Projeto TAMTAM luta contra o esquecimento

Referência no Brasil e no Mundo, o projeto - fundamental à saúde pública - sobrevive sem apoio público e privado

Hoje é comemorado Dia da Luta Antimanicomial. Porém, as vésperas de completar 25 anos de um trabalho pioneiro sobre a questão e de inclusão de pacientes à sociedade, reconhecido no Brasil e no Mundo, a Associação Projeto TAMTAM precisa, urgentemente, ser redescoberta, principalmente pelos santistas, pois o projeto, que começou em Santos e, até hoje, continua sendo a maior referência no acolhimento e tratamento de pessoas com múltiplas deficiências está praticamente esquecido nas dependências do Teatro Municipal.

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Liderada pelos arte-educadores Renato Di Renzo e Cláudia Alonso, a Associação, que já atendeu milhares de pessoas, luta com dificuldades para manter a assistência dos atuais 180 alunos, de sete a 75 anos que, aos poucos e diariamente, ultrapassam obstáculos, conquistam espaços, vencendo o preconceito e a discriminação.

Pautada pela diversidade, pluralidade e principalmente a inclusão, a Associação — que funciona no Espaço Sociocultural e Educativo Café Teatro Rolidei (dentro do Teatro Municipal de Santos) — embora seja reconhecida como de utilidade pública, não tem convênio, subvenção ou qualquer apoio financeiro público ou privado, mesmo já tendo conquistado diversos prêmios dentro e fora da Cidade.

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No Café Teatro Rolidei, enquanto as mães trocam experiências e ajudam na manutenção do espaço, os filhos — sem pagar nada — participam de oficinas, apresentações musicais e teatrais, saraus de poesia, palestras, workshops, conferências, lançamentos de livros e outras atividades, que proporcionam qualidade de vida, saúde mental coletiva enfim, como dizem Di Renzo e Cláudia “celebram à vida”.

Como não há verba oficial, a Associação TAMTAM conta com um grupo de voluntários que não só atende os 180 alunos, mas também quase dois mil beneficiários indiretos, entre familiares, amigos, vizinhos, colegas de escola e faculdades. Eles se superam como artistas, educadores e, porque não, como auxiliares de limpeza e administradores do espaço.

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Parceria inédita

Recentemente, o TAMTAM firmou parceria com o Sindicato de Artistas e Técnicos em Espetáculos e Diversões do Estado de São Paulo e, por intermédio de um termo de cooperação técnica, poderá profissionalizar pessoas portadoras de deficiência, que receberão registro de ator, atriz, contrarregra, iluminador e outras funções da profissão de artista e técnico.

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A luta

A Luta Antimanicomial teve início no fim da década de 70, com a mobilização dos profissionais da saúde mental e dos familiares de pacientes com transtornos mentais. A causa se insere no contexto de redemocratização do País e na mobilização político-social que ocorreu na época.

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O movimento teve o objetivo, além de denunciar os manicômios como instituições de violências, propor a construção de uma rede de serviços e estratégias territoriais e comunitárias, profundamente solidárias, inclusivas e libertárias.

Antigamente, os internados eram submetidos a choques elétricos, maus tratos, isolamento da sociedade, entre outros. Hoje, o tratamento é humanizado e busca reintegrar os pacientes ao convívio social.

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Santos Em 1989, após denúncias de maus tratos e intervenção na Casa de Saúde Anchieta, Renato Di Renzo iniciou um trabalho no local, adotando novas técnicas e posturas em relação à saúde mental, criando o Projeto TAMTAM, que levou teatro, artes visuais, dança ao diaa- dia dos doentes, que chegaram a criar a Rádio TAMTAM.

O trabalho revolucionou o sistema de tratamento de saúde mental de Santos e se tornou referência em todo o País e no exterior. Os “loucutores” da TAMTAM foram manchetes em diversos jornais e revistas, como a Folha, Estadão, Washington Post, New York Times, Veja, Época e tantos outros veículos, como o Fantástico (Globo) e a rádio BBC de Londres.

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Trabalho fundamental à saúde pública

“Se o TAMTAM parar, centenas de pessoas terão que migrar para o serviço público em busca de tratamento e atividades ocupacionais. Além disso, todos os avanços conquistados nos últimos anos regredirão. É preciso um novo olhar para a Associação”, afirma Cláudia Alonso, que lembra que cartazes, panfletos, encontros e debates sobre a luta antimanicomial são importantes, mas é preciso ajudar quem há anos põe literalmente a mão na massa e promove a recuperação e inclusão das pessoas, evitando a segregação.

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Há 20 anos no Projeto TAMTAM, Cláudia lembra que o trabalho da Associação é diário e requer quebra de obstáculos que poucos conhecem. “O TAMTAM faz parte do rol de políticas públicas e precisa, por exemplo, de profissionais treinados e pagos, além de investimentos no Espaço Rolidei, cedido pela Prefeitura. A palavra inclusão virou moda de uns tempos para cá, mas o TAMTAM promove a inclusão desde 89”, afirma a psicóloga e bailarina, que chegou ao projeto pelas mãos do ex-prefeito Davi Capistrano, na época secretário de Saúde de Santos.

“No meu primeiro dia, no Anchieta, percebi gente pintando paredes, esculpindo, encenando, enfim, fazendo todo o tipo de arte e, naquele momento, não consegui saber quem era louco e quem era normal, quem era técnico e quem era paciente. Foi quando me dei conta que estava diante de um trabalho especial, em que o verbo ‘fazer’ é fundamental. Eu, literalmente, tirei as sapatilhas dos pés naquele momento e entrei na luta para potencializar as pessoas”, lembra, alertando que isso a move até os dias de hoje.

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Cláudia Alonso reafirma que, atualmente, o Projeto TAMTAM precisa de investimentos técnicos e financeiros. “Embora tenhamos voluntários, é preciso pessoas que se preocupem, por exemplo, com a manutenção da salubridade do Rolidei, pois lidamos com crianças e idosos. A gente trabalha com saúde, prevenção e dezenas de outros segmentos. Nosso desejo é ter aqui também profissionais remunerados que possam se dedicar 100%”, salienta.

Renato Di Renzo garante que é preciso pouco para “tocar” o TAMTAM. Ele já tem um projeto pronto e encaminhado à Prefeitura de Santos, há meses aguardando aprovação. “No começo, eu não tinha uma equipe multidisciplinar, mas sim uma formada só por psicólogos. Eu conheço pessoas de várias áreas que poderiam entrar no projeto. Com verba, nós poderíamos recriar o TAMTAM, até com terapias alternativas, aumentando o trabalho de saúde pública e social já desenvolvido pela Associação. Saúde mental é exatamente a qualidade de vida das pessoas”, garante Di Renzo.

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O educador disse que já se reuniu com vereadores de Santos para alertá-los sobre a necessidade de ampliar o TAMTAM. “A sensibilização já foi feita. Já mostramos trabalho e obtivemos vários prêmios. Hoje, parece que não existimos. A associação vive sem dinheiro para promover a inclusão. O TAMTAM é apolítico e não é meu. É da Cidade de Santos, porque é o único que faz o questionamento da saúde mental do Município e esse trabalho é reconhecido no Mundo”, desabafa.

Finalizando, Di Renzo garante que há várias maneiras de se detectar problemas mentais que, vistos com antecedência, pode-se tratá-los e evitar até suicídios. “Não sei até quando conseguiremos resistir sem apoio”, afirma, alertando que para não deixar que o projeto morra, já analisa propostas de outros municípios e até de outros estados.