Várias histórias e uma oportunidade

Reeducandos do regime semiaberto dão ‘cara nova’ a cinco escolas de São Vicente; relatos demonstram orgulho da ação e expectativas

Comentar
Compartilhar
06 FEV 2017Por Diário do Litoral10h45
Além da pintura, homens organizaram a escola; curso dá certificado profissional e oportunidade de remissão da penaFoto: Rodrigo Montaldi/DL

O cenário é de casa em obras. Enquanto alguns trabalham na limpeza de mesas e cadeiras, outros finalizam a pintura de paredes e portas. Sorrisos misturam-se aos rolos e pincéis cheios de tinta e à felicidade de dar uma ‘nova cara’ ao espaço. Está chegando ao fim mais um dia de trabalho na Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Raquel de Castro Ferreira, no sopé do Morro dos Barbosas, em São Vicente. A unidade foi uma das cinco contempladas na cidade pelo mutirão realizado por alunos do curso de pintura do programa Via Rápida Expresso, do Governo do Estado. Todos são reeducandos que cumprem pena no regime semiaberto. 

“Esse curso é uma oportunidade que poucos têm dentro do sistema. Ele dá oportunidade para que nós, reeducandos, possamos trabalhar e ganhar nosso dinheiro honestamente quando sair”, disse André, 35 anos. Ele é de Itaquaquecetuba e está preso há cinco anos e quatro meses.  

Anderson, 29 anos, já trabalhava como pintor antes de ser preso há dois anos por tráfico de drogas. Oriundo da capital paulista, ele fala com orgulho da felicidade das filhas ao saber que o pai está se dedicando ao conhecimento. “Elas acharam bom quando souberam que eu estava fazendo o curso. Quis fazer porque já era pintor lá fora e precisava de certificado. Trabalhei na construção de sete mil casas em Jaú”. 

Outro Anderson, este de 41 anos, tem comércio em um município da Baixada Santista. Disse que o curso vai servir para usar nos momentos de necessidade, quando estiver em liberdade. Estava feliz por contribuir para a melhoria de uma escola. “Nunca é tarde demais para aprender. Tenho três filhos. Eles ficaram felizes quando souberam que estou fazendo o curso e de ver que o pai está contribuindo para que uma escola fique boa”. 

Oportunidade

 O tempo está fechando e uma forte chuva se aproxima. A correria para finalizar a área externa da escola é grande. Nas salas de aula, os livros estão empilhados nas mesas, enquanto os homens de calça bege, camisa do curso e Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) lixam e dão acabamento às paredes. A Reportagem está autorizada a entrevistar quatro reeducandos. Eles relatam a experiência do curso e os desejos que têm para quando ganharem a liberdade definitiva. O papo chama atenção de outros que formam uma fila indiana para também contar suas vivências. Ouvi-los torna-se obrigação. 

“É uma felicidade muito grande saber que as crianças vão voltar para as aulas e ficarão contentes com a escola bonita e reformada. Trabalhamos aqui com muito carinho. A reportagem vai me ajudar a mostrar que me dedico aos estudos e a ser melhor dentro do local onde me encontro agora e que vou conseguir construir a minha vida novamente”, disse Vanderson, 30 anos. 

A oportunidade é uma constante na fala dos pintores. José Carlos, 38 anos, também quer agarrá-la para fazer diferente quando voltar para Franco da Rocha. “Fazia 15 dias que tinha chegado ao semiaberto e surgiu a oportunidade desse curso e já quis fazer. Esse é o segundo. O primeiro foi de hidráulica. Gosto dessa área. Na rua tive oportunidade de trabalhar com grafiato e textura. Pretendo continuar trabalhando com isso e já tive até convite de um amigo que sabe que eu quero mudar de vida”. 

Conhecimento

Os homens que pintam as paredes da EMEF Raquel de Castro Ferreira cumprem pena no regime semiaberto no Centro de Progressão Penitenciária de Mongaguá. Eles relatam à Reportagem que se voluntariaram para fazer o curso de pintura e que a unidade oferece a oportunidade de conclusão do ensino formal e de trabalho. 

“Pretendo aproveitar o máximo de oportunidades que tenho lá dentro. Estou no segundo ano do ensino médio, terminando os meus estudos. Com esse conhecimento tenho certeza que as portas vão se abrir para mim aqui fora seja em qualquer área. O que eu quero é trabalhar”, disse o vicentino Fábio, 37 anos, que está preso há cinco anos.

No cárcere há um pouco mais de dois anos, Hermes, 34 anos, ainda sonha fazer o curso de engenharia civil. “Antes de ser preso trabalhava como promotor de vendas. No ano passado, na ‘saidinha’, tive a oportunidade de trabalhar com pintura. Não tinha mão de obra. Pintei as casas dos familiares. Com o curso tive a oportunidade de me aperfeiçoar. Quero seguir estudando, pois tenho o sonho de fazer uma faculdade”. 

