“A gente podia colocar uma minhoca no anzol, jogar no riacho e esperar até um peixe morder a isca. Eram bons tempos”. Não, essa não é uma daquelas lembranças de homens e mulheres da terceira idade que se recordam da vida simples que tinham no interior paulista. Essa é uma memória de uma pessoa que passou a vida inteira em Santos e se lembra com saudade de uma época que agora só existe em reminiscências.
As lembranças são diretamente das décadas de 50 e 60. Desde então, já se passaram quase 70 anos, mas o aposentado e também dono de comércio Nivaldo da Silva Pinto ainda viaja em seu imaginário ao ser perguntado sobre os anos de sua infância e juventude. Hoje prestes a completar os 77 anos de idade, o santista ainda se lembra bem de como a Zona Noroeste e o Centro de Santos eram em uma época que hoje é associada a filmes em preto e branco.
“Hoje em dia todo mundo teve que erguer seus muros e colocar grades. Antigamente a gente só precisava esticar os pescoços pra poder falar com o vizinho e às vezes até éramos recebidos com pedaços de bolo no meio da tarde. Infelizmente a gente hoje vive em um tempo em que precisamos nos fortificar. Eu mesmo to na minha loja agora e estou ‘preso’ de certa forma”.
O comerciante instalou grades altas em seu estabelecimento após ser alvo de assaltantes e agora atende os clientes através delas, mas revela sentir falta dos tempos em que todos os comércios deixavam suas entradas abertas e tudo que era necessário para ser atendido era entrar pela porta e conversar com o dono.
“Santos piorou em alguns sentidos, eu costumava pegar siri e caranguejos no Rio São Jorge, e nos outros rios que ficavam aqui pela região. O canal da Jovino de Melo mesmo era um riacho antigamente e a gente colocava minhoca em um anzol e ficávamos pescando os peixes que queríamos porque as águas eram tão límpidas que a gente conseguir enxergar de longe”.
A infância de Nivaldo foi vivida na região dos bairros Jardim Castelo, Vila São Jorge e Bom Retiro onde ele afirma que as ruas de barro não eram grande incômodo e os bondes era pontuais o suficiente para poder levar qualquer pessoa até o Centro de Santos onde a vida noturna possuía opções para todos os gostos.
“O velho Centro de Santos era 24 horas por dia, eu mesmo trabalhava no bar Águia de Ouro que ficava ali na João Pessoa com a Brás Cubas e eu pegava às 18h e largava às 6h. E quando eu saía do trabalho poderia ir tranquilamente para outros locais. A General Câmara era repleta de boates e restaurantes de uma ponta à outra. A gente era até amigo dos donos, mas infelizmente hoje em dia está tudo emparedado. Eu fui lá para bater umas fotos da rua, mas não tem mais nada de pé”.
Em seu celular, ele ainda guarda fotos tiradas na década de 60 e 70 de bares e clubes que ainda se anunciavam como ‘boites’ com shows ao vivo.
“Muitas vezes, quando eu ainda dirigia o caminhão que eu tinha, eu parava ele próximo a algum bar e aguardava o cais abrir enquanto comia algo e ouvia música ao vivo. Até mesmo nos tempos de estiva era tudo um pouco mais fácil. Era possível arranjar emprego no cais sem muita burocracia, o trabalho era bastante rudimentar, mas ninguém ficava sem um dinheiro e movimentava o comércio”, explica.
Apesar destes problemas, Nivaldo diz que o transporte público e as praias de Santos melhoraram muito com o passar dos anos, mas ele diz ter receio que o envelhecimento da cidade afaste a juventude mais rápido do município.
“Existe colocação, mas vem muita gente de fora, gente selada, apadrinhada e isso faz com que a competição pro jovem de Santos que está estudando seja desonesta. Era mais fácil arranjar emprego antigamente porque a população era menor e as oportunidades eram muitas. Tudo era menos mecanizado”.
As imagens de choperias e bares antigos que viviam lotados no Centro de Santos ainda seguem nítidas nas lembranças do aposentado, que lamentou o fechamento mais recente do restaurante Jamblam, na Praça Mauá.
E apesar de ter rodado por toda a cidade por quase oito décadas, foram sem dúvidas os bairros da Zona Noroeste que deixaram mais lembranças na memória de Nivaldo.
“A gente brincava na rua, empinava pipa, jogava futebol e até lançávamos aqueles balões pequenos que caíam rápido. Aqui antigamente a gente chamava de liberdade, quem não sente falta dos anos 60 e 70? A gente brincava e era tudo na confiança havia muito respeito entre pai, filho e todo mundo que se via na rua”.
CAFÉ
Já a irmã dele, a também aposentada Nilde da Silva, gosta de se lembrar dos armazéns de café no Centro de Santos onde ela ajudava a mãe a separar os grãos ainda durante a década de 1940.
“Eles nos traziam sacas às vezes com mais de 10kg de grãos de café e nós separávamos todos e de lá eles seguiam para os navios antes de ir para a Europa. É uma lembrança de um tempo muito difícil, mas muito bom e mais simples, que não esqueço jamais”.
