Defensor dos povos originários há mais de seis décadas, Raoni ajudou a garantir direitos indígenas na Constituição, enfrentou grandes obras na Amazônia e se tornou uma das vozes mais respeitadas do planeta na luta pela preservação da floresta.
Na manhã desta segunda-feira (15), o Hospital Dois Pinheiros, em Sinop, informou que o líder indígena Raoni Metuktire, de 94 anos, foi internado em estado grave na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
Segundo o boletim médico, o cacique deu entrada na unidade no fim da tarde de domingo (14), após ser transferido da região de Peixoto de Azevedo, onde reside.
Familiares relataram que ele começou a apresentar problemas de saúde no sábado (13), e o quadro se agravou no dia seguinte.
Os exames iniciais apontaram alterações na função renal e indicadores de um processo infeccioso grave, sendo a principal hipótese diagnóstica uma sepse com foco pulmonar, causada por pneumonia broncoaspirativa.
Uma vida marcada pela resistência
Reconhecido pelo tradicional botoque no lábio inferior e por seu discurso firme, Raoni é uma das figuras mais conhecidas do Brasil no exterior.
Ele cresceu em um período em que sua comunidade, o povo Mẽbêngôkre (Kayapó), ainda vivia de forma seminômade e sem contato permanente com a sociedade não indígena.
O primeiro contato definitivo com o mundo exterior aconteceu em 1954, quando ele tinha cerca de 24 anos. Foi nessa época que conheceu os irmãos Villas-Bôas, responsáveis por importantes ações de proteção aos povos originários no Brasil.
A partir daí, Raoni passou a atuar como interlocutor estratégico entre seu povo e o restante da sociedade, papel que o transformaria em uma das lideranças mais influentes da história do país.

Como Raoni ganhou projeção internacional?
Embora já fosse respeitado na Amazônia, Raoni ganhou os holofotes do mundo no final da década de 1980.
O ponto de virada na sua projeção global aconteceu em 1987, quando conheceu o cantor britânico Sting.
A parceria levou os dois a realizarem uma série de viagens por diversos países para denunciar o avanço do desmatamento e chamar a atenção para a situação dos indígenas brasileiros.
Essa campanha histórica mobilizou governos, artistas e organizações ambientais em escala global.
A repercussão foi tão grande que ajudou a arrecadar recursos para a demarcação de terras e contribuiu para transformar Raoni no rosto da defesa da floresta amazônica.
Anos antes, em 1978, sua história já havia sido retratada no documentário “Raoni”, indicado ao Oscar de Melhor Documentário.
Papel determinante na Assembleia Constituinte de 1988
Uma das contribuições mais importantes de Raoni ocorreu durante a Assembleia Nacional Constituinte, visto que ele participou ativamente das mobilizações que pressionaram os parlamentares a incluir na Constituição Federal de 1988 direitos considerados históricos para os povos originários.
Entre as principais conquistas da época estavam a proteção das culturas indígenas e o direito à demarcação de suas terras tradicionais.
Especialistas consideram que a presença incansável dessas lideranças foi fundamental para que esses direitos fossem formalmente reconhecidos no texto constitucional brasileiro.
A resistência contra Belo Monte e grandes obras
Ao longo das últimas décadas, Raoni esteve na vanguarda de diversas campanhas contra projetos de infraestrutura que ameaçavam seus territórios e a sobrevivência da floresta.
Uma das mobilizações mais conhecidas ocorreu em 1989, durante o Primeiro Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, em Altamira, no Pará.
O evento reuniu lideranças de várias etnias para protestar contra o então projeto da barragem de Kararaô, que anos depois seria retomado e daria origem à Usina Hidrelétrica de Belo Monte.
Desde então, Raoni se consolidou como uma das vozes mais ativas contra o avanço do desmatamento, da mineração ilegal, da grilagem de terras e de grandes empreendimentos na região.
A liderança que ajudou a blindar milhões de hectares
Outro marco de sua trajetória foi a participação direta na luta pela demarcação dos territórios Kayapó e de outras terras indígenas da Amazônia.
Atualmente, essas áreas formam um dos maiores blocos contínuos de floresta tropical preservada do planeta.
Na prática, esses territórios funcionam como uma barreira ambiental crucial contra o avanço do desmatamento.
Para pesquisadores e ambientalistas, a preservação dessas áreas tem um papel decisivo na conservação da biodiversidade e no equilíbrio climático global.

Reconhecimento global e indicação ao Nobel da Paz
O respeito internacional por Raoni aumentou ainda mais nos últimos anos.
Em 2020, seu nome foi apresentado por um comitê de ambientalistas, antropólogos e organizações da sociedade civil como candidato ao Prêmio Nobel da Paz, em reconhecimento à sua trajetória de vida dedicada à preservação ambiental.
Ao longo de sua jornada, ele foi recebido formalmente por chefes de Estado e líderes religiosos de primeiro escalão, incluindo presidentes franceses, o Papa Francisco e altos representantes de organismos internacionais ligados aos direitos humanos.
O legado de uma voz indispensável
Mais do que um líder do povo Kayapó, Raoni se tornou uma referência global incontestável.
Sua imagem marcante, caracterizada pelo cocar amarelo e pelo botoque labial tradicional, passou a representar a resistência dos povos da floresta.
Mesmo enfrentando os desafios naturais da idade avançada e a recente internação hospitalar que mobiliza cuidados médicos intensivos, o legado de suas mais de seis décadas de ativismo permanece intacto.
Para indígenas, ambientalistas e cientistas de todo o mundo, Raoni continua sendo uma das vozes mais ouvidas, influentes e respeitadas da história da Amazônia contemporânea.
