Bob Dylan faz 80 anos nesta segunda como tema de curso nos EUA

Já vai fazer cinco anos que estudar Bob Dylan deixou de ser só um hobby para amantes do rock ou um projeto de vida para fãs alucinados

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24 MAI 2021Por Folhapress06h06
Bob Dylan Center: museu vai abrigar seus manuscritos, filmes e 38 mil fotografiasBob Dylan Center: museu vai abrigar seus manuscritos, filmes e 38 mil fotografiasFoto: DIVULGAÇÃO

Já vai fazer cinco anos que estudar Bob Dylan deixou de ser só um hobby para amantes do rock ou um projeto de vida para fãs alucinados.

Desde o segundo semestre de 2016, a Universidade de Tulsa, em Oklahoma, no meio oeste americano, oferece um curso de graduação em língua inglesa com aulas específicas sobre Dylan e suas criações, além de manter os arquivos do músico.

É mais uma realização na extensa lista de feitos inéditos do artista, que nesta segunda faz 80 anos. A importância de Dylan para a história da música e para a história contemporânea dos Estados Unidos vai além do fato de ele vencido o prêmio Nobel de Literatura em 2016.

Uma conversa que pode ajudar nessa mensuração é com o diretor do Institute for Bob Dylan Studies da Universidade de Tulsa, professor Sean Latham, também especializado no escritor irlandês James Joyce, morto há 90 anos.

Estudioso de Joyce há décadas, Latham escreveu diversas obras sobre o autor de "Ulysses" e "Finnegans Wake", além de editar uma revista universitária a respeito do escritor.

"Me considero muito sortudo porque Joyce, é inquestionavelmente, o artista mais influente do mundo na primeira metade do século 20, não só na literatura, mas pelo modo como suas ideias circulam e mudam o conceito do que é arte. Ele é transformador", afirma.

"E Dylan é essa figura para a segunda metade do século. Ele também tem o mesmo tipo de impacto global. Ele nos levou a ver a música pop seriamente, a ver isso como uma forma de poesia. Mas não só na música, mas em todos os tipos de forma de arte."

"Nossa missão no instituto é dar suporte, expandir e desenvolver conhecimento em torno do material do Bob Dylan Archive que está aqui na universidade, não só o que está relacionado com canções, mas suas conexões com a cultura, os direitos civis, o ativismo e a música popular como um todo", conta Latham.

Não é que o estudante, ao se formar, vá receber uma graduação em "dylanismo", "dylanologia" ou coisa que o valha. "A formação é inglês e literatura inglesa", esclarece. Mas os estudantes de Tulsa terão três aulas que existem só ali –"Bob Dylan", "De Woody Guthrie a Bob Dylan: Um Século de Música" e "Políticas do Pop".

Apesar de focar as letras escritas pelo músico, o curso também passa um pouco pelas melodias e harmonias de suas canções. "Uma coisa que a gente estuda são as gravações dos vários takes de 'Like a Rolling Stone', que começa como uma valsa, nas primeiras tentativas, e aos poucos vai se transformando no rock que todo mundo conhece hoje", afirma o professor.

Com cerca de 30 novos estudantes por ano, não espere ver velhos hippies barbudos egressos de Woodstock fazendo bagunça na turma do fundão. "No geral, são jovens que chegam para estudar inglês e acabam encontrando esses cursos no meio do currículo. Nos últimos anos, porém, tem havido estudantes de pós-gradução que vêm especificamente para estudar Dylan", diz Latham.

O aniversário nesta segunda foi motivo de um simpósio online que começou no sábado e termina nesta segunda, com 15 professores, pesquisadores e jornalistas dando palestras sobre a obra do músico. A cidade natal de Dylan, Duluth, em Minnesota, também está em festa.

Outra novidade foi o lançamento, no início do mês, do livro "The World of Bob Dylan", organizado por Latham e publicado pela Universidade de Cambridge (US$ 12,65, cerca de R$ 64, o ebook na Amazon). A obra, cuja edição impressa esgotou em duas semanas, traz 28 ensaios de professores das mais variadas áreas do conhecimento.

