Serviço expresso de bicicletaria atrai a atenção em São Vicente

O contêiner de bikes traz o clima do interior ao atender clientes em meio a galos, galinhas, cachorros e gatos

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11 FEV 2017Por Vanessa Pimentel10h30
No início, a bicicletaria atendia de forma precária, apenas com uma tenda montada e as ferramentas necessáriasNo início, a bicicletaria atendia de forma precária, apenas com uma tenda montada e as ferramentas necessáriasFoto: Matheus Tagé/DL

Uma imensa seringueira balança suas folhas levemente conforme o vento passa. Galos, galinhas e seus filhotes investigam a grama e se apressam quando ouvem passos humanos se aproximando. O sono dos cachorros é pesado – talvez pela hora, são duas da tarde, sesta do almoço.  As imagens lembram um pequeno sítio, mas longe disso, já que o local fica em um dos pontos mais movimentados de São Vicente, entre a Avenida Quintino Bocaiúva e a Prefeito José Monteiro.

Geraldo Celio da Silveira nasceu em Minas Gerais, foi para São Paulo para trabalhar e desembarcou em São Vicente para passear.  Apaixonou-se pela cidade e durante uma volta de bicicleta, percebeu que o ramo era promissor.

Na época, há mais de 10 anos, a malha cicloviária estava em expansão. “Fui dar uma volta e no meio do caminho precisei de um remendo no pneu, mas ninguém fazia, só trocavam a câmara de ar. Então pensei que oferecer esse serviço seria uma boa”, explica.

Geraldo aprendeu com o pai a consertar bicicletas e foi trabalhar na fábrica da Caloi, em São Paulo. Depois da passagem pela praia, decidiu pedir as contas no alto da serra e voltar para perto do mar.

O negócio começou de forma humilde, com uma caixa de ferramentas, uma bomba de ar e um guarda-sol ao lado de uma banca, em frente à Itararé, sempre em companhia das árvores do Morro do Voturuá. Com disposição e simpatia, foi fácil conquistar os clientes e segundo ele, na primeira semana de trabalho, conseguiu ganhar o que recebia em um mês na fábrica. “Aí eu pensei: eu tô no lugar certo”, comemora.

Ficou por ali durante alguns anos, mas com o início das obras do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), passou a atender em um trecho próximo ao supermercado Carrefour. A bicicletaria improvisada não era regularizada e nem tinha estrutura, a não ser uma tenda, as ferramentas necessárias e luzinhas de natal para chamar a atenção. “Fui autuado diversas vezes pelos fiscais da prefeitura, mas não tinha o que fazer, precisava trabalhar, então voltava no dia seguinte”.

Luta

De tanto enfrentar a Administração, Geraldo conseguiu legalizar o comércio, há cinco anos. Para melhorar a estrutura da oficina, ele comprou um contêiner que antigamente abrigava um bar bem próximo de onde ele montava a tenda e hoje já não se encontra mais em área irregular e trabalha em paz.

Além do estoque de mercadorias, o contêiner abriga um sofá, TV e até churrasqueira. Com o atendimento 24h e apenas um funcionário, a loja acabou se tornando uma extensão de sua casa.

Atualmente, cerca de 80 clientes contam com seus serviços expressos diariamente e ele ainda reclama: “É pouco! Tem muita bicicletaria, a clientela se divide. O meu diferencial é que atendo 24 horas, então socorro os trabalhadores da madrugada, da estiva ao padeiro”, conta.

Funcionário

Demétrio Nascimento dos Santos, 16 anos, começou a trabalhar há uma semana no local e diz estar gostando da experiência. “Eu gosto de bike e com tudo que estou aprendendo, quem sabe um dia, com fé em Deus, abro meu próprio negócio”, diz.

No momento ele é o único que divide o espaço com Geraldo, já que os filhos que trabalhavam com ele assumiram a segunda unidade do Ponto do Ciclista, no bairro do Japuí, também em São Vicente. “A Carol e o João são mecânicos desde crianças e agora estão aprendendo a administrar a outra unidade”, conta o pai orgulhoso, que afirma atender também quem está sem dinheiro, pois nessas situações quem lhe paga “é Deus”.

Transporte Sustentável

Enquanto a Reportagem conversava com o comerciante, era notável o intenso movimento de automóveis por ali. Questionado sobre como enxergava o futuro no ramo, já que a frota de carros não para, Geraldo foi otimista: “As gerações estão mais saudáveis. A pessoa que anda de bicicleta chega em casa alegre, sem o stress do trânsito. É o melhor negócio tanto para a saúde quanto para o trabalho e vai crescer muito ainda”, afirma convicto.

Cachorro, gato e galinha

Além de a loja chamar a atenção, os animais que o texto descreve lá no primeiro parágrafo são um detalhe a parte e isolam de certa forma o caos das grandes cidades. As galinhas foram presente de um amigo que tem criação, os oito cachorros foram abandonados, o gato fica de passagem. “Adoro aqui, acordo com o canto do galo”. “E o barulho do VLT?”, questiona a reportagem. “Acordo antes de o trem começar a trabalhar”, responde ­categórico.