‘Santos ainda não está preparada para eventos extremos’, garante urbanista

'A questão é que não tiram os planos do papel. A prefeitura não enfrenta questões fundamentais', afirma José Marques Carriço

Pela segunda vez, buraco se formou no entorno da obra da Construtora Patriani, após as fortes chuvas que atinigiram a cidade

Pela segunda vez, buraco se formou no entorno da obra da Construtora Patriani, após as fortes chuvas que atinigiram a cidade | Reprodução

“A cidade ainda não está preparada para enfrentar eventos extremos, a despeito de ter um Plano Municipal de Mudança do Clima desde 2016 e um Plano de Ação Climática, que detalha o primeiro, desde 2022. A questão é que não tiram os planos do papel. A Prefeitura não enfrenta questões fundamentais”.

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A opinião é do arquiteto urbanista e ex-funcionário público José Marques Carriço. Professor universitário, Carriço refere-se aos alagamentos generalizados na cidade e, em especial, a eventos como o que ocorreu no último dia 18, no entorno da obra da Construtora Patriani, no prédio que está sendo erguido na Rua Carlos Afonseca com a Rua Galeão Carvalhal, no Gonzaga, quando o as fortes chuvas geraram solapamento na calçada, causando inúmeros riscos.

É a segunda vez que isso ocorre no entorno do futuro residencial. Na primeira, um carro quase foi engolido pela cratera que se abriu destruindo a calçada e parte da rua. No recente, um poste também foi atingido gerando falta de energia em prédios ao redor. Esse trecho do Gonzaga é sempre um dos mais prejudicados quando ocorrem chuvas torrenciais.

No edifício Ibicaba, por exemplo, que fica em frente à obra, dois elevadores ficaram horas parados porque a água invadiu os poços – espaço localizado abaixo da primeira parada do elevador, que contém equipamentos importantes para o seu funcionamento. O prédio teve que alugar um gerador por conta da falta de energia. “Gastamos R$ 6.800,00 por 12 horas de uso do gerador”, informou a síndica Cristiane Aparecida de Toledo.

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Diversos pontos de Santos passaram pela mesma situação e prejuízos. “Depois do caos que se instalou na Cidade, é preciso discutir e tornar públicas as verdadeiras causas do que vem acontecendo. Além da falta de colocar em prática os excelentes planos que o município tem, por exemplo, não temos um plano global de drenagem urbana e outros planos que deveriam se articular com a questão da mudança do clima”, continua Carriço.

O arquiteto explica ainda que na revisão do plano diretor de 2018, conseguiu-se colocar um artigo na Lei de Uso e Ocupação do Solo na Área Insular, Lei Complementar 1006/2018, condicionando execução de subsolo em áreas suscetíveis a alagamentos à análise das autoridades competentes.

“Em 2022, infelizmente revogaram o artigo por pressão política do mercado imobiliário. Na esquina onde está a obra da Patriani, até o Restaurante São Paulo foi inundado e isso pode acontecer em outras áreas”.

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Carriço complementa que o artigo revogado suprimiu a possibilidade de controle da execução de subsolos em áreas alagáveis. “A Câmara e a Prefeitura tem responsabilidades sobre o ocorrido. E a população é a menos culpada pelo que ocorre, pois o aquecimento global vai muito além das questões locais”.

Para o arquiteto urbanista, “os municípios precisam se adaptar à nova realidade e ter estratégias efetivas para dar respostas a ela. Por exemplo, não adianta culpar o lixo na rua, pois não é o suposto entupimento de bocas de lobo a causa estrutural do que vem ocorrendo. O problema é muito maior e as respostas da Prefeitura são muito lentas”, aponta.

Câmara de Santos

O Legislativo parece estar querendo se redimir. Esta semana, o vereador Chico Nogueira (PT) conseguiu aprovar um projeto de lei que cria o Fundo Especial e o Conselho Municipal de Combate a Emergências e Calamidades Públicas. A proposta depende da assinatura do prefeito Rogério Santos (Republicanos).    

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O fundo seria utilizado para reduzir a possibilidade de desastres e de situações potencialmente emergenciais, na preparação para situações emergenciais e de desastres, na capacitando o órgão responsável pela Defesa Civil Municipal e os demais envolvidos, e para rápidas respostas aos desastres.

Também na reconstrução de áreas e na construção e reconstrução de imóveis e infraestrutura, para fomentar o desenvolvimento científico e tecnológico no combate a situações emergenciais e calamitosas.

O vereador Sérgio Santana (PL) usou as redes para alertar que é fundamental a implementação de um plano de contingência eficaz para enfrentar eventos climáticos extremos. Ele acredita que o sistema de drenagem de Santos, há tempos, demonstra incapacidade de suportar chuvas intensas, resultando em alagamentos em áreas anteriormente não afetadas.

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“É imprescindível que haja um programa de reestruturação desse sistema, considerando soluções modernas, como sistemas de drenagem sustentáveis e reservatórios de contenção. A revisão e modernização desse plano são urgentes para mitigar os impactos das enchentes, garantindo a segurança da população e prevenindo riscos à saúde pública. Medidas preventivas e investimentos estruturais devem ser prioridades para evitar danos cada vez mais recorrentes e assegurar a qualidade de vida dos munícipes. A cidade não está preparada para enfrentar essas situações de forma eficiente”.