A história do Institute for Bob Dylan Studies começou com a doação à universidade de uma enorme coleção de papéis, fotografias, gravações e filmes de e sobre Bob Dylan. Daí para os cursos universitários, foi só um pulinho.

Latham se diverte ao recordar como foi sua primeira aula dylanesca, há quase cinco anos. "Eu tinha 30 estudantes na classe, estava bem empolgado e preparei a aula sobre 'Tangled Up in Blue' [1974], que é um dos maiores clássicos de Dylan. Perguntei quem conhecia a música e, para minha surpresa, ninguém levantou a mão. Ninguém nunca tinha ouvido nem falar."

 

"Okay, pensei. Então vamos começar com 'Blowin' in the Wind', porque todo mundo certamente conheça essa. Também ninguém, com exceção de um estudante que disse 'eu conheço essa canção, meus avós têm esse disco, mas não é do Bob Dylan, é do Peter, Paul & Mary' [em 1963, o trio estourou mundialmente com sua versão da música de Dylan]. Avós, okay. Então eu entendi onde estava me metendo."

"O que fiz foi que, no final da aula, pedi que cada um procurasse a discografia de seus artistas preferidos e disse que é quase certo que esses artistas terão feito um cover de Bob Dylan em algum momento. Ninguém acreditou, mas na semana seguinte eles estavam 'oh', 'meu Deus', 'não podia imaginar'. E foi a primeira lição que aprenderam – Bob Dylan está em todos os lugares da música pop."

MUSEU - O estopim para a criação do Institute for Bob Dylan Studies, que oferece aulas sobre o músico, foi a doação para a Universidade de Tulsa, em março de 2016, de um gigantesco arquivo reunido ao longo dos anos pelo escritório de Dylan.

São 100 mil filmes, rolos de gravação, manuscritos, pôsteres, cadernos de anotação etc. Só de fotografias são 38 mil.

O arquivo foi comprado pela George Kaiser Family Foundation, uma instituição filantrópica bilionária, cujo patrono nasceu em Tulsa e trabalha para transformar a sua cidade num polo cultural.

O Bob Dylan Center será inaugurado no centro da cidade em 10 de maio de 2022, com espaço para armazenar tudo e para exibições que acontecerão a cada temporada.

O anúncio foi feito na semana passada, como parte das comemorações da universidade pelos 80 anos do artista, neste segunda. Também em Duluth, Minnesota, cidade natal de Dylan, está havendo festejos.

Apesar de estar 80% digitalizado, o arquivo não está aberto para consultas livres na internet. É preciso ser um pesquisador e solicitar acesso.

"Se você quer ver os manuscritos de 'Bringing It All Back Home' ou ouvir as sessões de gravação de 'John Wesley Harding', tem que vir à universidade e acessar daqui", diz o curador Michael Chaiken, há cinco anos no cargo.

"Há algumas razões para isso. Primeiro, George Kaiser quer gente visitando Tulsa. Mais importante é que precisamos proteger esse material comercialmente", conta ele. "Quando um arquivo vai para uma instituição, ela adquire a propriedade física daquele material, mas não a propriedade intelectual dele."

"A fundação não pode, por exemplo, lançar uma caixa com as sobras de estúdio de 'Oh Mercy', por exemplo. Ou ceder isso como uma canção para um comercial na TV."

Chaiken não esquece como se sentiu ao colocar as mãos no manuscrito da letra de "Maggie's Farm". "Algumas músicas de Dylan são tão grandes que já são parte do tecido da consciência cultural americana. Você nunca pensa que um dia ele se sentou e escreveu aquilo. Demorou um minuto para eu entender."

"A gente sabe essas canções de cor, mas naquele dia essas palavras estavam aparecendo ali para ele e você vê, como em tempo real, as escolhas que ele faz. Sempre que levo alguém ao arquivo, fico observando para ver se a pessoa ficará tão impactada como eu fiquei."