Vazamento de gás em Cubatão serve de alerta, diz especialista

Professor e ambientalista Élio Lopes dos Santos acredita que vazamento poderia causar até mortes

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17 JAN 2020Por Carlos Ratton07h30
Vazamento criou coluna de fumaça amarela que, por conta da falta de vento, não atingiu as comunidades próximasFoto: Divulgação

Apesar de não ter causado, aparentemente, mal algum, o vazamento de gás ocorrido na última quarta-feira (15), em Cubatão, deixando parte do céu da região coberto por uma fumaça de cor amarelada, tem que ser tratado com responsabilidade e atenção, pois é perigoso e serve de alerta regional sobre futuros empreendimentos no Polo Industrial de Cubatão e Porto de Santos.

O alerta é do professor e ambientalista Élio Lopes dos Santos, mestre em Engenharia Urbana (com ênfase em poluição do ar), químico, engenheiro industrial, pós-graduado em Engenharia de Segurança do Trabalho e de Controle de Poluição, responsável pela Ecel Ambiental, empresa de Engenharia e Consultoria com mais de 10 anos de atuação.

Segundo ele, ocorreu refluxo no reator regenerador na unidade de tratamento da Refinaria Presidente Bernardes de Cubatão (RPBC), responsável pela produção de gás, GLT e gasolina de alta octanagem, que é exportada para os Estados Unidos (EUA). "Trata-se, portanto, de uma emissão altamente prejudicial à saúde pública e ao meio ambiente em geral, porque há uma mistura enorme de ingredientes químicos, contendo metais pesados, junto com gases e vapores de hidrocarbonetos (que confere a coloração amarela da fumaça) e nafta, entre outros componentes. Além de emissão de dioxinas e outros componentes cancerígenos".

Ainda conforme o especialista, os acidentes são imprevisíveis e quando se lançam esses tipos de gás na atmosfera suas consequências dependem exclusivamente da direção e velocidade dos ventos. "Poderia atingir comunidades próximas e causar até mortes. Por isso, unidades como o terminal da Companhia de Gás de São Paulo (Comgás), no Largo do Caneu, no canal de acesso ao Porto de Santos, que prevê atracação de navios com tanques capazes de transportar 85 mil toneladas de gás liquefeito, devem ser implantadas distantes das comunidades, porque não há plano de contingência", relembra.

Segundo a Defesa Civil de Cubatão, o vazamento foi rapidamente controlado. A Prefeitura de Cubatão afirmou que a Coordenadoria Municipal de Defesa Civil (COMDEC) não precisou ser acionada e tampouco o Plano de Auxílio Mútuo (PAM) que é utilizado em casos de acidentes. O Corpo de Bombeiros também não precisou atuar durante a ocorrência. Ninguém ficou ferido.

Telma cobra

Em relação à citação de Lopes sobre o terminal de Comgás, a vereadora Telma de Souza (PT) está cobrando da Prefeitura de Santos uma ação mais proativa. "É um projeto de grande risco. Não foi apresentado no Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Condema) e, sequer, detalhado na Câmara. Estimativas da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) apontam um potencial explosivo e destrutivo inimagináveis, podendo ser equivalente ou superior a 55 bombas de Hiroshima. A radiação e o calor poderiam atingir o Horto Municipal, na Zona Noroeste, e bairros como Vila Nova e Mathias. Também a Ilha Barnabé", alerta.

A vereadora está cobrando da Secretaria de Meio Ambiente uma posição sobre os riscos; quais as condições do apoio ao projeto; se existe expectativa de geração de empregos e renda para Santos; se foram analisados os estudos da Unifesp; qual a zona de exclusão para dispersão de gás; quais os níveis de radiação e se há entendimentos com a Codesp (Companhia Docas do Estado de São Paulo) e a Marinha.

Prefeituras

As prefeituras de Cubatão e Santos, principais afetados com a possível implantação do terminal, estão divididas em relação à atracação de navios definidos por ambientalistas como navios-bomba. Cubatão aguarda resultados de discussões sobre a questão ao mesmo tempo que analisa os estudos técnicos que levaram à aprovação preliminar do projeto pela Cetesb (Companhia de Tecnologia em Saneamento Ambiental). Já a Prefeitura de Santos aguarda avaliação do Conselho Estadual de Meio Ambiente (Comsema), porque o empreendimento envolve mais de um município.

Como já adiantado pelo Diário, a promotora pública Almachia Zwarg Acerbi, do Grupo de Atuação Especial do Meio Ambiente (GAEMA), deu até o final da segunda quinzena deste mês para a Comgás esclarecer todas as dúvidas ambientais relativas ao futuro terminal.

Ambientalistas

Os ambientalistas alertam a possibilidade de choques entre embarcações e tubulações de gás serem rompidas por dragagens no Canal de Piaçaguera e do Rio Cubatão. Defendem que em um acidente, em caso de vazamentos, falhas estruturais e operacionais de acoplamento; vaporização ou bombeamento, poderá causar uma enorme bola de fogo que atingirá vários quilômetros e outros depósitos de combustíveis e produtos químicos, causando inúmeras mortes.

A Comgás garante a segurança das operações, a geração de empregos e enfatiza que o projeto é importante para o desenvolvimento sustentável do Estado e da Baixada Santista.