Teve algum? Fábrica de brinquedos Estrela pede recuperação judicial após quase 90 anos

Criadora da boneca Susi e do Autorama tenta renegociar dívidas em meio a mudanças no consumo das crianças e disputa milionária com a Hasbro

A Estrela entrou com pedido de recuperação judicial após citar juros altos, restrição ao crédito e mudanças no comportamento do consumidor/Reprodução

A fabricante de brinquedos Estrela informou nesta quarta-feira (20) que entrou com pedido de recuperação judicial, em conjunto com empresas de seu grupo, diante de dificuldades financeiras agravadas pelo aumento do custo do crédito, pelas restrições no acesso a financiamentos e pelas mudanças nos hábitos de consumo.

O pedido foi protocolado na Comarca de Três Pontas, em Minas Gerais, e envolve oito empresas do Grupo Estrela, entre elas a Manufatura de Brinquedos Estrela S.A., a Editora Estrela Cultural e a Estrela Distribuidora de Brinquedos.

Crise econômica

Em comunicado ao mercado, a Estrela afirmou que a medida tem como objetivo reorganizar seu endividamento e preservar a continuidade das operações, além de manter empregos e a geração de valor para clientes, fornecedores e acionistas.

A empresa também explicou que o cenário econômico dos últimos anos comprometeu a estrutura financeira do grupo. Entre os fatores apontados estão os juros elevados, a maior dificuldade para obtenção de crédito e a mudança no comportamento do consumidor, com aumento dos gastos com opções digitais de entretenimento, como jogos eletrônicos e plataformas online.

Confira os principais brinquedos da Estrela

Como funciona a recuperação judicial?

Pela legislação brasileira, a administração da empresa permanece responsável pela condução dos negócios enquanto o plano de recuperação é elaborado e submetido à aprovação dos credores.

A Estrela informou que apresentará futuramente um Plano de Recuperação Judicial, que precisará ser aprovado para viabilizar a reestruturação financeira do grupo.

A recuperação judicial é um mecanismo previsto na legislação brasileira para empresas que enfrentam dificuldades financeiras e buscam renegociar dívidas para evitar a falência. Durante o processo, a companhia apresenta um plano de reestruturação e continua operando normalmente enquanto negocia com os credores.

História da Estrela

Fundada em 1937, a Estrela se consolidou como uma das marcas mais tradicionais do setor de brinquedos no Brasil, com produtos que marcaram diferentes gerações de consumidores.

A empresa começou como uma pequena fábrica de bonecas de pano e carrinhos de madeira. Ao longo das décadas, ampliou seu portfólio e lançou brinquedos que se tornaram populares no país, como Banco Imobiliário, Autorama, Falcon, Genius, Susi, Comandos em Ação e Super Massa.

Nos anos 1940, a companhia lançou o tradicional Banco Imobiliário, que se transformou em um dos jogos de tabuleiro mais conhecidos do mercado brasileiro.

A Estrela tornou-se uma das primeiras empresas brasileiras a abrir capital na bolsa em 1944. Nas décadas seguintes, consolidou sua presença no setor com bonecas, brinquedos eletrônicos e carrinhos de controle remoto, acompanhando as tendências do mercado infantil.

Atualmente, a Estrela mantém operações industriais em São Paulo, Minas Gerais e Sergipe, além de um escritório central na capital paulista. As atuações seguem normais durante o processo de recuperação judicial.

Barbie vs Susi

Um dos episódios mais marcantes da trajetória da companhia ocorreu no fim dos anos 1990, com o encerramento da parceria com a fabricante americana Mattel.

Durante cerca de 30 anos, a Estrela produziu e comercializou a boneca Barbie no Brasil. Após o fim do acordo, a empresa relançou a boneca Susi, que estava fora do mercado havia mais de dez anos, em uma tentativa de recuperar espaço entre os consumidores.

A empresa também enfrenta há anos uma disputa judicial com a americana Hasbro, que cobra royalties relacionados à venda de cerca de 20 brinquedos no Brasil, entre eles o Banco Imobiliário.