Aperfeiçoamento

 Edson, 42 anos, de Paraguaçu Paulista, conheceu a cidade de Santos pela primeira vez a trabalho. Pintor ‘de mão cheia’, segundo ele, veio trabalhar em uma obra no município. O curso o permitirá aperfeiçoar os conhecimentos e aplicá-los quando retomar a sua vida fora dos muros do Centro de Progressão Penitenciária de Mongaguá. “Já trabalhava com pintura lá fora. Trabalhei na obra dos prédios do Morro do Ilhéus, em Santos. Lá fora quero voltar a trabalhar com isso. Ganhei muito dinheiro fazendo coisa errada, mas perdi tudo. Quando chega na cadeia e fica trancado a gente aprende que todo aquele dinheiro não era nada”, afirmou.

O mesmo pensa Alberto, 44 anos. Sempre trabalhou como pedreiro até ser preso há sete anos. Diz que não gosta de ‘mente vazia’ e busca fazer todos os cursos que a unidade oferece. “Tenho muito tempo para ocupar a mente. Sou pedreiro sem formação técnica. O curso vai abrir portas lá fora. Acho que o governo poderia aproveitar mais a nossa mão de obra para reformar escolas, hospitais, creches. É bom para nós, que temos a pena reduzida e a oportunidade de trabalhar e aprender, e bom para as prefeituras que não vão gastar com mão de obra. Tem muita gente qualificada não só para pintura, mas também para manutenção”.

Se por um lado a palavra preconceito incomoda, a superação motiva. O paulistano Enos, de 40 anos, produz sacolas dentro da unidade prisional de Mongaguá. Ao lado dos colegas revela as oportunidades que eles têm enquanto cumprem suas penas. Assim como os demais, ele já tem planos para quando sair.

“Aquelas sacolas que a senhora usa e vê no shopping é a gente que faz. Quando chegamos, a escola estava bem feia e acabada. Agora ela está bonita. Me senti orgulhoso e cheio de felicidade, pois poderia ser a escola da minha filha. Falta um ano para eu sair. Pretendo trabalhar e mudar de vida. Ter uma vida melhor com os conhecimentos que tive”. 

Trabalho

João, 59 anos, saiu de Recife, em Pernambuco, rumo a capital de São Paulo em busca de trabalho. Montou um pequeno comércio e por questões que a Reportagem não entrou em detalhes foi preso há sete anos por homicídio. Contente por fazer o curso e estar com as mãos sujas de tinta disse que o trabalho dignifica o homem.  “Está sendo um aprendizado grande tudo isso. Tenho bar e mercearia lá fora. Trabalho desde os 16 anos de idade. Já trabalhei de tudo nessa vida”.

Mais jovem, Erivam, de 29 anos, também saiu do nordeste em busca de oportunidades. Passou por Goiás, onde trabalho em uma usina de cana de açúcar, chegou a capital paulista e logo arrumou trabalho em obra, mas, em um ‘deslize’, foi parar atrás das grades há um ano e meio. “Por causa de uma dívida cometi um assalto (fala envergonhado). Decidi fazer o curso para ter mais aprendizado e o certificado e conseguir emprego lá fora. Sai de Pernambuco aos 18 anos em busca de trabalho. Tenho uma mulher excelente que Deus colocou na minha vida. Sem ela não sei o que seria de mim”.

O pernambucano fez questão de deixar uma mensagem para os alunos da EMEF Raquel de Castro. “Para os alunos dessa escola deixo o conselho que continuem estudando. Que não parem de estudar. Que eles respeitem os pais e os professores e terão vitória”. 

Programa oferece profissionalização 

O mutirão contemplou cinco escolas de São Vicente durante cinco dias. A ação foi realizada em todo o Estado de São Paulo e envolveu 1.225 reeducandos que foram selecionados para receber qualificação profissional por meio do Programa Via Rápido Expresso, que oferece aulas práticas em equipamentos públicos. A ação é uma parceria entre Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado (SDECTI) e a Secretaria da Administração Penitenciária (SAP). 

“Essa parceria é fundamental, pois dá dignidade para o reeducando que sairá em liberdade com um ofício. Eles têm a oportunidade de mostrar que não estão ociosos e que estão buscando serem pessoas melhores. Eles querem melhorar. A inscrição no curso foi voluntária. A cada 12 horas trabalhadas eles terão um dia a menos no cumprimento da pena”, destacou Samuel Marques Ribeiro Júnior, diretor de Trabalho e Educação do Centro de Progressão Penitenciária de Mongaguá. 

“Um trabalho maravilhoso. Desde a pintura do prédio a organização da escola. As crianças voltarão às aulas com tudo organizado e pintado. Eles vieram em uma boa hora. Estamos necessitando em outras escolas, inclusive”, destacou Simone Garbin, diretora de projetos e convênios da Secretaria de Educação de São Vicente.

Os cursos possuem dois módulos, divididos em 25/horas de aulas teóricas e 75/horas de práticas. Os municípios foram escolhidos de acordo com a demanda de reeducandos na Baixada Santista. Para as aulas práticas do curso de pintura, na região, foram indicadas escolas municipais, como forma de manutenção e limpeza de prédios públicos.