‘Será uma experiência para a vida toda’, diz capitão do Corpo de Bombeiros

Neste Papo de Domingo, Marcos Palumbo recorda incêndio no terminal da Ultracargo, na Alemoa, e pede análise crítica da ocorrência

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18 ABR 201523h05

Aos 40 anos de idade, Marcos Palumbo possui experiência no Corpo de Bombeiros. Capitão e porta-voz da corporação, ele esteve em grandes ocorrências como o incêndio no Memorial da América Latina, em São Paulo, em novembro de 2013, e na queda do avião do candidato à presidência da República, Eduardo Campos (PSB), em agosto do ano passado, em Santos.

Entre os dias 2 e 10 deste mês, Palumbo esteve novamente em Santos. Desta vez, para auxiliar no combate ao incêndio no terminal da Ultracargo, da Alemoa.

As dificuldades enfrentadas pela corporação foram tantas que o porta-voz, em uma entrevista, chegou a classificar a ocorrência como “a operação mais difícil que a emergência do Estado de São Paulo já enfrentou”.

Neste Papo de Domingo, após o término do incêndio, Marcos Palumbo fala sobre as impressões da ocorrência, bastidores do combate ao fogo e pede uma análise crítica do trabalho para que haja melhorias no atendimento e na legislação. Confira:

Diário do Litoral - Qual foi a sua reação no primeiro momento em que chegou ao local do incêndio?

Marcos Palumbo -
A gente já sabia que a ocorrência era difícil. Bem na hora que eu cheguei teve a primeira explosão. Pensei que algo muito grande estava por acontecer. Nos preocupávamos se alguém tinha sido atingido, se estava ferido. Mas, a partir do momento que descobrimos que não havia ninguém ferido, pensamos na parte propriamente dita do bombeiro. Montar um posto de comando para ter as respostas quanto ao abastecimento de água, de LGE e outras coisas.

DL - Então, desde o primeiro momento se percebia que o incêndio poderia tomar a proporção que tomou?

Palumbo -
Sim. Eu desci a Serra e via toda a fumaça a quilômetros de distância. Não era uma coisa normal. Principalmente quando chegamos ali, vimos o dique de segurança que foi atingido com aqueles oito tanques. Você fala: “Meu Deus, estamos diante de uma grande emergência!”. Por isso que os bombeiros foram mobilizados em quase sua totalidade. Uma ocorrência muito difícil. Já sabíamos, na hora, que não era normal.

DL - Que fatores dificultaram mais as ações dos bombeiros durante esses oito dias?

Palumbo -
O fator principal foi a física. Você tinha uma alta temperatura, as problemáticas de não deixar que o fogo passasse para outro local, principalmente para outros tanques, que aí sim o problema seria muito maior. Vinha em mente imagens da internet de explosões, das décadas de 80 e 90 em indústrias nos Estados Unidos, que acabavam pegando fogo e explodiam por causa da grande quantidade de material combustível. Pensávamos em como conseguir apagar o fogo porque não conseguimos apagar ele propriamente dito, teria que ser por etapas. A estratégia foi se desenvolvendo para buscar água para resfriar outros tanques. Nos sentimos vitoriosos pelo fogo não se alastrar para o resto do parque. Aquele foi o ponto principal do incêndio, onde não podíamos errar. Se atingísse os outros tanques ficaria uma situação fora do controle, teríamos que sair do local por causa dos outros materiais.

DL - Quantos bombeiros participaram da ação?

Palumbo -
Nós tínhamos cerca 120 homens por dia, mas mais de mil bombeiros participaram da ocorrência. Eles vieram de Santos, de outras cidades da Baixada Santista, São Paulo, ABC, Mogi, interior do Estado como Bauru, Campinas. Tivemos uma atuação muito grande do Corpo do Bombeiros. Sabíamos que se cercássemos o fogo, uma hora ele ia ceder a ponto de apagar. O problema foi não ter condições de temperatura, que era muito alta, a água não conseguia atingir. Os meios necessários para você apagar, também não. Nós não tínhamos contato com o fogo diretamente. No último tanque, principalmente, enquanto não caiu a cobertura, a gente não conseguia fazer a extinção fogo. Após cair, você tinha a queima livre, mas também o contato da espuma com o combustível, que foi o que apagou o fogo.

‘É um sentimento que não tem como descrever’, afirmou Palumbo (Foto: Matheus Tagé/DL)

DL - Por duas vezes o fogo foi extinto, mas retornou. Era uma situação esperada pelos bombeiros?

Palumbo -
Era sim. Na segunda-feira nós fizemos o primeiro ataque, com o Líquido Gerador de Espuma normalmente. Quando apagamos o fogo, mas ele retornou 40 minutos depois, todos ficaram um pouco desanimados. Fomos buscar informações com diversos meios e o que aconteceu é que não estava queimando apenas gasolina, mas álcool também. O álcool é uma substância que quebra as moléculas da espuma. Então, ele acabou voltando naquela mesma hora. O álcool estava vazando pelas tubulações. Contemos o vazamento, fizemos o resfriamento adequado até o novo ataque, na quarta-feira, e o fogo voltou novamente. Até que na terceira vez, ele apagou definitivamente porque nós sabíamos de algumas reações que ele poderia ter, principalmente, nas partes dos diques, embaixo, que pegava fogo. Quando desenvolvemos toda essa estratégia, realizamos a contenção.

