Artigo - Os velhos e os novos tempos de São Vicente

O Festival da Primavera, na Praça 22 de Janeiro, aberto há duas semanas, e que vai durar até o próximo mês, é uma ação prática deste resgate do passado e, consequentemente, do futuro

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27 SET 2021Por Artigo16h30
Foto: DIVULGAÇÃO/PMSV

Não há dúvidas de que São Vicente, pela sua história, por seus lugares, e por eventos que ocorriam na cidade, gera um sentimento saudosista nas pessoas. É assim quando falam do então badalado baile dos Mares do Sul, no Ilha Porchat Clube; da Biquinha de Anchieta e seus doces maravilhosos; da Casa das Bananadas, do trenzinho da Praça 22 de Janeiro, entre outras lembranças que marcaram gerações e gerações. Gente de todos os lugares têm histórias para contar sobre São Vicente. Mas, tristemente, estes velhos tempos foram, aos poucos, ficando para trás. As administrações municipais que se seguiram não souberam manter ou conduzir para o presente estas valorosas experiências que são a essência da cidade. 

Em outra perspectiva, São Vicente também não se modernizou. É preciso entender que uma cidade cresce, ganha escala, se transforma, e assim surgem problemas complexos, que exigem preparo, inteligência para construir soluções. Mas, com gestores do século XX, com políticas do século XIX, enfrentando a cidade do século XXI, isto não é possível. Este desequilíbrio transformou São Vicente em uma das cidades mais defasadas, em termos de desenvolvimento, da Baixada Santista, com problemas, principalmente, nas áreas da saúde, segurança, infraestrutura e habitação. A cidade também não desenvolveu sua economia, e mesmo o segmento do turismo, alardeado como o grande eixo alavancador do município, não prosperou.  Desta forma, a cidade foi não somente perdendo o seu passado, como também comprometendo o seu futuro.

Anos de má gestão geram uma condição difícil. Os passivos da degradação urbana e, sobretudo, social se avolumam, e suas resoluções exigem planejamento, perseverança na aplicação das políticas públicas de forma continuada e paciência da população. Contudo, a superação é possível, e outras cidades pelo mundo confirmam esta possibilidade. É o caso de Medellín, na Colômbia, que saiu da lista das cidades mais violentas e desiguais do mundo para, em menos de 20 anos, ser eleita a Cidade do Ano de 2014, pelo The Wall Street Journal. Destaca-se que é uma cidade latino-americana, com realidades e problemas semelhantes às cidades brasileiras. Com ênfase no combate à corrupção, transparência, e participação da população, os governos de Medelín tiveram êxito na transformação da cidade.

São Vicente impõe desafios enormes para a nova gestão, que assumiu a cidade há 9 meses, por todo o cenário já descrito, e por vivermos um tempo muito particular, que alguns chamam de pós-pandemia. Além do desafio da recuperação econômica e do cuidado sanitário, tudo indica que as cidades sofrerão bruscas transformações nos próximos anos, principalmente na forma como as pessoas se relacionam com o espaço público. E se o horizonte se apresenta desafiador, pode se considerar também oportuno para o resgate da cidade através da transformação urbana, com requalificação e reocupação dos seus espaços públicos pelas pessoas. São Vicente precisa resgatar suas experiências e essências.

O Festival da Primavera, na Praça 22 de Janeiro, aberto há duas semanas, e que vai durar até o próximo mês, é uma ação prática deste resgate do passado e, consequentemente, do futuro. Resgata a atmosfera dos velhos e bons tempos, a ocupação pública de uma praça histórica que estava abandonada, por muitos esquecida, e restabelece o sentido de comunidade. Traz, inclusive, a atividade econômica e o turismo, tão importantes para um município carente de recursos. O Festival da Primavera é a prova de que, quando o poder público ocupa o espaço e o entrega de volta à população, garantindo lazer e segurança, afasta a criminalidade e a desconfiança. Ações como esta são exemplos assertivos de que a cidade pode preservar o passado, focar no futuro e devolver ao vicentino a sensação de pertencimento, com a cabeça erguida e os olhos voltados para o desenvolvimento.

* Kayo Amado, prefeito de São Vicente, e Alexsandro Ferreira, secretário de Projetos Especiais