Prefeitura de Santos

Leia, na íntegra, a resposta da Prefeitura de Santos:

Nenhuma cidade no mundo está pronta para os efeitos extremos das mudanças climáticas. Municípios em todo o mundo não têm redes de drenagem com capacidade suficiente para absorver grandes volumes pluviométricos concentrados e isolados como os registrados na noite da última terça-feira (18). O papel do poder público e sociedade é unir esforços para tornar Santos uma cidade cada vez mais resiliente – desafio em que o Município vem se destacando com ações inovadoras.

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Santos é referência no enfrentamento dos impactos causados pelas mudanças climáticas. O Plano de Ação Climática de Santos (PACS) – pioneiro no país – foi apresentado pelo Governo do Estado de SP como exemplos de enfrentamento das mudanças climáticas durante a Conferência das Nações Unidas (COP26), em Glasgow , na Escócia. Santos também foi a primeira cidade brasileira a criar um grupo técnico de trabalho para mudanças climáticas, o que acarretou, inclusive, no PACS, que prevê metas de curto, médio e longo prazos.

Entre as ações já executadas, Santos inaugurou, em maio de 2023, a primeira Estação Elevatória com Comportas (EEC7) construída no final da Avenida Haroldo de Camargo (bairro Castelo). Quando acionada, beneficia vias dos bairros Castelo e Areia Branca, na Zona Noroeste (ZN) em Santos, além do Jardim Guassu, em São Vicente. O sistema tem como objetivo conter alagamentos, com chuva forte ou fraca associada à maré alta ou baixa nesta região da ZN – região sujeita a alagamentos.

Trechos da ZN alagam porque a maior parte desta região se encontra abaixo do nível das marés mais altas. Para resolver essas questões, a Prefeitura está executando um conjunto de ações por meio do Programa Santos Novos Tempos e do Programa Nova Entrada de Santos, que já garantiu a substituição das tubulações por estruturas maiores, desobstrução e limpeza regular do sistema, solucionando parte dos problemas causados por enchentes nesta área.

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Porém, o fim dos históricos alagamentos em trechos do entorno da Entrada da Cidade ainda depende de investimentos por parte do Estado (estação de bombeamento na área do Assai) e da União (pontilhão em área federal – aduelas de grande porte sob as linhas férreas da MRS Logística S/A).

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A Cidade também já garantiu financiamento para outras quatro estações elevatórias, por meio do programa Santos Mais, o maior empréstimo da história de Santos, no valor de US$ 105 milhões (R$ 574 milhões), formalizado em outubro de 2024 entre a Prefeitura e o CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe).

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O programa prevê investimentos em obras de drenagem, soluções habitacionais, mobilidade, inovação e tecnologia. Estão programadas a construção de quatro estações elevatórias com comportas (EEC) nos bairros Bom Retiro/Santa Maria (EEC2), Rádio Clube (EEC4), Saboó (EEC6) e Chico de Paula (EEC9).

Também será realizado o desassoreamento de um trecho de 2,5 km do Rio dos Bugres. Mais informações: https://www.santos.sp.gov.br/?q=noticia/conheca-as-grandes-obras-que-santos-realiza-contra-alagamentos-na-zona-noroeste

Luos: não procede a informação de que fora revogado da Luos o artigo que condiciona execução de subsolo em áreas suscetíveis a alagamentos à análise das autoridades competentes. O conteúdo do artigo nº 54 da Luos de 2018 foi totalmente garantido na Luos de 2022, no artigo 164, que determina:

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Nas áreas suscetíveis a ressacas e inundações de acordo com o Anexo Único do Plano Municipal de Contingência para Ressacas e Inundações e no entorno dos canais fluviais e de drenagem, os projetos que propuserem a ocupação de subsolo serão aprovados somente mediante projeto de minimização do risco de inundações e enchentes no lote.

§ 1º Os projetos serão analisados pelos órgãos responsáveis municipais competentes.

§ 2º As soluções deverão ser voltadas ao acréscimo de contribuição decorrente do rebaixamento de lençol freático de edificações dotadas de subsolos voltadas a compensar o acréscimo de contribuição da carga pluvial e voltadas a minimizar os efeitos das ressacas e maré alta.

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§ 3º Os lotes inseridos nas áreas indicadas no Anexo do Plano Municipal de Contingência para Ressacas e Inundações serão publicados em decreto.  

Verticalização: com o avanço dos municípios e maior adensamento populacional, especialmente em cidades metropolitanas (como é o caso de Santos), cada vez mais surge a pauta da verticalização e do melhor uso do espaço urbano. As cidades verticalizadas e densas proporcionam uma menor área de ocupação, o que proporciona menor tempo de deslocamento entre pontos, comércio mais próximo das residências e dos locais de trabalho, entre outros.

Elas também contribuem para preservação das áreas de proteção ambiental. Aqui em Santos, por exemplo, 70% do território é preservado por Lei, com previsão de ampliação desse percentual. Caso o município avançasse de forma horizontal e dispersa, haveria o risco de desmatamentos, maior uso de veículos e consequentemente de emissão de gases poluentes e outros danos ambientais.