Cantor Marcelo Falcão se lança em novo voo

O músico abre o jogo e conta para a reportagem do Diário tudo sobre sua nova fase musical, espiritual e de vida.

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12 MAI 2019Por Thaigo Costa09h13
Marcelo Falcão da banda O Rappa, hoje percorre o Brasil em carreira solo; além da nova fase, ele teve seu primeiro filho, há dois meses.Foto: Divulgação

A vida é feita de fases. E ninguém melhor que Marcelo Falcão para falar sobre isso. O músico que durante 25 anos fez voz em uma das bandas mais conceituadas da história da música nacional, o grupo O Rappa, hoje percorre o Brasil em carreira solo, mas não sozinho. Com ele estão profissionais que já acompanhavam O Rappa, além de alguns conhecidos antigos de Falcão, como Bino Farias (Cidade Negra), Juliana Vieira (jovem guitarrista famosa nas redes sociais) e um time de peso escolhido a dedo. 

Além da nova fase musical, Falcão teve seu primeiro filho, há dois meses, com a namorada australiana Éri Bauchiglione. Recentemente descobriu que é pai de uma jovem de 19 anos (resultado de um teste de paternidade de um relacionamento antigo). 

O músico falou de tudo: política, futebol , família, amigos e o que mais interessa aos fãs, sobre sua nova fase e se O Rappa pode ou não voltar um dia. Falcão contou tudo para a nossa reportagem e você acompanhará agora em primeira mão.

Diário do Litoral: Como você se sente nessa nova fase profissional e pessoal ? Quais suas expectativas ?
Marcelo Falcão:
Estou muito feliz de estar em Santos, com essa nova fase, com o nascimento do meu filho Tom" (homenagem ao “irmão de vida” Tom Capone, produtor que morreu em um acidente de moto em 2004, nos Estados Unidos). Minha expectativa é continuar fazendo o que eu amo, música. Já vivi não ter nada, assim como, vivi momentos grandiosos. Posso dizer que meus últimos 15 anos com O Rappa foi grandioso. Hoje estou com um pensamento só: Não pararia por nada nesse mundo, eu amo música. Tenho muitos arquivos musicais e com a ajuda de vários amigos, como Felipe Rodarte (produtor musical) da Toca do Bandido, Cedric Myton (músico Jamaicano), Lula Queiroga (poeta, cantor, compositor e cineasta) que é um dos meus ídolos, pude terminar o Viver (nome do novo álbum e também da turnê), que foi minha primeira etapa dessa nova fase e agora poder conceber esse show, completa essa fase. Por ser o terceiro integrante do Rappa a fazer carreira solo, tenho em mente nunca, jamais, comparar meu trabalho solo com O Rappa. Afinal foi ele (O Rappa) que me trouxe até aqui, devo tudo a ele. Mas o foco é fazer músicas novas e sentir a aceitação da galera nos shows, cantando e rimando comigo. To amarradão! Mas hoje vivo um novo ciclo e precisava botar pra fora esse meu momento, que é uma coisa só minha.

Diário: E mesmo após tantos anos de palco, ainda bate quele nervosismo por iniciar essa nova fase ?
Falcão:
Sempre! O nervosismo é natural, não tem como não ficar nervoso, ansioso. Mas sabe como a gente ameniza esse nervosismo ? Quando você lembra que foram três meses de ensaio direto, o quanto a gente se dedicou, um ano de estúdio, um olha pro outro e já sabe. Tipo aquele time do Romário que ganhou a Copa do Mundo ou o do Fenômeno com o Rivaldo. Só no olhar já rola aquela energia, fora a admiração de estar no palco. 

Diário: Você falou de futebol mas não citou o Santos do Pelé.
Falcão:
[Risos] Eu preciso admitir, fiz um comentário esses dias nas redes sociais. O Messi pode ser um alienígena, mas melhor que o Pelé ele não é! Ele pode ser melhor do que o Maradona, aí eles decidem lá na Argentina. Eu admito, pois só das histórias que ouvi do meu pai sobre o Pelé, já o tenho como o eterno melhor do mundo.

Diário: Falando em redes sociais, como você tem interagido com a internet e com essa nova geração de artistas digitais ?
Falcão:
Eu penso que é inevitável esse modernismo chegar para todos. Tanto para os que querem quanto para os que não querem. E os que querem e hoje fazem a diferença, parece que já sabiam que isso ia acontecer, já estavam à frente a muito tempo, milhares de likes, independente se é engraçado ou se é uma música popular, ou uma música da moda ou o novo "não sei o quê" do momento. Acho que a internet ainda é pouco explorada, pois tem um potencial gigante, porém poucos sabem usar e se dão bem. Eu aprendo com os novinhos e tento me inserir da maneira mais honesta possível. Acho que posso interagir mais ? Posso ! Com esse pensamento que venho interagindo com Iza, Helinho (Ponto de Equilíbrio), Chino (Oriente) essa galera mais inserida e tem rolado coisas legais como Pesadão, o acústico do Jota Quest que gravamos recentemente.

