Ansioso, o pequeno Pedro Neto, de 12 anos, aguardava a chegada da Tocha Olímpica, na Avenida Capitão Luiz Pimenta, em São Vicente. Campeão sul-americano de judô, o adolescente sonha estar nas próximas olimpíadas. Para sua mãe, que se desdobra na venda de rifas e na promoção de eventos para garantir a participação do filho nos campeonatos, a passagem da chama olímpica pela cidade, que enfrenta uma grave crise financeira e política, representa a esperança de dias melhores.
“Ele não tem patrocínio. Faço rifa e corro atrás porque é difícil manter um atleta. Ele começou fazendo judô aos oito anos na escola onde estudava. Tem atleta da academia dele que ganha bolsa. Infelizmente, em São Vicente, não consegui esse incentivo. O sonho dele é participar das olimpíadas. A cidade está suja e muito esquecida, mas tenho fé e esperança que isso vai mudar”, afirmou Rosangela Silva, mãe de Pedro.
O jovem atleta mora no bairro Náutica III. Sempre estudou em escola pública. No ano passado ele disputou seu primeiro campeonato internacional, em Cordoba, na Argentina, onde foi consagrado campeão sul-americano. Nos próximos dias sua mãe deve organizar um pedágio no semáforo para arrecadar doações para o próximo desafio de Pedro: o campeonato brasileiro. A categoria do atleta é a sub-15 menos 36 quilos.
“Vim ver a tocha porque acho legal. Um dia posso participar também. Tenho objetivo de poder viajar para fora de novo e participar das olimpíadas”, disse Pedro, que também estava acompanhado pelo pai. Seus olhos brilharam quando a chama olímpica chegou próximo onde estava. Timidamente tentou ficar mais perto do objeto, mas a multidão misturada aos inúmeros membros da organização do evento não lhe favoreceu.
Ambulante
Próximo ao jovem judoca, com caixas de isopor e garrafas térmicas em cima de uma bicicleta cargueiro, o ambulante Denis Roberto aproveitou a concentração do início do evento para ganhar um trocado. A manhã fria de sexta-feira fez com que o produto mais pedido fosse o pingado.
“Vendo água, café, refrigerante, salgadinho (…). Vim uns 40 minutos antes de começar. Sabia que ia ter bastante gente aqui. Esse evento é um incentivo para a gente. Vê se reanima a cidade que está muito esquecida. Bem ou mal vamos ser lembrados”, afirmou Roberto, que é morador do bairro Parque Bitaru.
Insatisfação
A Reportagem seguiu o comboio do revezamento e, próximo a Ponte Pênsil, encontrou com a auxiliar de limpeza Edineide Roberto, de 38 anos. Ela mora em São Vicente há 20 anos. Foi prestigiar a passagem da Tocha Olímpica junto com alguns amigos, mas não estava satisfeita com o cenário que seria mostrado.
“Veja só o píer (dos pescadores) está interditado (aponta para um grande buraco que há na estrutura de madeira). Mais lá na frente a gente vai ver a obra parada da Biquinha. Tá vendo ali o lixo? É a primeira cidade do Brasil. Muito triste apresentar essa situação degradante para o mundo. De todas as cidades que a tocha passou, acredito que essa seja a mais arrasada. Vim porque é um evento bonito, mas estou com vergonha do que estão vendo”, afirmou.
Protestos
Já no Gonzaguinha, um grupo de moradores e trabalhadores da Companhia de Desenvolvimento de São Vicente (Codesavi), em greve há mais de 20 dias, gritava “a tocha passa, o lixo fica” com vassouras e sacos de lixo na mão, ao lado um monte de entulho e um sofá velho. Os funcionários da empresa de economia mista, cuja prefeitura é a acionista majoritária, são responsáveis pela limpeza das ruas e praças da cidade.
“Tem pessoas posicionadas em vários trechos da passagem da tocha. É um protesto pacífico. Queremos chamar atenção da população e da imprensa internacional para a nossa situação. Estamos passando dificuldades sem salário, sem nada. Difícil o seu filho pedir algo para comer e você não ter como comprar. Ter que pegar dinheiro emprestado para poder viver”, afirmou o pedreiro Luciano José de Barros, que trabalha na companhia há seis anos.
Um protesto organizado na porta da Prefeitura pelos trabalhadores da Codesavi e o lixo espalhado pelas ruas próximas, onde estava prevista a passagem do revezamento, fizeram com que a organização do evento alterasse o percurso. A categoria está sem receber salário, cesta básica, vale-alimentação e vale-transporte. A companhia demitiu, desde o início do ano, 180 funcionários.
“Amo a cidade, mas a minha cidade está muito desorganizada. Espero que essa tocha traga a esperança de dias melhores”, afirmou a dona de casa Elaine Haiek, que estava em frente à prefeitura e ficou surpresa com a mudança do percurso. “É uma pena. Tinha gente que estava aqui para ver”.
No final do revezamento, em São Vicente, na praia do Itararé, um grupo de 50 trabalhadores da Codesavi protestou com faixas e camisetas com inscrições em português e inglês.
Santos
Já no município vizinho, em Santos, o protesto de duas jovens chamou atenção no final da tarde. Integrantes de um grupo de proteção animal, elas carregavam cartaz que lembrava a morte da onça Juma, durante a passagem da Tocha Olímpica, em Manaus, na Amazônia.
“Estamos aqui com esse grupo de proteção para zelar pelos animais. Ficamos indignadas com a morte da onça. O animal foi tirado do seu habitat e acabou abatido num evento para exibição ridícula. Queremos mostrar a nossa indignação com o desprezo e ignorância com nossos animais”, disse Dafne Jaune, psicóloga canina. Ela estava acompanhada de Cintia Sabino, estudante de Oceanografia.
