Santos terá Comissão da Verdade

Dezenas de entidades e pessoas ligadas aos direitos humanos vão se reunir na quinta-feira, às 15 horas, na Câmara de Vereadores

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06 NOV 201210h16

Os crimes cometidos em Santos e região durante o período da Ditadura Militar no Brasil, bem como, seus principais atores e articuladores, começarão a ser discutidos a partir da próxima quinta-feira (08), às 15 horas, na Câmara de Vereadores de Santos – Praça Tenente Mauro Batista de Miranda, 01, na Vila Nova (Castelinho), quando ocorrerá a primeira reunião oficial para a formação da Comissão Municipal da Verdade de Santos.

Articulada por várias entidades e pessoas ligadas à Comissão Nacional de Direitos Humanos, a comissão, que será definida em uma audiência pública posterior ao encontro desta quinta-feira, deverá iniciar um amplo trabalho de pesquisa com relação às mortes, o paradeiro dos corpos dos presos políticos, e, principalmente, os nomes dos responsáveis pelos assassinatos na Baixada Santista.
 
“A população de Santos tem que saber quem foram seus torturadores. Não podemos esquecer esse período macabro de nossa história recente e alertar os jovens para que isso jamais aconteça”, revela um dos coordenadores do Centro de Direitos Humanos da Baixada Santista – Irmã Maria Dolores, Francisco Assis Calazans.

Calazans acredita que a impunidade e o anonimato garantidos aos torturadores não garantiram justiça no País. “Alguns, inclusive, recebem aposentadoria especial, como é o caso do coronel Ustra e tantos outros militares, muitos vivendo na região”, afirma o coordenador.
 
Vale a pena lembrar que o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra , também conhecido pelo codinome de Dr. Tibiriçá, foi chefe entre 1970 a 1974 do DOI-CODI do II Exército, um dos órgãos atuantes na repressão política, durante o período da ditadura militar no Brasil (1964-1985). Em 2008, Ustra se tornou o primeiro militar a ser reconhecido, pela Justiça, como torturador durante a ditadura.
 
Francisco Assis Calazans acredita que a impunidade e o anonimato garantidos aos torturadores não garantiram justiça no País (Foto: Matheus Tagé/DL)
 
O coordenador revela que em outros países da América do Sul, como Uruguai e Argentina, os torturadores estão sendo julgados e condenados. “O Brasil precisa seguir esse exemplo e colocar o dedo na ferida. Santos foi muito castigada pela Ditadura por ser um dos pilares da resistência. Acredito que todos lembram do navio presídio Raul Soares. São Paulo (Capital) já instituiu sua comissão municipal e vamos fazer o mesmo aqui”, garante.
 
A presidente do Centro, Graça Maria Costa da Silva, acrescenta que a Comissão Nacional da Verdade foi o pontapé inicial para a instalação das comissões em âmbitos municipais. “São Paulo (Capital) e Campinas já possuem suas comissões instaladas. Já fizemos uma primeira reunião com diversas entidades, ex-presos políticos e familiares de vítimas da tortura. Também estamos providenciando a exumação do corpo do Bacuri (Eduardo Leite Bacuri).
 
Bacuri foi o prisioneiro que permaneceu mais tempo sob tortura ininterrupta da ditadura militar – foram intermináveis 109 dias de sofrimento antes de sua execução, tudo comandado pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, torturador obstinado e com um histórico de morte de prisioneiros sob seus ombros. 
 
Símbolo da linha-dura do regime militar, o delegado Fleury – titular da Delegacia de Investigações Criminais (DEIC) de São Paulo – morreu após escorregar do passadiço de sua lancha Adriana I, na madrugada de 1º de maio de 1979, no ancoradouro de Ilhabela, litoral paulista e cair no mar.
 
Porém, segundo Cláudio Antônio Guerra, ex-delegado do Departamento de Operações Políticas e Sociais (DOPS) do Espírito Santo, ele teria sido assassinado por ordem de um grupo de militares e de policiais rebelados contra o processo de abertura política iniciado pelo ex-presidente Ernesto Geisel. A história foi contada em seu livro, “Memórias de uma guerra suja”.
 
Dia dos Direitos Humanos
 
Calazans e Graça Maria adiantam que em comemoração ao Dia Internacional da Declaração Universal dos Direitos Humanos será realizado, entre os dias 22 e 24 próximos, no Campus de Santos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) – Avenida Silva Jardim, 336 – a Semana Direito à Memória, Verdade, Ditadura Nunca Mais.
 
Serão realizadas oficinas, sessões de cinema dialogadas e atividades culturais, além de uma exposição itinerante, que permanecerá no local até 10 de dezembro. A titular da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, ministra Maria do Rosário Nunes, foi uma das autoridades convidadas.