Diário: Como você enxerga o pop rock e o cenário atual da música brasileira ?
Falcão:
Eu penso que o pop rock desandou mais ou menos como a população brasileira: deixou de ser unido. E nessa desunião todo mundo se sobressai, desde as coisas mais engraçadas as mais ridículas, as mais passageiras. Hoje vemos culturas que eram consumidas apenas em uma ou outra região, sendo consumida no país inteiro, como o caso do forró, que a pouco tempo era consumido basicamente no nordeste, ou até mesmo o sertanejo, sendo consumido nas grandes cidades. Mas essa sobreposição vem também de uma gama de investimentos que já vinham sendo feitos, e de uma unidade artística que faltou no pop rock. Ao invés de serem vários artistas fraquinhos, foi um se unindo com o outro e viraram grandes e fortes. Enquanto no pop rock foi cada um ficando no seu mundo. Acho que também pela galera ser muito na dela, pelo menos eu sou assim. Jamais falaria mal de qualquer estilo, até porque um negão mestiço Rastafári que ama música brasileira gosta de tudo, seja a música que for. E faço uma critica como O Rappa: poderíamos ter feito mais parcerias, mais sons juntos, mais feat que movimentaria muito mais a cena. Mas, por isso hoje vejo os novinhos querendo interagir comigo e tenho maior prazer em interagir, pois o futuro é se misturar mesmo. Mas moda é moda, de tempos em tempos muda, some, volta, faz parte também !

Diário: O que você tem a dizer para essa juventude digital que está vindo com tudo e sobre o legado de bandas como O Rappa?
Falcão:
Eu torço para que essa molecada tenha curiosidade para saber o que rolou nas gerações passadas, 70, 80, 90. E torço que eles acordem mais cedo, pra usar o aparelhinho (smartphone) de uma forma diferente, mais inteligente. Existe um legado, mas vai da curiosidade para as pessoas saberem. E é natural que cheguem novas pessoas, novas histórias, é natural e é preciso, tem que ter novas histórias. Mas o que é pra sempre é pra sempre. Algumas músicas do Rappa, Charlie Brown Jr., Legião, Raimundos, de bandas que viveram uma história de transformação pela música, de querer mudar através da música qualquer coisa ao seu redor, isso ninguém consegue apagar ! Mas mesmo assim vai da curiosidade da molecada. E eu fico muito orgulhoso quando vejo essa molecada me procurando, querendo trocar ideia, e em determinado momento eu pensei: Pô! Como eu não estava vendo isso ? O lance é respeito, temos que nos respeitar, todas as gerações.

Diário: O que você acha sobre a atual fase política do país ?
Falcão:
Sofrível ! Sofrido pra caramba. Eu não fecho com nenhum dos lados. Assim como O Rappa não fechava também. O Yuca teve uma fase que pendeu para um lado, depois deu uma entrevista dizendo que se arrependeu de ter se misturado com política. Eu acredito no trabalho social feito. Pessoas dentro deste ou de outros governos que fazem ou fizeram políticas sociais reais, indo no cerne da questão, ajudar a gente a ser mais instruído, entender e cuidar melhor do nosso país. Porém, não vejo ninguém com interesse em fazer isso. Só vejo uma briga dos que tem o poder contra os que querem o poder. E sem fechar com nenhum lado, com todo o respeito do mundo: vacilou tem que rodar! Ainda mais quem tira da gente, quem tira dinheiro de merenda. Me sinto até envergonhado. Foram 25 anos de O Rappa desabafando sobre esses problemas, então eu deixaria de ser "eu" se não falasse mais sobre isso. É tanta coisa pra falar, cara! Por isso fiz recentemente musicas como "Ladrões", "Diz aí " e outras nesse novo álbum. Não consigo aceitar que desde a colonização nós somos usurpados. Viajo pela Europa e vejo nosso ouro lá. Como é que aquela rainha tem aquela coroa de ouro ? Aquele ouro não é de lá. Fomos saqueados e os que eram para nos proteger, até hoje continuam nos saqueando. Esses que estão aí hoje só fazem com que a gente tenha cada vez mais problemas com o nome política, infelizmente.

Diário: Para encerrar, a pergunta que não quer calar: O Rappa volta ou não volta um dia ?   
Falcão:
Na verdade a pausa foi para tirarmos umas férias sabáticas. A ideia era
dar um tempo para que cada um fizesse e exercesse a sua real vontade. Uns férias, o Xandão (guitarra) e o Lauro (baixo) estão morando em Portugal e o Lobato (bateria/teclado) está produzindo um disco. Assim que acabar nossas férias sabáticas, podemos sentar e conversar e um dia, quem sabe, acho que podemos voltar sim, não vejo problema nenhum!