‘Tem surgido universidades cada vez mais mercadológicas’, diz presidente da UNE

No Papo de Domingo, a santista Carina Vitral assumiu este mês a presidência da entidade e fala de seus objetivos à frente da União Nacional dos Estudantes

Santista, estudou nos colégios Jean Piaget e Universitas, Carina Vitral tomou posse no último dia 14 como presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE). Com 26 anos e estudando o sexto semestre de Economia na PUC-SP, Carina sucede outra mulher na presidência da UNE, Vic Barros.

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A representante máxima do movimento estudantil – ficará dois anos no cargo – deu uma entrevista ao Diário do Litoral, por telefone, na quarta-feira, onde falou sobre as lutas da UNE, as necessidades da Baixada Santista e também sobre Política –  ela é filiada ao PC do B). Confira, a seguir, este Papo de Domingo:

Diário do Litoral – Como santista e por ter sido diretora do Centro de Estudantes de Santos (CES), como vê hoje o estudante santista quanto à participação em movimentos estudantis?

Carina Vitral – Quando participei do Centro dos Estudantes de Santos era em uma época em que a gente tentou reconstruir a entidade. E Santos tem uma tradição grande de discussão, de mobilização social. O próprio CES tem uma história de lutas sociais, mas no último período, mais recente, tem ficado aquém. Comemoramos agora a reorganização do CES. Agora, uma gestão assumiu o centro e está colocando a entidade para fazer os debates nas universidades.

DL – Como avalia a mobilização hoje do estudante santista, se comparada com os estudantes de outras áreas do País?
Carina –
A mobilização é grande. Santos tem essa tradição, que está sendo resgatada entre a juventude. Está na mesma média da nacional. É uma geração que está acordando para as lutas, participando das manifestações. Isso é importante.

DL – Desde sua campanha para a UNE e mesmo depois de sua posse, você tem falado muito nas universidades privadas. Sente uma diferença grande no ensino, quando elas são comparadas às universidades públicas?
Carina –
Houve uma mudança significativa, na média geral dos estudantes. Hoje, 75% dos estudantes estão em universidades privadas, e muitos têm bolsas do ProUni e financiamento do Fies. Essa democratização do acesso (à universidade) foi comemorada pelo movimento estudantil porque há muito tempo a gente dizia que a universidade não podia ser só coisa de rico, também precisava incluir toda a juventude. Só que não basta apenas ter acesso à universidade, é preciso ter acesso à qualidade. Tem diferença de qualidade entre as universidades privadas e públicas, principalmente no acesso à pesquisa. Porque universidade não é só Ensino, não é só sala de aula. É também para fazer pesquisa para desenvolver o Brasil. Poucas universidades privadas têm acesso à iniciação científica. Tem universidades que estão proliferando em Santos ainda mais mercantilizadas. Santos tinha as universidades privadas tradicionais que mantinham uma qualidade, um nome a zelar na Cidade, mas tem surgido universidades cada vez mais mercadológicas que veem o Ensino não como um fim em si mesmo, não como um serviço educacional, mas mais o lucro.

DL – Houve a abertura de vários cursos de Direito. Há uma atenção especial da UNE, no sentido de alertar os que estão interessados em frequentar esses cursos?
Carina –
Sim. Achamos que se precisa de todo tipo de profissional, não só os de Direito e outros mais concorridos, mas também de engenheiros…Nossa região precisa muito, tem o pólo petroquímico importante, tem o pólo industrial. Cada vez mais precisamos de engenheiros, de pessoal da área da Saúde e outros.

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DL – Você tem um questionamento muito contundente contra a oferta de disciplinas on-line. Por que isso?
Carina –
Nossa crítica não é contra o Ensino à distância. Nossa crítica é a aplicação de disciplinas on-line nos cursos presenciais, porque muitas universidades, essas mais mercadológicas, estão aplicando 20% do currículo com disciplinas à distância. Esses 20% são autorizados por uma portaria do MEC (Ministério da Educação), que permite disciplinas à distância. Essa portaria tem como objetivo diversificar e colocar tecnologia nos cursos, por exemplo, nas universidades federais para ter um padrão de qualidade elevado. O problema é que nas universidades privadas esse mecanismo não está só colocando só mais tecnologia no curso, mas está se valendo dessa portaria para diminuir custos. E quando se diminui custo, se diminui qualidade.

DL – Essa será, então, uma das principais bandeiras da UNE: o posicionamento contra a postura de algumas universidades disponibilizarem as disciplinas on-line?  
Carina –
Queremos derrubar essa portaria porque nos sentimos enganados. O aluno faz o contrato de um curso presencial e 20% significa um dia inteiro sem ir para a faculdade. Tem que ficar na plataforma on-line, em geral essa plataforma não funciona, não é de qualidade. E é uma contradição porque nas universidades que têm disciplina à distância não tem sequer wi-fi. Se é para melhorar a qualidade, se é para colocar a tecnologia, para informatizar a graduação, por que não tem wi-fi para o aluno usar?

DL – Você acabou de assumir recentemente. Qual a ideia, fazer uma representação no MEC?
Carina –
Sim, no MEC. Já apresentamos essa reivindicação no MEC e agora precisamos mobilizar os estudantes para mostrar que essa bandeira não é só da UNE, mas de todos os estudantes.

