Recuperação de golfinho surpreende comunidade veterinária

Francis é o primeiro golfinho em tratamento a sobreviver por mais de dois meses em cativeiro

Comentar
Compartilhar
13 MAR 201321h10

Ele foi encontrado agonizando em uma praia de Mongaguá, no litoral sul da Baixada Santista, no dia 21 de janeiro. Resgatado pela ong Grupo de Resgate de Mamíferos Marinhos (Gremare), o golfinho Francis, como é carinhosamente chamado, foi desenganado e deram-lhe apenas 15 dias de vida, em cativeiro. Mas, o bebê, de apenas cinco meses, luta para vencer a morte, surpreendendo à comunidade veterinária e da biologia marinha.

Francis é macho e está com 82,5 cm. O golfinho está em processo de reabilitação, no Acqua Mundo, em Guarujá, desde que foi resgatado. “Ele é o primeiro golfinho a sobreviver por este tempo em tratamento no mundo”, disse a consultora de mamíferos marinhos, Rosana Rodrigues de Souza. Especialista em fauna marinha, Rosana soma 28 anos de carreira e cursa o último ano de medicina veterinária. “Um outro filhote de golfinho, encontrado em Ubatuba (litoral norte), uma semana antes de Francis, não sobreviveu”, afirmou Rosana.

Francis apresentava quadro de pneumonia, fraqueza e estresse quando foi encontrado, mas apesar do tratamento intensivo, seu estado ainda é crítico, conforme alertou a veterinária e bióloga Pryscilla Maracini. “Ele tem altos e baixos. Já teve algumas infecções devido à baixa resistência”, afirmou.

Com tratamento à base de antibióticos e alimentação adequada, Francis é monitorado 24 horas. Ele se alimenta oito vezes por dia. Na dieta, leite sem lactose, vitaminas e óleos de peixes.

Golfinhos mamam até um ano de idade e necessitam de leite, principalmente nos primeiros seis meses de vida para fortalecer o sistema imunológico. O pequeno guerreiro, desgarrado da mãe muito cedo ganhou duas mães adotivas. Rosana e Pryscilla (que o batizou) acompanham dia a dia a evolução do filhote. “Ele já está conosco há 68 dias (quinta-feira, 30)”, exclamaram as duas, sorrindo por vê-lo vivo mais um dia.

A recuperação de Francis é um desafio para Rosana e Pryscilla, pois é a primeira vez que uma equipe especializada pode acompanhar e estudar um mamífero dessa espécie, vivo. Francis é da espécie Pontoporia blainvillei, conhecida no Brasil, como Toninha ou Franciscana. Mamífero típico dos trópicos, vive na região costeira entre a Argentina e o Estado do Espírito Santo, e está ameaçado de extinção. “Por ser um animal tímido, com hábitos noturnos e subaquáticos, diferente de outras espécies de golfinhos que brincam e dão saltos sobre a água, o que sabíamos sobre o pontoporia era o que dizia a literatura”, declarou Rosana que atuou a maior parte de sua carreira em Portugal e na Espanha. “Eles são dóceis, mas podem se tornar agressivos quando se sentem ameaçados”, disse Rosana.

“É comum encontrar esses golfinhos nas praias da Região durante o período de reprodução que vai de novembro a janeiro”, complementou Pryscilla. Segundo a veterinária, a recuperação de Francis dependerá da resposta ao tratamento, mas o processo de reabilitação é demorado. “Ele pode estar recuperado e pronto para retornar ao seu habitat, com mais de um ano de idade”, explicou Pryscilla. Porém, de acordo com Rosana, a soltura de Francis vai depender do quadro de saúde dele e de sua preparação para poder sobreviver em mar aberto.

Pelas normas do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), os cetácios não podem ser mantidos em cativeiro. Caberá ao instituto decidir o destino de Francis.

Gremare

Se alguém encontrar um animal marinho ferido na praia pode informar a ong Gremare. Telefones: 9702.4787 e 9721-0343, ou pelo email [email protected]