechamento em R$ 181,9 bilhões, o que significa uma perda de R$ 69,2 bilhões no biênio 2020-2021.

Vale lembrar que no Brasil, o setor de economia criativa corresponde a 2,64% do PIB e é responsável por 4,9 milhões de postos de trabalho. Em São Paulo, essa participação é de 3,9% do PIB do Estado e representa 1,5 milhão de empregos.

Auxílio demorou.

Aprovada pelo Congresso no início de junho, a Lei Aldir Blanc, que prevê o repasse de R$ 3 bilhões aos estados e municípios, criando um auxílio de R$ 600 para artistas e produtores culturais, só teve o decreto que a regulamentava assinado pelo presidente Jair Bolsonaro em 18 agosto.

A demora, na opinião do professor Fernando Pereira, especialista em cultura brasileira da Universidade Presbiteriana Mackenzie, só prejudicou ainda mais o setor. “Vi várias pequenas empresas fecharem porque não conseguiram auxílio. Muitos trabalhadores também estão sofrendo, pois a maior parte é autônoma. Assim, acredito que o auxílio para o setor deveria ter saído há muito tempo. Em outros países, a situação foi muito diferente, com os governos prontamente atendendo ao setor. Mas, aqui, a cultura já vinha sofrendo com ataques antes da pandemia, sendo vista como algo supérfluo, o que é muito triste, pois um País sem cultura é um País sem memória e sem futuro”, diz

A professora de pós-graduação em gestão cultural e de cursos de extensão universitária, Alice Coutinho, do Senac EAD concorda com Pereira e completa: “é preciso defender que haja ações e políticas públicas para a área, pois sabemos que muitos municípios pelo país não possuem nenhum tipo de política voltada à cultura. Também é preciso conhecer o seu território e as demandas locais para que as políticas tenham estratégias assertivas. De modo geral, ações de fomento, preservação, educação e acesso/democratização são sempre necessárias.”

Nem tudo foram espinhos

Apesar das dificuldades impostas pela pandemia, Coutinho acredita em pontos positivos trazidos pela crise. Um deles foi o maior consumo de cultura por meios digitais, algo, que na opinião dela, veio para ficar. “Acredito que o consumo digital que era uma tendência se firmou definitivamente. Já temos visto que o consumo de filmes, séries e música nos ambientes digitais já superou o consumo do ano anterior em apenas um semestre. Além disso, um evento local tem um interesse muitas vezes global, e com isso podemos ampliar tanto o público como a arrecadação”, finaliza.

Cinemas deixaram de arrecadar R$ 1,4 bilhão em ingressos

Fechados desde o dia 13 de março, os cinemas já deixaram de arrecadar R$ 1,4 bilhões somente em ingressos em todo o Brasil. Em termos de público, tendo como base 2019, cerca de 177 milhões de espectadores deixaram de frequentar as salas, sendo 60 milhões somente em São Paulo.

Segundo Paulo Lui, presidente do Sindicato das Empresas Exibidoras Cinematográficas no Estado de São Paulo, as empresas “têm se virado como podem”, recorrendo a empréstimos bancários e aguardando a liberação de financiamento, já aprovado, do Fundo Setorial do Audiovisual.

Além disso, para tentar contornar a crise, empresas do segmento lançaram a campanha #Juntospelocinema, que inclui um manifesto pela volta das salas, discute protocolos de segurança e inclui até um festival, que gerou muitas críticas nas redes sociais por ser lançado em plena pandemia.

MIS
Público em 2019: 619 mil, contando com o MIS Experience
Prejuízo: não houve, pois depende de recursos do Estado
Fechado desde: 16 de março

CCBB
Público em 2019: 827.447
Prejuízo: Os CCBBs não obtêm recursos financeiros oriundos dos projetos culturais realizados.
Fechado desde: 14 de março

Museu Catavento
Público: 665.452 visitantes
Prejuízo: 7% do total do orçamento em 2020.
Fechado desde: 17 de março

MASP
Público em 2019: 729.325
Prejuízo: 25% do orçamento previsto no início do ano
Fechado desde: 17 de março

Museu da Imaginação
Público em 2019: 49.246
Prejuízo: R$ 2 milhões bruto
Fechado desde: 18 de março