A influenciadora Virginia Fonseca deixou a CPI das Bets sem ser indiciada, mas segue sob investigação da Polícia Federal (PF) após o surgimento de questionamentos sobre operações financeiras identificadas em relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Convocada a depor no Senado em maio de 2025, Virginia tornou-se um dos principais símbolos do debate sobre a influência de celebridades na divulgação de plataformas de apostas online, as chamadas BETs. Durante a audiência, ela negou ter recebido ganhos vinculados às perdas de apostadores e afirmou que seu contrato previa remuneração fixa.
“Nunca recebi 1 real a mais do que o contrato de publicidade que fiz por dezoito meses. Era um valor fixo. Se eu dobrasse o lucro, eu receberia 30% a mais da empresa, mas isso não chegou a acontecer”, declarou ela à época.
A discussão girava em torno de uma cláusula apelidada de “cachê da desgraça alheia”, revelada anteriormente pela revista Piauí. O mecanismo previa pagamento adicional caso os resultados da campanha publicitária aumentassem os lucros da empresa de apostas. Para críticos, o modelo estimulava a promoção de um serviço cujo faturamento depende das perdas dos usuários.
O que causou o depoimento no Senado?
Criada em novembro de 2024 para investigar o setor de apostas online, a CPI das Bets encerrou os trabalhos em junho de 2025 sem aprovar seu relatório final. O parecer elaborado pela relatora, a senadora Soraya Thronicke (PSB-MS), sugeria o indiciamento de 16 pessoas, incluindo de Virginia. Os parlamentares examinaram informações como os Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs), produzidos pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), mas o pedido foi rejeitado pelo Senado.
Apesar do desfecho da comissão, as informações financeiras analisadas durante as investigações continuaram chamando a atenção das autoridades. Segundo reportagem da Piauí, os relatórios sigilosos do Coaf apontam movimentações “questionáveis” envolvendo empresas ligadas à influenciadora.
Nova investigação contra Virgínia
A nova investigação apura a legalidade das operações financeiras de Virginia Fonseca e suas empresas, além de a origem dos recursos movimentados. A apuração tenta averiguar eventual prática de crimes financeiros, fiscais e de lavagem de dinheiro.
Uma das operações sob análise envolve a Talismã Digital, empresa de mídias digitais mantida por Virginia e seu ex-marido, o cantor Zé Felipe. Entre março e setembro de 2024, a companhia recebeu R$ 22,4 milhões, sendo cerca de R$ 17,7 milhões transferidos pela AMP Pay Marketing e Negócios, por meio de cinco remessas via Pix.
Os registros levantaram dúvidas ao Santander, visto que a AMP Pay pagante estaria enquadrada no Simples Nacional, regime tributário destinado a empresas com faturamento anual de até R$ 4,8 milhões ou R$ 400 mil por mês.
Outro detalhe curioso é que, além de aparentar não ter “capacidade financeira” para uma alta transição, a AMP Pay estaria localizada em um box comercial no Centro de Itajaí, no interior de Santa Catarina.
A Wepink, marca de cosméticos que se tornou o principal negócio da influenciadora, também virou um dos alvos da investigação da PF. A empresa foi criada em parceria com os empresários Samara Cahanovich Martins e Thiago Stabile e alcançou faturamento bilionário nos últimos anos, de cerca de R$ 1,3 bilhão.
A origem da companhia também passou a ser analisada após reportagens apontarem ligações empresariais anteriores envolvendo pessoas associadas a investigações criminais. Stabile era dono de uma empresa especializada em design de sobrancelhas e cílios, a Pink Lash, que teve como sócia Karen de Moura Tanaka Mori, conhecida como Japa do PCC. Eles chegaram a romper sociedade pouco antes da fundação da Wepink.
Famosa dentro e fora das redes
Virginia Fonseca se consolidou como uma das personalidades mais influentes das redes sociais brasileiras, com cerca de 56 milhões de seguidores no Instagram. Sua capacidade de mobilizar audiência upera a repercussão de temas políticos e acontecimentos de grande impacto nacional.
Levantamento citado pela piauí mostra que, em determinados momentos, o interesse do público pela vida pessoal da influenciadora ultrapassou o volume de buscas relacionadas a figuras políticas de destaque. Episódios como o relacionamento com o jogador Vinícius Júnior e o posterior término geraram forte repercussão nas redes, ampliando ainda mais sua visibilidade.
Enquanto a CPI das Bets foi encerrada sem consequências diretas para a influenciadora, as investigações conduzidas pela Polícia Federal devem apurar a origem dos recursos movimentados por suas empresas e verificar se houve irregularidades financeiras, tributárias ou indícios de lavagem de dinheiro.
Até o momento, Virginia nega qualquer prática ilegal.









