Vírus Mayaro, 'primo' da chikungunya, já pode estar na Baixada Santista

Especialista destaca que epidemia da doença não está descartada

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28 MAI 2019Por Thaís Moraes07h20
Vírus mayaro é transmitido por diferentes mosquitos, principalmente o Haemogogus, e causa febre e dores nas articulaçõesFoto: Agência Brasil

Mais um vírus ganhou o noticiário brasileiro há duas semanas. É o mayaro, chamado de 'primo' da chikungunya por causar sintomas semelhantes, como dor de cabeça, manchas vermelhas no corpo, febre acima dos 38°C e fortes dores nas articulações, que podem persistir por meses. A duração dos sintomas também é a mesma, até 15 dias.

Para o biólogo, mestre em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e especialista em controle de vetores (animais que transmitem doenças) há 24 anos, Fábio Lopes, é possível que o mayaro já esteja entre nós.

"As pessoas procuram um médico para receber um diagnóstico, mas muitos exames para chikungunya apresentam resultado negativo, são inconclusivos. Será que já não é o mayaro?", questiona.

Outras arboviroses - doenças causadas por artrópodes (insetos ou aracnídeos, como carrapatos) — como dengue e zika também causam dor nas articulações, mas com menos intensidade. Porém, como a dor é individual, difícil de ser medida e as doenças apresentam sintomas parecidos, é comum que clinicamente elas sejam confundidas.

O mayaro, conhecido desde os anos 1950 nas Américas do Sul e Central, é um vírus nativo da Amazônia que já causou surtos na região Norte em 2008, e no Centro-Oeste, em 2015. Segundo o especialista, esses casos urbanos são explicados pelo histórico de viagens das pessoas a lugares onde o vírus circula.

No último dia 16, cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) anunciaram que foi descoberto o vírus no Estado do Rio. Três moradores de Niterói foram contaminados, mas nenhum deles viajou até a Amazônia.

"Esse dado é preocupante, porque significa que ou o mosquito Haemagogus, que também transmite a febre amarela silvestre, chegou ao Rio e se adaptou ao ambiente urbano, ou o Aedes aegypt já tem a capacidade de transmitir o mayaro, o que pode virar uma epidemia", alerta.

Turismo ajuda o vírus

Fábio explica que a capacidade de voo dos mosquitos é muito pequena, dificilmente chegam às regiões urbanas de forma ativa, voando. Se ele for levado pelo vento, o deslocamento é de no máximo três quilômetros. Da Amazônia para o Rio de Janeiro são quase três mil quilômetros de distância.

De acordo com Ministério do Turismo, em 2018 a natureza foi o principal atrativo dos viajantes brasileiros. Ótimo para a economia, ruim para a saúde pública. Uma pessoa que vai para Região Norte é picada por um mosquito contaminado. A doença demora cerca de uma semana para manifestar os sintomas. De volta à região onde mora, se o viajante for picado por uma fêmea, passará seu sangue infectado. "O mosquito só consegue transmitir o vírus de nove a 12 dias depois que picou o humano infectado. Um Aedes aegypt contaminado pode infectar até 20 pessoas", adverte o especialista.

Chances de epidemia

"Se houver mosquito suficiente infectado a chance de epidemia é imensa porque ninguém está imunizado ao mayaro", afirma o biólogo.

No dia 25 de maio, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto afirmaram ter encontrado pela primeira vez no Estado de São Paulo indícios da circulação do mayaro. Na análise de amostras de sangue de doadores de São Carlos (SP), o grupo encontrou anticorpos para o vírus.

Neste ano, até o início de maio, de acordo com as secretarias de saúde, a Baixada Santista registrou 135 casos confirmados de dengue. Santos lidera, com 42 casos.

Menos casos aparentam que há menos mosquitos. "Temos a falsa impressão de que está tudo sob controle, mas a dengue tem quatro sorotipos diferentes. O vírus que está circulando é o tipo 1 e a maioria das pessoas já teve esse, portanto, mesmo se forem picadas, estão imunes".

"Suspeita-se que o Aedes pode transmitir no mundo todo mais de 20 doenças diferentes. Se o mosquito ainda não transmite, ele se adapta. Então precisamos urgentemente diminuir o número de criadouros para baixar o risco de transmissão. Infelizmente, as pessoas ainda não têm a consciência necessária".