Santista que registrou óleo na costa teme chegada nas praias da região

Bruna Veloso viajou até o Nordeste, onde registrou dificuldades da população e trabalhou como voluntária.

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23 NOV 2019Por LG Rodrigues10h26
Bruna registrou danos causados pelo óleo à fauna da costa litorânea do nordeste brasileiro durante os últimos meses.Foto: BRUNA VELOSO/ARQUIVO PESSOAL

Com a notícia da aproximação do vazamento de óleo às praias do sudeste, e a previsão do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) de que o material poderá chegar até mesmo às praias do Rio de Janeiro nas próximas semanas, fica o receio de que o litoral de São Paulo possa ser o próximo atingido. É o que uma fotógrafa de Santos que deixou a Região para auxiliar nos trabalhos de limpeza das praias no fim de outubro está torcendo para que não ocorra.

Bruna Veloso saiu de Santos para ir até as praias do nordeste na segunda semana de outubro, assim que as notícias do vazamento de óleo no nordeste se tornaram públicas. Semanas depois, por meio de seu núcleo de oceanografia e a partir de dados de ventos e correntes marítimas, o Inpe divulgou a informação do provável destino do óleo e a constatação de que ele está se movendo para o sul do Brasil.

Na segunda quinzena de outubro, a instituição afirmou que o óleo poderia chegar ao Espírito Santo e ao Rio de Janeiro. "O ponto é que existe mais óleo para vir e podemos mostrar onde está, antes que chegue às praias", de acordo com o que foi divulgado pelo jornal O Estado de São Paulo.

Receosos que o material pudesse atingir as praias de São Paulo, secretários de meio ambiente da Baixada Santista, representantes de órgãos federais e estaduais se reuniram na Capital no começo de novembro para definir estratégias de comunicação para eventuais sinais do aparecimento na região do óleo que contamina parte do litoral nordeste brasileiro. As prioridades foram definidas pelo grupo para facilitar a comunicação pela população. Reuniões anteriores foram realizadas pelo grupo, que criou um observatório costeiro para atuar no monitoramento e prevenção ambiental na Baixada Santista.

"Eu acho que como tudo na vida, a gente só tem noção dos fatos ou dos sentimentos quando acontece com a gente. É claro que a gente sente compaixão, afinidade com certos fatos que ocorrem, sejam positivos ou negativos, quando é no outro. Mas quando afeta diretamente a nós, o sentimento muda e tenho certeza de que se o óleo atingir as praias da nossa região a comoção vai ser muito maior e o grito por soluções e ajuda também vai ocorrer. Obviamente que você sente compaixão pelo próximo, mas só age quando atinge sua própria pele e infelizmente é o que acontece. A gente torce para que não chegue, mas tenho certeza que se as praias de São Paulo forem afetadas toda a população vai ter a mesma sensação dos moradores do nordeste", afirma.

A decisão de Bruna de deixar a Baixada Santista e rumar para o nordeste aconteceu após ela se sentir tocada com a situação vivida pelos moradores que tiveram suas praias invadidas pelo óleo e animais doentes que chegavam à faixa de areia.

"Todos os dias tomamos decisões. E essas decisões precisam ser compatíveis com a nossa essência, com aquilo que faz sentido para a nossa vida, como valores e crenças. Inclusive, o não fazer também é uma decisão. Na fotografia, de um modo geral, não poderia ser diferente. Escolhemos fotografar assuntos que tocam nossos corações e nos trazem algum tipo de identificação pessoal", afirma.

Uma vez que chegou aos municípios atingidos, Bruna se dividiu entre as atividades de fotógrafa, realizando todos os registros dos trabalhos de limpeza nas praias e de voluntária, onde se juntou à população nordestina.

"Na fotografia, existe uma linha muito tênue entre a razão e a emoção. Nosso maior ativismo está no ato de documentar para chamar a atenção de um fato, mas, ao mesmo tempo, somos seres humanos que, em algum momento, se envolvem na situação. É muito difícil ser apenas um expectador e não ajudar, dentro dos nossos limites. Nesse caso, guardar a câmera e entrar no mar para ajudar a puxar a rede para limpar os pedaços de petróleo da água foi instintivo. Quando vi, já estava lá dentro".

A fotógrafa já possuía contato com institutos ambientais e grupos de voluntários. Ela também criticou a demora do Governo Federal para reagir frente ao problema e destaca que ninguém que tomou a frente das autoridades o fez para adquirir algum tipo de notoriedade pessoal.

"Diante da inércia e silêncio dos governos e do setor de turismo, as pessoas se viram na obrigação moral de salvar sua fonte de vida. Não teve heroísmo. Teve atitude. Pessoas que escolheram encontrar soluções eficazes num dinamismo e força que eu jamais vi. Um povo que faz acontecer, mesmo sabendo dos danos para a saúde. Um povo que, por 50 dias, não teve auxílio de seus representantes até a televisão resolver filmar", diz.

De volta a Santos, Bruna diz não ter sofrido um choque de realidade por conhecer a verdade e afirma que a única diferença entre o litoral do Nordeste e o do Sudeste é o fato de que esta última ainda não foi atingida pelo óleo.

"O que me preocupa é se teremos agilidade e resposta dos governos municipais, estadual e federal, caso o óleo atinja as nossas praias. E, quanto as pessoas, eu tenho certeza que aqui no sudeste, os brasileiros teriam as mesmas garras. Somos o mesmo povo, temos o mesmo mar e precisamos fazer o que tem que ser feito. Antes de ir, olhei para o mar de Santos e pensei 'E se fosse aqui?'. Porém, o mar é um só, o povo é um só, então acredito que não há outro litoral", conclui.