Violência, assédio e insegurança: por que 6 em cada 10 mulheres ainda evitam viajar sozinhas pelo Brasil

O mesmo relatório aponta que a ansiedade feminina em relação às viagens aumentou de 64% para 70% em apenas um ano, refletindo preocupações que abrangem desde o assédio sexual até a violência urbana

O Brasil está entre os países considerados de alta preocupação para mulheres viajando sozinhas

O Brasil está entre os países considerados de alta preocupação para mulheres viajando sozinhas

Elas são donas do próprio roteiro, mas precisam olhar por cima do ombro mais do que gostariam. O crescimento de 60% no turismo solo feminino revela um mundo onde as mulheres representam a maioria absoluta dos viajantes individuais, mas ainda enfrentam barreiras invisíveis de segurança.

Equilibrando o desejo de liberdade com o receio de visitar países em risco, as mulheres trocam o medo pela estratégia, utilizando redes de apoio e planejamentos rigorosos para viajar sozinhas

Atualmente, elas constituem 71% de todas as viagens individuais no mundo, de acordo com um relatório da empresa dinamarquesa de análise de risco Riskline.

Mas, junto com essa tendência crescente, há um aumento na sensação de perigo.

O mesmo relatório aponta que a ansiedade feminina em relação às viagens aumentou de 64% para 70% em apenas um ano, refletindo preocupações que abrangem desde o assédio sexual até a violência urbana, discriminação de gênero e vulnerabilidade em transportes públicos.

Brasil e a situação global de perigo

O Brasil está entre os países considerados de alta preocupação para mulheres viajando sozinhas. A lista divulgada pela Riskline incluiu 29 países mais sensíveis para o público feminino, incluindo México, Haiti, Afeganistão, Paquistão, Nigéria e Sudão.

No entanto, de acordo com o relatório, o risco em solo brasileiro varia significativamente conforme a região visitada.

Estados com altas taxas de violência urbana são mais preocupantes, enquanto destinos turísticos organizados e cidades planejadas com infraestrutura oferecem experiências mais seguras.

Para comparação, países como Canadá, Japão, Nova Zelândia, Singapura, Coreia do Sul, China, Austrália e diferentes países europeus tendem a ser os destinos mais seguros.

Percepções e realidade

Os números globais refletem uma percepção que tem sido reforçada pelo Brasil. De acordo com uma pesquisa intitulada “Mulheres que Viajam Sozinhas”, realizada pelo Ministério do Turismo com a UNESCO, seis em cada dez brasileiras relataram já ter se sentido inseguras ao viajar sozinhas.

A pesquisa, que contou com entrevistas de mais de 2.700 mulheres, revelou que 62% já desistiram de viajar sozinhas por medo.

Para mulheres negras, pardas e indígenas, no entanto, a taxa é ainda maior, destacando ainda mais camadas de vulnerabilidade.

Segundo os especialistas, essa expansão revelou uma verdade invisível por anos: as mulheres enfrentam condições diferentes das dos homens em viagens, hospedagem e circulação em espaços públicos.

Os principais perigos identificados são assédio sexual, ameaças verbais, ameaças de violência física, falta de confiança no uso de aplicativos de transporte, terror em regiões remotas e discriminação em relação ao gênero.

Estratégias de segurança

Embora o medo persista, ele não tem impedido as mulheres de explorar o mundo, mas sim mudado a forma como planejam seus roteiros.

As viajantes se tornaram mais estratégicas, analisando acomodações, bairros e costumes muito antes de partirem para um destino.

Sugestões-chave para melhorar a segurança incluem estudos de antecedentes culturais do destino, evitar viagens noturnas solo enquanto estiver no local, manter o compartilhamento de localização ativado e procurar acomodações bem avaliadas.

Além disso, é importante ter contatos de backup, comprar seguro de viagem, digitalizar documentos e confiar na intuição.

Paralelamente, cresce a formação de redes de apoio femininas em grupos online e comunidades de viagem, onde mulheres compartilham alertas e dicas sobre destinos acolhedores ou perigosos.

Desafios Sociais

Além das barreiras físicas à segurança, as mulheres também relatam enfrentar preconceito social, combatendo a percepção equivocada de que seriam pessoas solitárias ou vulneráveis por estarem desacompanhadas.

Especialistas dizem que o setor de turismo precisa se ajustar a essa realidade em mudança.

A professora Juliana Medaglia, da UFPR, apontou que a implementação de políticas públicas e protocolos específicos pode transformar a experiência de viajar sozinha em algo mais acessível.

Na prática, o movimento revela mulheres cada vez mais independentes, conectadas e dispostas a explorar o mundo por conta própria, desafiando as barreiras de segurança que ainda persistem globalmente.