Representatividade trans na arte é pauta para o Coletivo T

Idealizado pela santista Renata Carvalho, grupo usa diversas expressões artísticas para lutar contra o preconceito

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28 MAI 2017Por Rafaella Martinez10h50
A estreia do grupo, enquanto Coletivo T, aconteceu durante a Virada Cultural de São Paulo, na semana passada; proposta é criar um espetáculo produzido por pessoas transFoto: Divulgação

Quando a atriz Lua Lucas pisou em um espaço artístico para fazer uma performance coletiva ao lado de outros artistas, ela não esperava que também na arte fosse ser vítima de preconceitos. “Ali várias pessoas se colocaram de forma muito negativa em relação à minha participação, pelo simples motivo de eu ser trans. Usaram comentários, piadas... elas não conseguiam entender o motivo pelo qual eu estava ali, ocupando aquele espaço. Talvez tivessem um pouco de medo do novo”, relembra.

A história de Lua não é diferente de outros artistas trans no país que mais mata travestis e transexuais no mundo. Em 2016, foram mais de 347 mortes, sendo que muitos casos não são notificados. E se o estigma do preconceito repousa sobre esse grupo social, muitas vezes as portas das artes também se fecham. Para buscar representatividade e lutar por igualdade, o Coletivo T, encabeçado pela santista Renata Carvalho, surgiu para lutar contra o preconceito.

“Como uma pessoa de arte há 21 anos eu sei muito bem que o preconceito existe. A transfobia está enraizada na nossa sociedade e arte imita a vida. Não sabem como nos tratar, não sabem nos receber. Queremos falar para as pessoas que existimos e não somos doentes. Não existe só homem ou mulher e precisamos falar sobre isso. Queremos mostrar que o talento trans existe e que temos voz”, afirma a atriz e diretora Renata Carvalho.

O coletivo é formado integralmente por artistas trans: travestis, mulheres e homens trans e pessoas trans não binárias. A ideia central é trazer visibilidade e dar foco, por meio da arte, a essa população.

“Somos todos artistas, pessoas trans que querem buscar representatividade já que está tão em voga o assunto. Estamos sendo ouvidas e queremos agora protagonizar as nossas próprias histórias, tendo em vista que não temos tanta oportunidade”, complementa Lua.

O grupo artístico pretende trabalhar no lado lúdico da demanda, criando um espetáculo sobre a temática. A estreia enquanto coletivo aconteceu durante a Virada Cultural de São Paulo, onde foi apresentado um espetáculo de Cabaré Trans.

Artistas trans - cada um com seu trabalho e identidade – se apresentaram no palco Cabaré República, levantando o debate sobre as questões T. “Denunciamos a questão do nome social, os nossos corpos como objetos, a morte das travestis e o nosso direito de usar o banheiro, por exemplo”, pondera Renata.

“A gente vai existir e resistir nesses espaços. A política e arte não se diferenciam: vai ter travesti, vai ter homem trans, vai ter mulher trans em cima do palco sim. O Coletivo T será uma rede de fortalecimento para nossa causa. Ocupando esses espaços vamos encontrar raízes para tirar a nossa população da margem”, afirma Lua.

Na visão da assistente social e presidente do Centro de Apoio e Inclusão Social de Travestis e Transexuais (CAIS) Renata Peron, o objetivo central do grupo é conseguir, por meio do lado lúdico da militância, políticas públicas para o segmento.

“Cada uma de nós tem as próprias carreiras, mas percebemos que caminhamos bem sozinhas, mas juntas chegamos mais fortes. Nascido há 15 dias, o Coletivo T já tem uma criação cultural apresentada lindamente na Virada Cultural e a partir dessa ação percebemos que precisamos sim andar de mãos dadas”, conta a assistente social.

Para Renata Carvalho, para além da representatividade, o grupo luta também contra o preconceito. “Acreditamos que a transforbia só vai diminuir quando estivermos ocupando todos os espaços e a nossa presença for normalizada e humanizada. As pessoas precisam entender que visibilidade é dar visão; representatividade é estar presente. Quando uma travesti entra em um grupo do teatro muda a vida da travesti. Quando duas, três entram em um espaço artístico, muda o espaço artístico”, finaliza Renata.

O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, segundo pesquisa da organização não governamental (ONG) Transgender Europe (TGEU), rede europeia de organizações que apoiam os direitos da população transgênero.

Relatório sobre Violência Homofóbica no Brasil, publicado, em 2012, apontou o recebimento, pelo Disque 100, de 3.084 denúncias de violações relacionadas à população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros), envolvendo 4.851 vítimas. A média é de 27,34 violações de direitos humanos de caráter homofóbico por dia. Dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) apontam que  até o momento o Brasil já registrou 61 pessoas trans e travestis assassinadas em 2017.

Integrantes

• Renata Carvalho
• Verónica Valenttino
• Renata Peron
• Lua Lucas
• Leona Jovhs
• Wallace Ruy
• Leo Moreira Sá
• Dom Limo
• Caio Jade
• G Porto Pyrata
• Suzy Muniz
• Bruna Kury
• Etyelly Fernandes
• Danna Lisboa
• Daniela Glamour
• Amara moira
• Leonarda Glück