Sem lupa digital, estudante enfrenta drama escolar em Santos

Apesar de reportagem do Diário do Litoral e do caso ter chegado à Assembleia Legislativa, governo estadual continua devendo respostas a adolescente

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21 MAR 201523h46

Há um ano, o Diário do Litoral publicou a história da garota Beatriz Santos Rodrigues, que tinha dificuldades em cursar o ensino médio na Cidade porque a rede estadual não possuia equipamentos e professores capazes de auxiliá-la em função de sua baixa visão congênita - ela possui apenas 5% da visão. Esta semana, a mãe da adolescente, Fernanda Rodrigues, voltou a denunciar que a estrutura educacional do Estado continua deficitária. O fornecimento de uma lupa digital é a esperança da garota ter um desempenho escolar melhor.

Atualmente, Beatriz estuda de forma precária na Escola Estadual Marquês de São Vicente, em Santos, depois de Fernanda ter desafiado a direção da unidade e insistido em matriculá-la.

“Desde o ano passado estou tentando uma professora auxiliar para a Beatriz. Já tive que parar de trabalhar por seis meses para ficar com ela dentro da sala de aula, pois minha filha estava com muita nota vermelha. O caso está no Ministério Público (MP) que ainda não me deu qualquer resposta positiva. Pior, me orientaram a entrar com uma ação judicial e foi isso que fiz”, afirma a mãe.

Fernanda informa que conseguiu uma cuidadora para acompanhar Beatriz na escola, mas a profissional tem que ficar fora da unidade. “Minha filha não precisa de auxílio para se locomover. Precisa de uma pessoa que leia as matérias para ela. Ela não enxerga a lousa e nem os livros”, explica. 

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Estudante e a mãe dizem que a estrutura oferecida pelo Estado é precária (Foto: Matheus Tagé/DL)

Lupa e nota alta

Segundo Fernanda, a situação de Beatriz poderia ser revertida se o Estado fornecesse uma lupa digital, que custa cerca de R$ 8 mil. Ela revela que a Diretoria Regional de Ensino chegou a comprar o equipamento, mas a lupa se mostrou total-mente ineficaz.

“O diretor de Ensino João Bosco me deu uma lupa já ultrapassada, adaptada a uma prancha, que no mercado custa, em média, R$ 400,00 e que não tem serventia para Beatriz. No entanto, me mostrou uma nota fiscal de compra de R$ 8,7 mil”, questiona, mostrando a nota com o modelo do equipamento impresso.

Nem Executivo, nem Legislativo

A Reportagem enviou à Diretoria Regional de Ensino uma série de questionamentos sobre a situação da adolescente, que já perdura um ano, causando transtorno à família. Até a última sexta-feira (20), prazo dado à Diretoria, nenhum deles foi respondido.

O problema enfrentado pela estudante Beatriz, que deve atingir outras adolescentes, chegou à Assembleia Legislativa, que também não conseguiu sensibilizar o Governo do Estado a resolver a questão.

Ano passado, a então deputada estadual Telma de Souza (PT) apresentou requerimento de informação à Secretaria de Estado da Educação. A ex-parlamentar queria saber qual o aparato material à disposição dos estudantes com deficiência física, auditiva, visual ou intelectual em todo o Estado, bem como o universo de estudantes, professores e auxiliares especializados, assim como as escolas onde estes alunos estão matriculados na Baixada Santista.

Também em 2014, o caso de Beatriz foi objeto de análise da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia. O deputado e membro da comissão Marco Aurélio de Souza (PT), que assim como Telma soube do caso por intermédio da reportagem, chegou a fazer um pronunciamento na tribuna da Casa.

“Essa situação ultrapassou a esfera do simples acesso à Educação e atinge diretamente os Direitos Humanos. Essa reportagem põe em evidência o tratamento dado pelo Estado a pessoas portadoras de necessidades especiais. E isso não é uma questão partidária, mas estritamente humana”, disse o deputado.

Desabafo

“A deficiência visual nunca me impediu de estudar ou de correr atrás dos meus sonhos. Mas me deparei com um obstáculo. Nos últimos dias, vivi situações de revolta e me surpreendi com a falta de respeito e com a discriminação”. Foi assim que Beatriz expôs sua situação nas redes sociais e também como o DL a encontrou ano passado. A história dela não terminou.