DL - Houve relatos de que bombeiros não queriam deixar o posto até conter o fogo, mesmo após o turno de 12 horas. Isso realmente aconteceu?

Palumbo -
Um bombeiro está acostumado a ir para a ocorrência e sair só quando resolve o problema. Não tinha um que saísse dali frustrado por não ter apagado o incêndio. Nosso sentimento de dever cumprido é chegar no local, apagar o incêndio, usar tudo que eu puder para isso, salvar vidas e deixar o local em segurança. Mas isso estava demorando. Nós, bombeiros, não entendemos isso. Não é o normal para nós. Pela operação toda, pela complexidade, víamos que etapas tinham que ser cumpridas para chegarmos ao objetivo. Mas, como bombeiro, você não quer deixar o local da ocorrência. Tiveram muitos casos. Principalmente, na frente 2, que era na parte interna. Era o pior fogo e os caras não queriam sair. Tudo por esse sentimento. Temos que resolver na hora, não dá para deixar para depois. É uma prática do bombeiro. É o instinto.

DL - Na quarta-feira pudemos observar os bombeiros em cima do tanque após o fogo ter sido apagado. Houve algum risco naquela situação?

Palumbo -
Existia um acompanhamento. Fizemos o combate com espuma e o coronel estava na escada, querendo saber onde a espuma estava caindo. Ali era um local onde tínhamos que jogar a espuma de forma cirúrgica, até para não desperdiçar material. Ele subiu para fazer a inspeção. Uma câmera térmica acompanhava a temperatura do tanque e o canhão da Petrobras fazia uma linha de proteção jogando água no fogo. Naquele momento, aqueles caras ali em cima jogaram 360 litros da cold fire. Mas não dava para acertar porque a estrutura do tanque estava aberta com alguns buracos, que não permitiam que se fizesse o combate. Voltou a pegar fogo no dique, começou aquecer novamente e era questão de tempo do fogo voltar. A câmera acusou o aumento da temperatura e os bombeiros deixaram o tanque.

DL - Qual lição que fica para o Corpo de Bombeiros?

Palumbo -
Com certeza, haverá necessidade de fazer uma avaliação crítica do trabalho para melhorar o atendimento numa solicitação próxima. É preciso melhorar a legislação e algumas coisas que possam contribuir num momento de uma emergência. De repente, no sistema porque o problema que teve ali foram as bombas dos próprios tanques que foram danificadas na explosão. Se tivesse algum sistema que pudesse ser alterado. Vamos pensar nisso. O que pode ser feito caso aconteça a quebra do sistema que é próprio para isso. Por exemplo, eu estava na ocorrência do Memorial da América Latina quando houve um curto-circuito que impediu que os equipamentos de prevenção e combate ao incêndio funcionassem. Todos os locais precisam ter um sistema de backup. É importante, tanto que o sistema continuou funcionando em outros tanques. Eles tinham anéis com furos que resfriavam os cilindros. Jogavam água constantemente. Cerca de 80 mil litros por minuto em cada anel. É preciso fazer uma avaliação crítica em como a gente pode adequar a legislação atual para prevenir um acidente como esse. É necessário estudar com uma série de órgãos para que se tenha possibilidade de melhorar um sistema de prevenção porque tudo acontece quando se tem uma falha nele.

DL - Como especialista, você acredita que houve demora por parte do Plano de Auxílio Mútuo (PAM)?

Palumbo -
Eu vi uma situação adequada para o que eles poderiam fazer ali. Tinha uma equipe do PAM pronta para atuar. Alguns equipamentos, como o LGE. Existia ali uma primeira resposta. O que eles podiam fazer, como retirar as pessoas, eles fizeram. Numa explosão daquelas, não teve uma pessoa ferida. Foram ligados todos os sistemas de proteção. Não achei que o PAM teve falha de ordem. Agora é preciso fazer uma avaliação e todos os órgãos irão realizar algo deste tipo.

DL - Como foi voltar para casa após oito dias de combate e, finalmente, com o término do fogo?

Palumbo -
Você via na cara de todos os bombeiros a cara de alívio. Depois de muita estratégia, de trabalho, de equipamento, de ações que não davam certo. Quando você está no caminho correto, você não deve abaixar a cabeça. A gente tem diversas ocorrências e todo dia o bombeiro tem o desafio de tentar resolver uma situação para proteger as pessoas, o meio-ambiente, um patrimônio. O que fica é o empenho, é a dedicação. É ir até o final. Vamos sair do local sem mão, sem bota, sem capacete, mas o incêndio será apagado. Qual sentimento de ter uma grande operação que dá certo? É o sentimento de vitória. A emoção não cabe dentro de nenhuma palavra. Eu tenho uma foto, do sábado, que o caminhão de bombeiros, que é grande, parece um caminhão de brinquedo perto da explosão. Mas tínhamos em mente que aquilo teria que ceder.

DL - Como foi para o senhor o final da ocorrência com a Canção do Bombeiro?

Palumbo -
Ainda bem que eu estava presente nela. Será uma experiência para a vida toda. Toda vez a gente faz um agradecimento final. Os caras cantavam e você via a veia do pescoço saltando para fora. É um sentimento que não tem como descrever.