A fome é uma das heranças históricas que a sociedade organizada combate a séculos. Alguns governos priorizam políticas públicas que amenizam os danos, incentivam e agilizam a erradicação desse mal, enquanto outros acreditam que ajustar a economia é a melhor fórmula para combater esse fato social.
“Quem sente fome tem pressa e muitas vezes não pode esperar por políticas públicas ou até mesmo, em tempos de crise econômica, por oportunidades de emprego ou apenas um ‘bico’ para ganhar uns trocados”. Foi com esse pensamento que o aposentado Arnaldo Silva Pereira, de 75 anos, idealizou o projeto social que leva pães até as famílias que necessitam.
“Além dos pães, o projeto também recebe doações de móveis, roupas, eletrodomésticos e eletrônicos. O que sobra é vendido a custo baixo e o dinheiro das vendas é usado para financiar o projeto”, destaca.
Fora os custos de deslocamento – que são pagos com o bazar e com eventos beneficentes – o projeto precisa de voluntários para manter uma rotina extensa que vai da coleta até a distribuição.
“Acordo cedo, saio de casa às 5h, passamos em 15 padarias sem contar os pontos de doação para o bazar, para estar no máximo às 9h entregando os pães”, relata Arnaldo, que desde 1982 é engajado nessa causa.
O projeto, que ocorre semanalmente aos domingos e às quartas-feiras, tem base fixa no Jardim São Manoel, em Santos, e atende cerca de 800 pessoas de diversos bairros da cidade, além de índios da Aldeia Piaçaguera, em Peruíbe. Recentemente tem atendido também a moradores do bairro Quarentenário, em São Vicente.
Seu Arnaldo, como é conhecido por todos, se mudou para Santos ainda jovem: com 20 anos saiu do extremo sul baiano e veio tentar a vida em São Paulo. Devido um problema de infância, perdeu a visão em um dos olhos.
“Sofria muito por conta do problema no olho e acabei quebrando o braço quando era garoto, aí piorou ainda mais. As pessoas tinham preconceito, não me aceitavam. A vida no sertão era muito dura”, explica Arnaldo.
“Olhava ao meu redor e via muita gente catando lixo para comer e, ao mesmo tempo, via muito desperdício em alguns estabelecimentos. Certo dia tive a ideia de fazer o intermédio entre a comida boa, que seria jogada fora, com as pessoas que catavam lixo para comer. Fiquei com essa ideia na cabeça por muito tempo, porém, devido a vida corrida de trabalho, não tinha tempo para realizar. Até o dia em que me aposentei”.
Arnaldo relata que foi em um sonho que teve o despertar. “Um certo dia tive um sonho em que me falavam para eu ir ajudar o próximo. Acordei com aquilo na cabeça, decidido. Era a hora de colocar aquela ideia em prática”.
Entretanto, mesmo com o intuito de levar ajuda a quem precisa, o voluntário afirma ter encontrado muitas pedras no meio do caminho. “Em tudo que a gente faz na vida encontramos obstáculos e muitas vezes o primeiro obstáculo é a própria família, que não aceita a nossa decisão, as nossas escolhas”, conta.
“Um dia um colega veio conversar e perguntou por que eu saia de casa tão cedo e fazia tanto esforço para ajudar quem não precisava. Eu respondi que era um prazer sair de casa às 5h da manhã para ajudar o próximo, e ele com um sorriso no rosto respondeu que não sairia da cama pra buscar pão para os outros de jeito nenhum”.
“Alguns anos depois, reencontrei esse rapaz na fila de espera para pegar pão no projeto. Ele me olhou, abaixou a cabeça e logo disse que havia perdido o emprego, separado da esposa, que estava em um momento difícil na vida”, relata Arnaldo.
Renilda Almeida, aposentada de 56 anos, é uma das beneficiárias e também voluntária do projeto. Para ela, “Arnaldo é um ser extremamente humano e humilde, uma pessoa fenomenal, além de ser amoroso e carinhoso com todos ao seu redor”.
Manter um projeto social por quase quatro décadas é um feito raro, porém, de acordo com Arnaldo: “só é preciso determinação, amor, responsabilidade, equilíbrio e jamais enganar os outros para não ser enganado e ser sempre sincero e leal”.
Seu Arnaldo convida a todos para o Caldo Verde Beneficente no Bairro Jardim São Manoel. O evento será realizado hoje no Espaço Ramos, localizado na Praça Antônio Guilherme Gonçalves, 79, das 12h às 17h. Para doações, entre em contato diretamente com Arnaldo pelo telefone (13) 3014-9703.
DADOS
De acordo com relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), no Brasil, a diminuição no número de famintos aconteceu de forma mais acentuada no período de 2004 a 2014, quando 26,5 milhões de pessoas deixaram a faixa da extrema pobreza. 2014 é tido como um marco, pois representa o ano em que o país saiu do Mapa da Fome elaborado pela FAO.
Entretanto, o documento indicou que a quantidade de pessoas famintas no Brasil voltou a crescer. Entre 2015 e 2017 o número de brasileiros desnutridos chegou a 5,2 milhões.
