Tratamento adequado e acessível é a grande luta dos autistas

Esperança de muitos pais é a Clínica-Escola do Autista, com previsão para ser inaugurada ainda neste ano.

Ouvir o diagnóstico F84.0, sigla que representa autismo infantil na Classificação Internacional de Doenças (CID), foi muito doloroso e desesperador, mas também significou o fim de uma aflição para a arquiteta Luciana Vaz, de 36 anos. 

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Passar por cinco pediatras e ouvir que seu filho, então com dois anos e meio, não apresentava nenhum comportamento fora do esperado, não a fez desistir de entender por que Heitor possuía comportamentos diferentes das outras crianças.

“Meu filho batia muito as mãos e ficava agitado com luzes e sons. Também não se interessava em brincar com outras crianças e não atendia quando a gente chamava. Os exames não apontavam nada e os médicos não souberam diagnosticar, diziam que era coisa da minha cabeça”, conta.

Foi com uma neuropediatra do Sistema Único de Saúde (SUS) que o tão esperado diagnóstico veio. A partir dali, iniciou-se a segunda parte da luta: as terapias, fundamentais para o transtorno do espectro autista (TEA), que não tem cura.

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Da consulta, Luciana recebeu encaminhamento para a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE). Tentou a unidade de São Vicente, mas havia fila de espera. No plano de saúde indicaram profissionais credenciados, como psicólogo e fonoaudiólogo.

“Íamos uma vez por semana. Eu chegava, dizia que ele tinha autismo e os profissionais não sabiam o que fazer. Foi assim durante um ano em diferentes clínicas. Perdemos um tempo muito precioso de aprendizagem, que ele poderia ter evoluído muito mais”.

Na internet, com o Grupo Acolhe Autismo (GAA), criado em 2012, Luciana encontrou apoio de outras mães e um caminho para um tratamento efetivo. Começava ali a terceira luta. “Eu e meu marido trabalhávamos, tínhamos uma vida estável, mas para cuidar do Heitor não pude mais voltar à profissão. Nossa renda diminuiu muito, tudo é caríssimo. Nunca senti tanta impotência porque sempre achei que lutando a gente conseguia”, desabafa a arquiteta, que possui mais dois filhos, uma menina de 15 anos e um bebê de um ano e três meses.

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Por meio do GAA, Luciana soube do Grupo de Avaliação Diagnóstica e Intervenção (GADI), clínica particular que funciona em Santos, e pediu ao plano de saúde que o tratamento fosse feito lá, mas em vez de ajudar, a empresa quis cancelar o serviço.

“Não nos queriam mais como clientes. Só consegui tratamento em outubro de 2018, ele já com quatro anos, e por causa de uma denúncia na Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). É uma terapia integrada pela qual todas as mães lutam para que os filhos tenham acesso, com psicólogo, terapeuta ocupacional e fonoaudiólogo”, resume.

O tratamento mencionado é o ABA, que traduzido para o português é conhecido como Análise do Comportamento Aplicada. Trata-se de uma ciência que trabalha no reforço dos comportamentos positivos. O tratamento intensivo, com 20 horas semanais, é individualizado e envolve o ensino de habilidades necessárias para que o autista adquira independência e a melhor qualidade de vida possível. No GADI, o tratamento está disponível apenas na modalidade particular.

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Com nove meses de tratamento, Heitor avançou no brincar; na comunicação e interação com as pessoas; na resposta a comandos; na expressão de suas vontades e emoções e até na sua independência, como ir ao banheiro.

“Eu subestimava o que ele poderia fazer e é tudo uma questão de treino, de confiança. Fazer tudo com muito amor e acreditar que a criança vai conseguir. O mais importante é que o diagnóstico seja feito rapidamente e es pessoas tenham direito ao tratamento”, analisa Luciana.

Há 23 anos, a pedagoga Eliana Pereira, de 50 anos, deu à luz ao seu segundo filho, Rodrigo. O diagnóstico veio na consulta com o primeiro pediatra. “Quando o médico falou, abriu um buraco. Era muito difícil porque não tinha onde pesquisar, as mães estavam sozinhas”, recorda Eliana, uma das fundadoras do Grupo Acolhe Autismo.

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Assim como ocorre hoje com muitas crianças e jovens, o tratamento não veio do plano de saúde. “Tudo era feito no particular, que era muito caro. Meu marido trabalhou e trabalha muito para dar uma boa qualidade de vida para nosso filho. Hoje há mais recursos na rede pública, mas são poucas vagas, tempo insuficiente e o tratamento não costuma ser individualizado”, observa.

CLÍNICA ESCOLA.

O engajamento do Grupo Acolhe Autismo gerou em 2014 o projeto Clínica-escola do Autista, que segundo a Prefeitura de Santos, será entregue ainda neste ano, e funcionará na antiga Escola Estadual Braz Cubas, no Marapé. A inauguração depende da formação da equipe técnica, que será selecionada por concurso público.

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Com uma rede pública municipal de ensino com 521 alunos com TEA, a estimativa é que inicialmente a Clínica-escola atenda 100 pessoas, de todas as idades. O equipamento terá 12 salas de atendimento, duas de integração social, uma de intervenção precoce, sala de estimulação sensorial e sala de atividades diárias, com cozinha, sala, banheiro e quarto.

A administração municipal informa que as intervenções da clínica-escola serão pautadas nos Princípios da Análise do Comportamento. A equipe será composta por um assistente social, um nutricionista, um médico psiquiatra, três psicólogos, três fonoaudiólogos, três terapeutas ocupacionais, dois educadores físicos e três professores de atendimento educacional especializado.