Reisado sergipano e a riqueza imaterial residente em Guarujá

TRADIÇÃO. Há 53 anos, grupo cultural mantém viva a tradição de celebrar com cantos, danças e cores o Dia de Reis

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19 FEV 2017Por Rafaella Martinez10h00
Há 53 anos, grupo cultural mantém viva a tradição de celebrar com cantos, danças e cores o Dia de ReisFoto: Rodrigo Montaldi/DL

A casa simples, localizada na entrada do Jardim Primavera, em Guarujá, guarda dentro de si, além de adereços e roupas típicas, tesouros imateriais da cultura popular. Foi no pequeno cômodo, há 53 anos, que o saudoso mestre Zacarias deu o compasso para que o Reisado, uma das mais populares manifestações culturais do Brasil, aportasse na Baixada Santista e com o seu colorido enriquecesse Guarujá de história.

Manifestação tradicional entre o Natal e o Dia de Reis, O Reisado chegou na cidade em 1964, trazido da pequena São Cristovão, cidade da região metropolitana de Aracajú. Foi lá que Zacarias conheceu e se encantou  com o cortejo de vestes coloridas que desfilava em comemoração ao nascimento do menino Jesus e em homenagem aos Reis Magos.

Em solo guarujaense, o Reisado de Zacarias ganhou novo formato e significado: o sapateado foi marcado pela referência indígena e as apresentações passaram a contar, além dos personagens tradicionais, com a presença de uma índia, uma baiana e uma cigana, representando a diversidade cultural da região.

E, em sintonia o mestre, também foi na infância, durante uma das apresentações do folguedo na escola, que o menino Edmilsom Epifânio Mendes decidiu trilhar os caminhos da cultura popular. O encantamento transcendeu os limites do Reisado: Edmilsom se apaixonou pela filha do mestre e se transformou em genro e sucessor do legado de Zacarias.

“Enquanto associação o Reisado Sergipano e Bumba Meu Boi do Guarujá existe desde 2007. Aqui nesse espaço (na sede) semeamos outras manifestações típicas da cultura popular e também nos preocupamos em trazer as crianças da comunidade para que elas aprendam a arte e descubram que podem conhecer um mundo novo a partir dela”, enfatiza o mestre, sentando em frente ao tradicional boi do festejo.

De origem ibérica, o Reisado se instalou em Sergipe no período colonial.  Formado por dois cordões que disputam a simpatia da plateia, o folguedo tem como personagens centrais o Caboclo ou Mateus e a Dona Deusa ou Dona do Baile. Também se destaca a figura do Boi, cuja aparição representa o ponto alto da dança. O festejo acontece em sintonia com um grupo que toca violão, sanfona, pandeiro, zabumba, triângulo e ganzá.

Figura artesanal, confeccionada com paetês, tecidos e lantejoulas, o símbolo do festejo de Bumba Meu Boi foi um dos únicos que sobreviveu intacto após um incêndio de grandes proporções no galpão do grupo, em dezembro de 2015. O sinistro, que teve início na fiação de um ventilador, destruiu fantasias, documentos e parte da estrutura do projeto, mas não foi capaz de fazer o legado popular fraquejar.

“Eu penso que tudo acontece por um motivo. Claro que perdemos muitos itens importantes, mas o boi, que tem 35 anos, não queimou. Foi um susto para que seguíssemos fortes no nosso propósito”, elenca.

Além do grupo tradicional, composto por 46 pessoas, o Reisado Sergipano e Bumba Meu Boi de Guarujá conta também com a participação de crianças, que compõem o reisado mirim.

Sem apoio, aulas são suspensas

Há dois anos sem convênio com a Administração Municipal, o grupo precisou limitar as apresentações e oficinas ministradas na sede. Das 232 crianças e adolescentes que anteriormente frequentavam o espaço nas aulas de capoeira apenas 20 continuam, graças ao apoio de uma professora voluntária.

Questionada sobre a parceria, a atual Administração afirma que os convênios com as entidades foram encerrados na gestão anterior por conta da verba destinada às entidades ter sido reduzida.

Afirma ainda que busca meios de restaurar também a sede do grupo. “Porém é um procedimento moroso, para o qual não serão medidos esforços”, ressalta a nota da Administração.

Grupo luta por registro de legado

O Reisado Sergipano e Bumba Meu Boi de Guarujá foi considerado em 2012, de acordo com estudos da Universidade Santa Cecília, como uma das manifestações culturais passíveis de entrarem num processo público para o seu futuro registro e salvaguarda, como patrimônio imaterial no Iphan. No entanto, o processo para que isso ocorra depende do interesse do município.

Em nota, a Prefeitura afirma que desde o primeiro dia da gestão, a Secretaria de Cultura está ciente e dando atendimento ao Reisado Sergipano, e esclarece que está providenciando a regularização dos subsídios à entidade. “Nestes primeiros meses, já foram promovidos dois encontros com o representante da unidade, para que seja elaborado um projeto para que o Município reconheça o Reisado Sergipano como patrimônio imaterial, o que é inegável”, esclarece  o secretário Paulo Fiorotto.

Ele ressalta ainda que apenas o reconhecimento da Universidade não é o suficiente para que a entidade tenha a atenção destacada no orçamento. “Precisamos que o Município reconheça e no que depender de nosso empenho isso deve acontecer o mais rápido possível”, afirma Fiorotto.

É considerado como Patrimônio Cultural Imaterial ou Intangível as expressões de vida e tradições que comunidades, grupos e indivíduos em todas as partes do mundo recebem de seus ancestrais e passam seus conhecimentos a seus descendentes.