Veterano da 2ª Guerra Mundial que lutou na Itália é homenageado em Bertioga

Seu Roxinho combateu fascistas na Itália em 1944 e foi homenageado

Da infância solitária marcada por dificuldades em um orfanato até enfrentar os italianos durante a Segunda Guerra Mundial e retornar ao Brasil para cuidar de sua família, a vida de Edson Muniz da Silva, o famoso ‘seu Roxinho’, de Bertioga, sem dúvidas pode ser representada por uma palavra: batalha. E é por isso que a homenagem póstuma recebida por ele no começo de fevereiro é mais do que merecida.

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A trajetória do brasileiro veterano da Segunda Guerra Mundial começou no ano de 1926. Nascido no município de Caxambu, no Estado de Minas Gerais, Edson ainda não era o hoje já famoso seu Roxinho.

“Meu pai nasceu em setembro de 1926 e foi criado pelas duas tias, mas naquela época, até como era uns 20 anos atrás, o Governo Estadual e Federal diziam que levando o filho para uma instituição ele sairia de lá como um professor ou médico e ele, então, foi deixado pelas tias em um orfanato”, afirma o filho de seu Roxinho, José Benedito da Silva, hoje aposentado aos 60 anos.

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No internato, seu Roxinho permaneceu por mais de cinco anos. Apesar de não existir um consenso sobre uma data precisa, ele entrou no orfanato com aproximadamente 12 anos de idade e permaneceu sozinho, só deixando o local ao completar a maioridade.

“Saindo de lá, ele já foi direcionado ao exército e de lá, ele integrou as tropas que foram combater durante a Segunda Guerra Mundial. Ele fez parte da tomada de Monte Castello”.

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A batalha em questão foi travada entre 25 de novembro de 1944 e 21 de fevereiro de 1945. Monte Castello fica a aproximadamente 170 km de Florença e a pouco mais de 135 km de Roma, capital da Itália.

Durante o conflito de quase três meses, tropas brasileiras e estadunidenses confrontaram o exército inimigo e a longa batalha terminou após os ‘pracinhas’ terem conseguido conquistar importantes posições antes ocupadas pelos soldados italianos sob as lideranças dos comandantes Mascarenha de Moraes, Cordeiro de Farias e Mark Clark.

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“Ele ficou por quase dois anos na Itália combatendo os fascistas de Mussolini, mas não gostava de falar a respeito. Ele era muito reservado sobre esse tempo. Sempre que tentávamos entrar no assunto ele se esquivava, não eram memórias boas para ele”.

Na casa de seu José, aliás, é possível ver o legado de Roxinho logo na entrada, com uma placa homenageando o veterano de Guerra anexada na parede logo ao lado da porta de entrada. Dentro da sala, entretanto, a consideração ao veterano ainda é respeitada mesmo hoje, 21 anos após ele ter falecido, uma vez que apenas fotos familiares podem ser vistas.

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Todas as lembranças do período em que combateu os exércitos de Hitler estão guardadas a sete chaves em um quarto utilizado para preservar relíquias como as roupas utilizadas pelas tropas, munições já sem pólvora, bombas de efeito moral, diplomas expedidos pelo Governo Brasileiro, que à época era liderado por Getúlio Vargas, e até mesmo os bordados que estavam anexados aos uniformes dos soldados brasileiros como o icônico símbolo de uma cobra fumando um cigarro.

“Ele deixou o Brasil como pracinha e quando voltou ele se tornou 3° Sargento e depois de um período, ele foi promovido a primeiro tenente, mas ele se desvinculou de tal forma [do exército], que nem chegou a ir atrás dos direitos dele. Só após ele ter falecido descobrimos que ele teria direito a benefícios, que poderiam até mesmo ser vitalícios, mas ele não gostava de conversar sobre o tempo que passou em guerra”, explica.

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Apesar de ter vivido de forma tranquila, José afirma que seu pai possuía algumas ‘cicatrizes’ dos tempos em que passou no campo de batalha.

“Ficou um trauma, existiu um trauma e inclusive, durante as resenhas da vida, quando o pessoal se reunia para conversar, ao ver um avião, ele se assustava um pouco”.

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O retorno ao Brasil ocorreu em 1945 e inicialmente, seu Roxinho voltou para Caxambu, em Minas Gerais, mas as promessas de que o Estado de São Paulo poderia oferecer empregos e uma nova vida o seduziram a ponto de levá-lo a deixar a terra natal para trás. O destino, que ele ainda não sabia com certeza: era Bertioga.

“Ele tentou um recomeço. Logo depois de chegar à Capital São Paulo, ficou sabendo que o Sesc faria uma obra grande aqui em Bertioga. Depois disso ele veio para cá e aqui permaneceu até o fim de sua vida. Aqui, ele foi um dos pioneiros, um dos responsáveis por fundar o Sesc, um dos fundadores mesmo. Ele trabalhava na garagem, setor de manutenção, mas também trabalhou como encanador. Ele fez boa parte do sistema hidráulico que o Sesc usou e ainda usa”, afirma José.

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Uma vez em Bertioga, seu Roxinho conheceu sua esposa. Recém-chegada de Lagarto, município no Estado de Sergipe, Maria Ferreira da Silva veio com os irmãos para São Paulo com o mesmo objetivo: trabalhar no Sesc. Após o primeiro contato, veio a relação e logo eles decidiram iniciar uma vida juntos.

“Ele decidiu que iria trabalhar com a natureza e se dedicou até o fim dos seus dias ao paisagismo e jardinagem. Foi uma espécie de terapia para ele, porque foi o momento em que se encontrou. Tinha seus compromissos com o trabalho, a família, mas mexeu com plantas até o fim da vida dele”.

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Visivelmente emocionado, José afirma que o fato do pai ter virado um ícone e de ter sido homenageado com uma placa na rua que leva seu nome é apenas consequência da vida que ele viveu e do legado que deixou para ele e que já está sendo transmitido tanto para seus filhos quanto para seus netos.

“Para nossa família e nossos amigos é um orgulho muito grande porque nosso pai nos ensinou respeito, dignidade, sempre fazer boas amizades, ser responsável por seus atos, amar ao próximo como a si mesmo. Tudo isso ele nos deixou e vai seguir para todas as próximas gerações sem sombras de dúvidas”, explica.

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Neto de Roxinho, Lucas Rangel Silva diz ter vivido pouco tempo com o avô, mas afirma que ver as homenagens nas ruas recebidas por ele somadas às lembranças deixadas e guardadas com carinho são fonte de grande inspiração.

“É muito gratificante pelo legado que ele passou aos filhos, aos netos e que nós mesmos estamos agora passando para os bisnetos dele. Eu tinha apenas nove anos de idade quando ele se foi, mas as lições ficaram para todo o sempre. Até me arrepia de lembrar”, afirma.

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A homenagem recebida pelo seu Roxinho, e que pode ser vista por todos na Rua Expedicionário Edson Muniz da Silva, no bairro Maitinga, foi uma iniciativa da vereadora Valéria Bento, que já conhecia o veterano de guerra. Ela, entretanto, só descobriu durante seus trabalhos de pesquisa sobre ele, que Roxinho havia enfrentado os fascistas na Itália.

“A gente estuda história e imaginava, mas quando você vê alguém que viveu aquilo realmente é que vem o impacto. Eu fiquei muito feliz por esta homenagem e estou sempre procurando essas pessoas que tenham um elo forte com a cidade para homenagear e o Roxinho era alguém que realmente todo mundo já conhecia, mas que agora poderá ter sua história celebrada até mesmo por quem não o conheceu em vida”, conclui.