DL – Você sente uma sinalização do MEC em mudar isso?
Carina –
O MEC não conhecia essa realidade. Como ele tem poucos instrumentos de avaliação das universidades privadas – a cabeça do MEC é a universidade pública, onde não existe lucro. Então eles sequer conheciam essa realidade. Como isso tem indignado os estudantes, levamos a questão ao MEC, que irá fazer uma reunião específica sobre isso.

DL – Você sucede outra mulher na UNE. Vê nisso uma coincidência ou sente uma maior participação das mulheres no movimento estudantil?
Carina –
Com certeza não é uma coincidência. Faz parte de uma decisão política de empoderar as mulheres, porque já somos maioria na universidade desde a década de 90, e o movimento estudantil tem incentivado as mulheres a se tornarem lideranças, que se tornem agentes de transformação do movimento. A presidência da UNE ser ocupada pela mulher tem reflexos práticos na base do movimento porque as pessoas se espelham na liderança.

DL – Quando mais nova, você participou do Conselho da Juventude em Santos. Tem muita gente que desdenha de órgãos como esse. O conselho foi importante para você? Como foi sua experiência?
Carina –
Foi muito importante. Eu, na verdade, quando participei, ainda era Comissão Municipal de Juventude. Acho que tinha uns 16 anos. É bastante importante porque é a forma como as organizações podem influenciar nas políticas públicas da juventude. Por exemplo, esses movimentos juvenis conquistaram avanços expressivos na política para a juventude. Hoje a juventude é reconhecida pela Constituição Federal. Antes, eram as crianças, os adolescentes e os idosos, e ficava um vácuo. O jovem, que é uma faixa etária importante, quando se fala na criação de identidade, emancipação econômica e social, não contava com uma política específica para ele. E conseguimos aprovar no Estatuto da Juventude, um estatuto próprio, um regramento, tanto com a PEC da Juventude, como o Estatuto da Juventude. Esse movimento foi conquistado pelos conselhos e comissões.

DL – O que você diria para um estudante que está lendo esta entrevista sobre a importância dele ser um associado e participar da UNE?
Carina –
No dia a dia, vários dos nossos direitos não são assegurados nas universidades. E a UNE serve para isso, para colocarmos o dedo na ferida e conquistarmos nossos direitos. Por exemplo: o estudante paga taxa para tudo, paga para retirar um documento, paga para renegociar matrícula, paga para fazer prova substitutiva, transferência…Uma série de questões que o estudante sozinho não consegue ter voz para mudar isso. Na maioria das nossas universidades não há diálogo. A UNE serve para isso e não só. A UNE tem uma história bastante bonita de resistência e de democracia nesse País. Acho que a história da UNE é conhecida. Não tem como não contar a parte de resistência da ditadura militar sem falar da UNE. Todos têm essa referência forte. Mas hoje é um cenário diferente porque são 7 milhões de jovens, 25% da juventude está na universidade. Na época da ditadura era 1%. Mudou muito. Hoje, temos uma universidade mais popularizada e uma UNE mais popular. Como fazer para atingir os 7 milhões de estudantes é um desafio muito maior. Essa causa por uma educação de qualidade, por direitos, é o que faz a UNE viva nos anseios da juventude.

DL – Há uma crítica de alguns que veem a UNE afinada com o Governo Federal. Como você responde a esses críticos?
Carina –
Nós da UNE não apoiamos nem somos oposição a nenhum governo, seja municipal, estadual ou federal. Analisamos as políticas públicas e vemos se são favoráveis ou não aos estudantes. Nossa régua é o benefício, o interesse dos estudantes. E nos últimos anos, de fato, muita coisa mudou no Ensino Superior. O que justifica, teoricamente, uma aproximação. Na formulação do ProUni, por exemplo, há dez anos, tivemos um papel decisivo para formular o ProUni. Ou a reformulação do Fies. Hoje o Ministério da Educação pergunta à UNE sobre políticas públicas. Não existe aproximação ‘a priori’. Existe uma aproximação institucional, que não é apoio político ao Governo Federal, mas é uma aproximação institucional porque nós, como representantes legítimos dos estudantes, somos ouvidos. Em outros governos não éramos ouvidos. Essa aproximação institucional ela é importante porque queremos ser ouvidos. Afinal de contas, a UNE precisa ser ouvida para poder influenciar nos rumos da Educação.

DL – Qual pode ser a contribuição para a região de uma santista na presidência da UNE?
Carina –
Uma das coisas para o próximo período contribuição minha da UNE, enquanto santista, será a luta por uma universidade federal na Baixada Santista. Em todo o Brasil, várias surgiram e em Santos apenas um campus da Unifesp e outro da USP. Acho que Santos merece uma universidade federal própria. Talvez uma Universidade Federal da Baixada Santista ou Universidade Federal do Litoral, algo desse tipo. Precisamos retomar em conjunto com CES, parceria UNE e prefeituras da região.

DL – Como vê hoje o cenário político em Santos?
Carina –
A Cidade oxigenou muito na política, se pensarmos que os dois últimos prefeitos são mais jovens e que não representam a política mais tradicional. O que falta é uma renovação da esquerda. Santos, apesar da fama de ter muitos idosos, é também bastante jovem. Acho que precisa de renovação da esquerda. Se é verdade que houve renovação na política, a esquerda não se renovou. Isso a enfraqueceu nos últimos anos, por fruto dessa não renovação, então acho que Santos precisa de oxigenação da esquerda para termos uma disputa de alto nível. Há muito tempo não tem segundo turno em Santos. A saída para a esquerda é a renovação.