A referência a Lampião, no entanto, despertou curiosidade sobre a personalidade histórica / Marcelo Camargo/Agência BR / Domínio Público
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou uma figura emblemática da história nordestina para projetar sua relação com o presidente norte-americano Donald Trump. Durante evento no Instituto Butantan, nesta segunda-feira (9), Lula brincou que, se o republicano conhecesse a "sanguinidade de Lampião em um presidente", não faria provocações ao Brasil.
A fala ocorre em meio aos preparativos para a viagem oficial do petista a Washington, prevista para março, após um histórico de aproximação e "química" entre os dois líderes em reuniões internacionais recentes.
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Lula reforçou que não busca um confronto com a potência norte-americana, mas fez questão de destacar sua postura "teimosa e tinhosa" nas negociações. O presidente defende que o Brasil deve mostrar ao mundo a relevância do multilateralismo, combatendo a ideia de que o mais forte pode tudo contra o mais fraco.
A referência a Lampião, no entanto, despertou curiosidade sobre a personalidade histórica que o chefe do Executivo evocou para se posicionar frente ao líder da Casa Branca.
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Virgulino Ferreira da Silva, popularmente conhecido como Lampião, foi o líder mais famoso do cangaço no Nordeste entre as décadas de 1920 e 1930. Nascido em Serra Talhada, Pernambuco, ele ingressou na vida nômade e armada em 1919, após uma disputa familiar que resultou na morte de seu pai.
Comandando bandos de até 100 homens, ele percorreu o sertão desafiando o poder de coronéis e da polícia paramilitar, tornando-se uma figura complexa que oscila entre o bandido sanguinário e o mito de resistência popular.
Ao lado de sua companheira, Maria Bonita — a primeira mulher a participar ativamente do grupo —, Lampião formou o casal mais icônico da história do banditismo social brasileiro.
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Conhecido pelo uso de trajes de couro luxuosos e ornamentados, ele comandou saques e atos de violência que aterrorizaram a região por quase duas décadas.
Sua trajetória terminou de forma brutal em 1938, em uma emboscada na grota de Angico, em Sergipe, onde foi morto e degolado pelas forças policiais.
A descendência de Lampião ainda é motivo de interesse histórico e pesquisas de DNA. A figura mais conhecida é Expedita Ferreira Nunes, a única filha legítima reconhecida de Lampião e Maria Bonita, nascida em 1932.
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Criada por terceiros e por seu tio devido aos perigos da vida no cangaço, Expedita é hoje chamada de "Princesa do Cangaço" e representa a maior expressão viva dessa memória.
Outros filhos surgiram ao longo dos anos, como João Peitudo, reconhecido por exames de DNA apenas na década de 1990.
A figura de Lampião, frequentemente comparada à do fora da lei norte-americano Jesse James, permanece viva no imaginário nordestino como um símbolo de "homem de pulso".
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É essa mística de coragem e firmeza que o presidente Lula buscou resgatar ao citar o cangaceiro para exemplificar a postura que pretende adotar diante de Trump e das pressões econômicas externas.
A herança de Lampião não se limita apenas ao sangue, mas também a uma visão rígida sobre autoridade. Em entrevista emblemática concedida à Folha em 2.000, Expedita Ferreira Nunes, hoje com 93 anos, afirmou acreditar que o Brasil precisava de um "homem de pulso" como seu pai para resolver problemas de segurança e desordem.
Na ocasião, ela criticou movimentos sociais contemporâneos e a violência descontrolada no sertão, defendendo que o cangaço de seu pai não destruía propriedades, mas "tirava dos ricos para dar aos pobres".
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Expedita, que guarda poucas lembranças físicas dos pais devido à morte precoce do casal quando ela tinha apenas cinco anos, destacou que o medo sentido no cotidiano moderno é maior do que o causado pelas armas do bando de seu pai.
Para a herdeira do "Rei do Cangaço", a figura de autoridade que o país necessita "morreu com Lampião", reforçando a imagem do cangaceiro como um justiceiro implacável.