Cotidiano

Sites vendem cartas psicografadas com 'prazo de entrega' e são acusados de golpe

As plataformas cobram até R$ 89,90 por mensagens do além em 6 horas, e as vítimas relatam uso de inteligência artificial e fraude no luto

Giovanna Camiotto

Publicado em 19/01/2026 às 19:01

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Uma investigação revelou um mercado sombrio que explora a fragilidade de pessoas enlutadas / Gemini AI

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Uma investigação detalhada do jornal O Globo revelou a existência de um mercado sombrio que explora a fragilidade emocional de pessoas enlutadas. Sites como "Chamado Espiritual" e "Carta Viva" (que recentemente mudou o nome para "Carta Psicografada") prometem uma comunicação direta com entes falecidos em prazos curtíssimos, variando de 6 a 24 horas.

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O serviço é condicionado ao pagamento de taxas que vão de R$ 39,90 a R$ 89,90, incluindo "opcionais" como áudios exclusivos da leitura do médium e taxas extras para "se reconectar com Deus". Para conferir uma falsa credibilidade, os sites utilizam fotos de terceiros sem autorização.

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O consultor e palestrante mineiro Arthur Bugre descobriu que sua imagem estava sendo usada sob o pseudônimo de "Médium Anderlino", supostamente com 12 anos de experiência.

"Entrei em contato solicitando a retirada imediata da minha imagem e das informações falsas. Não tenho qualquer relação com esse site ou com a venda de cartas, tampouco atuo como médium", ele desabafou. Caso semelhante ocorreu com a nutricionista Orleide Felix, apresentada nas plataformas como "Médium Dona Benta", que também já acionou as autoridades.

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Relatos de vítimas revelam crueldade

No portal Reclame Aqui, acumulam-se depoimentos de pessoas que, em busca de conforto, acabaram perdendo dinheiro e sofrendo um novo trauma emocional.

Uma usuária de Mogi das Cruzes (SP) relatou que o conteúdo recebido era claramente automatizado: "Recebi após quatro dias a carta, porém ela era feita com inteligência artificial, isso me deixou destruída porque eu realmente acreditei que seria real".

Outra vítima, de Jaboticabal (SP), lamentou: "Usei meus últimos centavos para ter acesso a essa carta e não tive meu pedido entregue. Isso não se faz com quem está passando por essa vulnerabilidade".

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O esquema funciona através de um questionário detalhado que o usuário preenche sobre o falecido, incluindo causa da morte e trajetória de vida. Esses dados, segundo especialistas, servem de "alimento" para que golpistas ou ferramentas de IA gerem textos genéricos que simulam uma mensagem pessoal.

Bruna Tatieli Xavier, do Paraná, que buscava respostas sobre o assassinato do pai de seu filho, relatou que foi incentivada a pagar para "furar a fila" de uma suposta instituição, mas acabou bloqueada após pedir reembolso. "Quem está vivendo o luto e buscando respostas não tem clareza para enxergar os riscos de golpe", disse ela ao jornal.

O que dizem os especialistas

O advogado criminalista Jaime Fusco afirmou que o alerta de "entretenimento" exibido em letras miúdas nos sites não isenta os responsáveis: "Além de não os isentar de estelionato religioso, também os coloca na questão do crime contra o consumidor, que fala de informação adequada, clareza da oferta e publicidade enganosa".

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O especialista ressalta que as empresas que intermediam os pagamentos também podem ser interpeladas judicialmente por se beneficiarem das transações fraudulentas. Do ponto de vista doutrinário, a Federação Espírita Brasileira (FEB) é enfática ao condenar a prática. Carlos Campetti, vice-presidente da FEB, explica que a mediunidade deve ser exercida de forma gratuita e que a comunicação depende dos espíritos, não da vontade do médium ou de um pagamento.

Ele reforçou a máxima de Chico Xavier: "O telefone toca de lá para cá, não é daqui para lá. Quem toma iniciativa é a espiritualidade, não o médium. Não tem como encomendar carta". Enquanto sites faturam com a dor alheia, médiuns sérios continuam realizando o acolhimento de forma voluntária, sem prazos ou tabelas de preços.

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