O avanço de rachaduras na Geleira do Apocalipse (Thwaites), na Antártida, indica uma ruptura iminente, colocando cientistas em alerta e ameaçando com inundações o litoral de São Paulo Para os moradores da região, o fenômeno deixa de ser uma notícia distante e passa a representar uma ameaça real à infraestrutura urbana e à própria sobrevivência das praias nas próximas décadas. As informações são do International Thwaites Glacier Collaboration (ITGC).
A barreira natural que está prestes a sumir
A grande preocupação dos glaciologistas do consórcio internacional que estuda a região envolve a Plataforma de Gelo Oriental de Thwaites. Essa gigantesca massa flutuante funciona como um freio que desacelera o fluxo do gelo continental em direção ao mar.
No entanto, imagens recentes de satélite revelam que correntes marinhas profundas de água quente estão penetrando por baixo da geleira. Esse processo derrete a base de gelo que prende a estrutura ao solo submarino, fazendo com que ela perca sua capacidade de sustentação.
De acordo com os cientistas, a velocidade com que essa plataforma se move em direção ao oceano triplicou nos últimos anos. Sem essa barreira protetora, o escoamento do gelo continental deve acelerar de forma irreversível, elevando o nível global dos oceanos em cerca de 65 centímetros de maneira direta.

O reflexo direto nas praias da Baixada Santista
Embora o colapso total da geleira seja um processo gradual, os efeitos colaterais começam a ser sentidos muito antes do desaparecimento completo do gelo. Na Baixada Santista, que já convive com ressacas severas e erosão costeira crônica, qualquer elevação milimétrica no nível médio do mar potencializa o poder destrutivo das marés astronômicas.
Estudos desenvolvidos pelo Instituto Oceanográfico da USP apontam a Baixada Santista como uma das áreas mais vulneráveis do Brasil aos efeitos das mudanças climáticas. A combinação de praias urbanizadas com uma planície costeira muito baixa facilita a invasão da água salgada em dias de tempestade.
Bairros como a Ponta da Praia, em Santos, e a orla do Gonzaguinha, em São Vicente, já sofrem com inundações recorrentes que danificam o asfalto e invadem garagens de edifícios.
Com a aceleração do degelo na Antártida, essas ocorrências, que antes eram registradas poucas vezes ao ano, tendem a se tornar parte da rotina semanal dos moradores.

Engenharia costeira e planos de adaptação
Diante desse cenário desafiador, as prefeituras da região buscam alternativas para blindar a costa contra a força das ondas. Santos desponta como pioneira ao implementar projetos de adaptação climática, como a instalação de barreiras submarinas feitas com sacos de areia gigantes na Ponta da Praia para conter a força das ressacas.
Contudo, especialistas alertam que as medidas paliativas precisam dar lugar a um planejamento de longo prazo muito mais robusto. Isso inclui a revisão das leis de zoneamento urbano, o fortalecimento das defesas naturais, como os manguezais, e o desenvolvimento de sistemas de drenagem capazes de escoar a água da chuva mesmo em dias de maré cheia.
A mensagem da comunidade científica é clara: o termômetro do futuro da Baixada Santista está instalado no extremo sul do planeta. Acompanhar a evolução das rachaduras na Geleira do Apocalipse não é mais apenas uma curiosidade acadêmica, mas sim uma ferramenta vital para antecipar as obras de engenharia que salvarão as cidades litorâneas paulistas do avanço inevitável do Atlântico.
*Fontes de pesquisa: International Thwaites Glacier Collaboration (ITGC), British Antarctic Survey (BAS), Instituto Oceanográfico da USP e Plano de Adaptação Climática do Município de Santos.
