Cotidiano

Psiquiatra revela o que impede denúncias de violência: 'O mais difícil é a dependência emocional'

Em um cenário de 266 feminicídios em São Paulo e apagão de dados na Baixada Santista, psiquiatra explica as barreiras invisíveis e o mecanismo cerebral da dependência emociona

Amanda Fernandes

Publicado em 31/03/2026 às 05:28

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O sentimento amoroso tem a capacidade de causar sintomas de dependência semelhantes aos do uso de substâncias / Freepik

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O estado de São Paulo encerrou o ano de 2025 com a marca trágica de 266 feminicídios registrados. Na Baixada Santista, o desafio de enfrentar esse crime ganha camadas extras de dificuldade devido a um novo modelo de divulgação de estatísticas da Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP)

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A fragmentação dos dados impede recortes regionais automáticos, dificultando o trabalho de prefeituras e órgãos como a Patrulha Guardiã, em Guarujá, que agora precisa buscar informações diretamente nas delegacias sedes para entender a realidade local.

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Esse cenário de incerteza estatística reflete uma barreira externa, mas existem outras, internas e psicológicas, que mantêm as vítimas em ciclos de agressão muito antes de um desfecho letal.

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Para entender por que a decisão pela denúncia é tão complexa e muitas vezes adiada, conversamos com o médico psiquiatra doutor Sergio Luiz dos Santos Prior. 

Com vasta trajetória no Hospital Guilherme Álvaro e na rede pública de Santos e Praia Grande, o especialista detalha como o cérebro da vítima é afetado pela violência intermitente.

DL: Doutor, do ponto de vista neurobiológico, como funciona a dependência emocional que se cria em uma relação abusiva? É comparável à dependência química?

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Dr. Sergio Prior: Não resta a menor duvida que os sentimentos amorosos usam as mesmas vias neurais das substâncias psicoativas, ativando o sistema de recompensa do cérebro. Isso significa que o sentimento amoroso tem a capacidade de causar sintomas de dependência semelhantes aos do uso de substâncias ou drogas psicoativas.

DL: O que é o conceito de desamparo aprendido e como ele anula a capacidade de reação da mulher, mesmo quando existem canais de denúncia disponíveis?

Dr. Sergio Prior: De acordo com a Associação Americana de Psicologia, o desamparo aprendido ocorre quando alguém enfrenta repetidamente situações incontroláveis e estressantes e não exerce controle quando este se torna disponível. Eles 'aprenderam' que estão indefesos nessa situação e não tentam mais mudá-la, mesmo quando a mudança é possível.

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DL: Como o gaslighting (manipulação psicológica) afeta a saúde mental da vítima a ponto de ela duvidar da própria percepção sobre a violência que sofre?

Dr. Sergio Prior: Com o tempo, uma pessoa vítima de gaslighting pode começar a acreditar que não pode confiar em si mesma ou que tem um transtorno mental. Esse gaslighting pode levar a: ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático.

DL: O medo de represálias físicas é óbvio, mas quais são as barreiras invisíveis, como culpa ou vergonha, que a psiquiatria identifica como as mais difíceis de romper?

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Dr. Sergio Prior: O mais difícil de romper é a dependência emocional do agressor. As juras de amor, os pedidos sistemáticos de desculpas, as promessas, parecem ter um efeito capaz de afetar o juízo crítico da pessoa agredida.

DL: Como a intermitência do afeto, com momentos bons seguidos de agressões, confunde o sistema de recompensa do cérebro da vítima e dificulta a denúncia?

Dr. Sergio Prior: A vítima da agressão é de tal forma subjugada pelo agressor, de uma intensidade tal que a sua capacidade de reflexão fica prejudicada. A decisão de denunciar parece sempre ser deixada para um plano secundário.

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