Programa do governo acelera consultas e faz filas históricas do SUS começarem a andar

A iniciativa planeja aumentar a oferta de acesso a consultas especializadas, exames e cirurgias integrando as redes pública e privada, montando forças-tarefa, expandindo redes de telessaúde e reorganizando as filas de atendimento

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Os primeiros resultados indicam um aumento no volume de atendimentos, mas especialistas alertam que o desafio de reduzir as filas do SUS ainda está longe de ser resolvido

 Conseguir uma consulta com um médico especialista pelo Sistema Único de Saúde (SUS) sempre foi um dos maiores obstáculos enfrentados pelos brasileiros.

Em muitas áreas do país, os pacientes precisam esperar meses, ou até anos, antes de conseguirem ver oftalmologistas, cardiologistas, neurologistas ou outros profissionais importantes.

Para resolver essa questão, o governo federal iniciou o programa Agora Existem Especialistas.

A iniciativa planeja aumentar a oferta de acesso a consultas especializadas, exames e cirurgias integrando as redes pública e privada, montando forças-tarefa, expandindo redes de telessaúde e reorganizando as filas de atendimento.

Os primeiros resultados indicam um aumento no volume de atendimentos, mas especialistas alertam que o desafio de reduzir as filas do SUS ainda está longe de ser resolvido.

O que é o programa Agora Existem Especialistas?

O programa foi estabelecido para acelerar o acesso da população a especialistas no SUS, visto como uma das principais áreas de gargalo na saúde pública brasileira.

Ele combina várias estratégias para encurtar os tempos de acesso para consultas, exames e cirurgias nas áreas de saúde com maior demanda não atendida.

Algumas dessas prioridades incluem oftalmologia, cardiologia, ortopedia, oncologia, ginecologia e otorrinolaringologia, todas áreas que concentram as maiores filas que acontecem no sistema público.

O programa também aposta em forças-tarefa, unidades móveis de saúde e na expansão da telessaúde e formação de novos especialistas para aumentar a capacidade de atendimento em todo o país.

Colaboração estreita com o setor privado

As principais apostas do programa foram sobre o uso da estrutura existente na rede privada. Mais de 70% dos serviços especializados no SUS são atualmente realizados por contratados privados que trabalham para as autoridades públicas.

Segundo especialistas, o programa reconhece essa realidade e busca utilizá-la de forma mais intensa para ampliar rapidamente a oferta de consultas, exames e cirurgias.

Para promover a adesão de hospitais e clínicas, o governo aumentou as taxas de remuneração pagas pelos diferentes procedimentos.

Os aumentos em alguns casos ultrapassaram 300% em relação à tabela tradicional do SUS, considerada obsoleta há anos.

“Não é que agora o SUS esteja pagando demais. Às vezes o valor ainda está abaixo do mercado. Mas antes estava tão baixo que não havia prestador disposto a oferecê-los”, explica Luna Rezende de Machado de Sousa Canada, pesquisadora da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Hospitais podem oferecer serviços em troca de dívidas

Outra medida inovadora permite que hospitais privados e filantrópicos endividados com a União quitem parte dos seus débitos prestando serviços ao SUS.

Na prática, essas instituições podem oferecer consultas, exames e cirurgias em troca da redução de dívidas tributárias.

O modelo busca aumentar rapidamente a capacidade de atendimento sem depender exclusivamente da expansão da rede pública.

Segundo dados citados na reportagem, mais de 3,5 mil instituições estavam aptas a participar do mecanismo, o que representa mais de R$ 34 bilhões em débitos inscritos.

Fim do “vai e vem” entre consultas e exames

Uma das mudanças mais importantes durante esse processo foi a chamada Oferta de Cuidado Integrado (OCI), feita para pacientes que seriam encaminhados separadamente para consultas e exames, com filas diferentes em cada etapa.

Frequentemente, a pessoa era apresentada ao especialista sem ter realizado todos os exames esperados e tinha que esperar na fila, atrasando ainda mais o tratamento.

O paciente recebe um pacote de cuidados no novo modelo.

Ele é consultado, realiza exames complementares sob demanda e retorna à clínica dentro do mesmo fluxo de atendimento, contornando a burocracia e acelerando os diagnósticos.

Ritmo acelerado e alta nos indicadores

Dados divulgados pelo Ministério da Saúde indicam um crescimento expressivo na produção de atendimentos especializados desde a implantação da iniciativa.

Segundo a pasta, o SUS realizou 14,9 milhões de cirurgias eletivas em 2025, um número 42% superior ao registrado em 2022. Também foram contabilizados 1,6 bilhão de consultas especializadas e 1,3 bilhão de exames.

O programa também financiou forças-tarefa nacionais, uma das quais realizou uma grande ação na saúde da mulher em um fim de semana que proporcionou cerca de 230.000 atendimentos.

Gargalos estruturais e obstáculos de financiamento.

Apesar dos avanços, analistas destacam que ainda não existe uma fila nacional pública e transparente que permita medir com precisão o tamanho da demanda reprimida no país. Além disso, áreas críticas continuam registrando longos períodos de espera.

A professora Flávia Pereira Carnauba, enfermeira e médica formada pela USP, disse que ainda haverá pacientes esperando meses para realizar procedimentos vitais, como sessões de radioterapia.

O principal obstáculo, para especialidades, continua sendo o financiamento inadequado da saúde pública e os desafios na gestão entre a União, estados e municípios.

Sem recursos contínuos e boa coordenação, apontam os pesquisadores, será difícil converter em retrocessos permanentes nas filas.

Enquanto isso, milhões de brasileiros seguem aguardando por consultas e tratamentos especializados, na expectativa de que o nome do programa se torne realidade para todos, garantindo que realmente haja especialistas disponíveis quando o paciente mais precisa.