Estudos indicam para ressacas mais fortes em Santos nos próximos anos / Nair Bueno/Diário do Litoral
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À medida que o nível do mar sobe e a orla segue cercada por concreto, Santos caminha para um cenário de ressacas mais destrutivas nas próximas décadas. Estudos científicos e planos oficiais da própria Prefeitura apontam que o problema não é apenas a força das ondas, mas a combinação entre mar mais alto, eventos extremos mais frequentes e uma costa cada vez mais ocupada por muros, muretas e edificações.
Pesquisas climáticas realizadas por instituições brasileiras e estrangeiras indicam que o nível do mar em Santos pode subir cerca de 18 a 30 centímetros até 2050 e chegar a algo entre 36 centímetros e 1 metro até o fim do século, a depender do cenário de emissões de gases de efeito estufa. Na prática, isso significa que a “linha de partida” das ressacas estará mais alta: ondas que antes se dissipavam na faixa de areia terão mais facilidade para alcançar calçadas, jardins, ciclovias e pistas de veículos.
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Os próprios estudos destacam que a cidade pode se tornar mais suscetível a inundações costeiras, com prejuízos bilionários em áreas baixas e densamente ocupadas. A combinação de marés mais altas com ressacas intensas aumenta o risco de alagamentos em trechos da orla e em zonas próximas a canais, manguezais e áreas de planície costeira.
Outro fator que agrava o quadro é a forma como o litoral paulista, em especial a Baixada Santista, foi ocupado. Levantamentos recentes mostram que o estado já tem centenas de quilômetros de estruturas artificiais na linha de costa — como muros de contenção, muretas, quebra-mares e píeres — e que cerca de dois terços dessas estruturas se concentram justamente na região da Baixada, a mais urbanizada do litoral.
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Especialistas explicam que essas barreiras rígidas protegem trechos específicos, mas podem transferir a energia das ondas para outros pontos da praia, acelerando a erosão. Ao mesmo tempo, a ocupação próxima a praias e margens de manguezais reduz a capacidade de ecossistemas naturais funcionarem como “amortecedores” das ressacas. Sem faixa de areia larga, restinga e vegetação de mangue, a água bate direto no concreto.
Os efeitos desse quadro já aparecem de forma visível. A forte ressaca de 29 de julho de 2025 destruiu trechos do calçadão em frente à Avenida Bartolomeu de Gusmão, entre as praias do Embaré e Aparecida, arrancando muretas, bancos e parte do passeio. A Prefeitura iniciou, meses depois, uma obra milionária para reconstruir a área, classificada como intervenção emergencial após sucessivos episódios de erosão.
Nos últimos anos, ressacas mais intensas têm deixado a orla em alguns trechos praticamente sem faixa de areia em determinados dias, com o mar batendo diretamente na mureta e obrigando o fechamento parcial de pontos da avenida beira-mar. Moradores e comerciantes relatam um aumento na frequência de transtornos, com danos a equipamentos públicos, alagamentos em vias e risco para pedestres e ciclistas.
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Por outro lado, Santos acabou se tornando também um laboratório de soluções de adaptação às mudanças climáticas. Na Ponta da Praia, um projeto-piloto desenvolvido em parceria com a Unicamp implantou uma barreira submersa construída com grandes bolsas de tecido geotêxtil preenchidas com areia, formando um “muro” sob a água para reduzir a energia das ondas. Monitoramentos posteriores indicaram aumento do volume de areia na região, sinal de que a estrutura ajudou a reter sedimentos e ampliar a faixa de praia.
A Prefeitura já discute a ampliação de estruturas deste tipo e tem recorrido ao uso de geobags e outras obras costeiras em trechos considerados críticos. Paralelamente, o Plano Municipal de Mudança do Clima e o Plano de Ação Climática de Santos reconhecem a ressaca, o avanço do mar e as inundações costeiras como riscos centrais para o município, prevendo medidas de adaptação que vão desde intervenções de engenharia até o uso de soluções baseadas na natureza e o planejamento urbano em áreas vulneráveis.
As projeções apontam que, mantida a tendência atual, as ressacas não necessariamente serão mais frequentes em termos absolutos, mas tendem a provocar estragos maiores quando acontecerem, justamente porque o mar estará mais alto e encontrará uma orla rígida e pouco flexível. Sem ações estruturadas e de longo prazo, a cidade deverá conviver com um número crescente de obras emergenciais, interdições recorrentes na orla e perda de infraestrutura, com impacto direto sobre a vida dos moradores, o turismo e o funcionamento do porto.
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Na outra ponta, especialistas lembram que Santos está à frente de muitas cidades costeiras brasileiras por já ter estudos detalhados, planos específicos para clima e projetos de adaptação em andamento. O desafio, daqui para frente, é transformar essas análises em políticas contínuas, que combinem proteção da orla, recuperação de ecossistemas e revisão da ocupação urbana, para que a cidade consiga enfrentar um cenário em que o mar avança alguns centímetros, mas o custo de ignorar esse movimento pode ser medido em metros de calçadão e milhões em prejuízos.
*Com informações da Agência Fapesp, Prefeitura de Santos (Plano Municipal de Mudança do Clima, Plano de Ação Climática e notícias sobre ressacas, danos na orla e obras de recuperação) e estudos e divulgações da Unifesp