Qual o limite da conexão?

Como a tecnologia e a praticidade dos aplicativos nos aproximam e nos separam ao mesmo tempo

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04 FEV 2018Por Rafaella Martinez14h32
O quanto a tecnologia está substituindo o fator humano? Será possível estimar a consequência disso?Foto: Paulo Villaça

Foram mais de 1.100km percorridos, 28 locais visitados e uma infinidade de mais de 800 fotos tiradas a partir do meu smartphone apenas no primeiro mês de 2018. E não foi preciso calcular as rotas ou fazer contas mirabolantes para chegar a esses números. Os dados estão disponíveis em uma nuvem montada pelo google e disponível mediante uma senha de acesso ao site: http://www.google.com/settings/ads/.

Com o auxílio do GPS do meu celular o servidor de internet calculou, durante os 31 dias de janeiro, todos os meus passos – inclusive nos momentos em que o sinal de minha operadora de telefonia móvel estava desligado. Diversas rotas foram mapeadas mostrando, em uma espécie de linha do tempo, as fotos que tirei nos locais onde estive em ordem cronológica.

A empresa guarda informações sobre você e o quanto ela sabe ou deduziu sobre o seu perfil online, com base no seu comportamento. Com base nisso, o Google usa as informações que tem sobre o usuário para oferecer anúncios para o seu perfil de cliente.

Se as informações acima descritas te assustam, pare para refletir sobre o quanto sua vida, seus hábitos e seus gostos estão diretamente atrelados com a tecnologia. Aplicativos permitem com que o usuário escute as músicas que quer, gerencie o dinheiro, controle a quantidade de calorias ingeridas na alimentação e até pleiteie encontrar um amor. A praticidade é tamanha que muitos pensam que nunca vivemos estivemos tão conectados e próximos. Mas a pergunta a ser feita é: o quanto a tecnologia está substituindo o fator humano? E será possível estimar consequência disso?

Sucesso de audiência, a série de televisão ‘Black Mirror’ examinam a sociedade moderna e as consequências imprevistas das novas tecnologias. O ‘espelho negro’ (na tradução para o português) faz menção à tela fria de uma TV, de um monitor ou de um smartphone.

A provedora global de filmes e séries de televisão Netflix monitora a frequência de acesso dos usuários ao programa. Mensagens como ‘Você ainda está assistindo?’ após um longo período de inatividade e atualizações sobre a visualização contínua de conteúdos considerados perturbadores.

Em dezembro do ano passado, a plataforma enviado um e-mail a um usuário que passou uma semana vendo séries perguntando se estava tudo bem após seus hábitos de consumo mudarem por conta de uma crise na saúde mental. Elogiada por alguns, a medida também levantou o debate sobre privacidade.

“O que é público e o que é privado em tempos onde ansiamos viver uma vida ideal que na verdade nada mais é do que uma fuga para o mundo do outro?”, questiona Marina Tucunduva Bittencourt Porto Vieira, professora de Psicologia, Mídias Interativas e Subjetividade da Universidade Católica de Santos (UniSantos).

De acordo com ela, é possível usar várias lentes para entender o processo atual da tecnologia. “Hoje o ser humano é parte máquina e em um tempo onde a tecnologia é tão latente os números de casos de depressão e suicídio também estão aumentando. Vivemos um processo delicado onde estamos rodeados de pessoas e ao mesmo tempo sem ninguém”, afirma.

Relações líquidas

O sociólogo polonês radicado na Inglaterra Zygmunt Bauman, falecido no ano passado é autor da teoria “modernidade líquida”. É dessa forma que ele se referia ao momento “líquido” que vivemos, onde a sociedade está em constante mudança e nada parece ter sido feito para durar.

Em entrevista à repórter Adriana Prado da revista ‘Isto É’, Bauman destacou que desses tempos líquidos resultariam, entre outras questões, a obsessão pelo corpo ideal, o culto às celebridades, o endividamento geral, a paranoia com segurança e principalmente a instabilidade dos relacionamentos amorosos.

“Os contatos online têm uma vantagem sobre os offline: são mais fáceis e menos arriscados — o que muita gente acha atraente. Casos as coisas fiquem “quentes” demais para o conforto, você pode simplesmente desligar, sem necessidade de explicações complexas, sem inventar desculpas, sem censuras ou culpa. Mas não há almoços grátis, como diz um provérbio inglês: se você ganha algo, perde alguma coisa. Entre as coisas perdidas estão as habilidades necessárias para estabelecer relações de confiança, as para o que der vier, na saúde ou na tristeza, com outras pessoas. Relações cujos encantos você nunca conhecerá a menos que pratique”, destacou.

A ideia é a mesma defendida por Marina. “As relações estão fluídas. Hoje os mesmos aplicativos que permitem com que a gente interaja com uma multidão de pessoas são os mesmos que, com um toque, permite com que essas pessoas sejam excluídas. Estamos nos fechando em um mundo solitário e guiado pelo prazer imediato e pela superficialidade nas relações humanas”, finaliza.